E quem paga o aumento salarial do Judiciário? Você, contribuinte

A cúpula do Judiciário se autoconcede um aumento salarial de 16%. Eis um exemplo de por que as contas públicas estão em déficit

A hora do recreio ainda vai demorar muito para chegar no Brasil. Boa parte do tempo, aliás, a impressão é que essa hora não vai chegar nunca, e que o Brasil está destinado a ser um país fracassado para sempre, como é agora. Esqueça um pouco as eleições presidenciais e outros portentos que vêm por aí. São coisas importantes, é claro, e certamente têm um imenso potencial para fazer nosso desastre atual ficar ainda pior do que já é — mas seu potencial para fazer o bem é muito reduzido, pois o país está organizado, planejado e engessado de forma a garantir seu próprio fracasso.

As eleições, com certeza, podem trazer um novo presidente e um novo governo mais qualificados — ou, pelo menos, capazes de dirigir o Brasil de maneira menos ruinosa do que o exército de gafanhotos que ocupou o poder nos últimos 16 anos. Infelizmente, as eleições não têm a capacidade de fazer mágica. As decisões indispensáveis para construir um Brasil com progresso, prosperidade e equilíbrio social dependem, essencialmente, de reformas que os atuais sócios-proprietários do país combatem com empenho de vida e morte — e vão continuar combatendo, seja lá qual for o novo presidente da República. Essa gente, que não abre mão de nada, tem ganho a disputa até agora. Não há sinais de que venham permitir um recreio aos brasileiros que passam a vida trabalhando para servi-los. Querem tudo, querem só para eles e querem já.

Nada representa de maneira tão admirável essa guerra de extermínio contra a nação do que o grosso do Poder Judiciário brasileiro; acabam de dar a si mesmos, a partir de decisão do Supremo Tribunal Federal em proveito de seus 11 membros, um aumento salarial superior a 16%. É um ato de saque, como os vencedores fazem em prejuízo dos vencidos nas guerras. Nenhum cidadão brasileiro terá aumento de 16%, sendo que 13 milhões nem sequer têm salário para ser aumentado, visto que estão desempregados. Também não faz nenhum sentido, em nenhum lugar do mundo, dar um aumento salarial desse tamanho numa economia que está crescendo, basicamente, a 0%.

Perversamente, o descalabro é feito mais uma vez “em cascata” — ou seja, como numa epidemia, espalha-se imediatamente para baixo e mais para baixo, beneficiando milhares de juízes, em seguida os procuradores, e por aí afora. Quando vai se ver, o aumento decretado para si mesmos por 11 cidadãos já está indo para os contracheques da multidão de funcionários instalados nos galhos mais altos da máquina do governo. Esse dinheiro não vem “do governo”. Os beneficiados tiram cada tostão de seus aumentos diretamente do bolso dos brasileiros. É transferência de renda direta de uma classe para outra — ou concentração de riqueza em estado puro.

Eis aí, em toda a sua brutalidade, o problema central do nosso subdesenvolvimento e da dificuldade de reduzir a pobreza de forma genuína neste país: a infinita disposição do Estado para criar e aumentar despesas em favor da classe alta do funcionalismo público. Não apenas no Judiciário, é claro: em tudo. Estão aí seus salários, cada vez maiores, benefícios, vantagens, “auxílios” e aposentadorias integrais. A captura desse dinheiro, arrancado dos cidadãos na forma de impostos, empobrece o Brasil; reduz a renda do contribuinte e, queimado no pagamento da folha, impede o governo de investir, gerar empregos e melhorar os serviços básicos que presta.

Num país que vai arrecadar mais de 2 trilhões de reais em impostos neste ano de 2018, o poder público não tem dinheiro para tapar uma goteira — quase tudo é engolido para sustentar o funcionamento da máquina. Enfim: a despesa é absolutamente superior à capacidade física dos brasileiros em pagá-la. O resultado é um déficit permanente nas contas do governo, financiado tomando-se dinheiro a juros — que serão pagos, de novo, pelo contribuinte.

Os inimigos do Brasil são esses — não há outros. Enquanto mandarem no país, podem trocar à vontade de presidente que não vai acontecer nada de bom.