“É difícil que saia algo bom da guerra comercial”, diz Larry Summers

Para Larry Summers, economista que assessorou Barack Obama e Bill Clinton, o conflito entre Estados Unidos e China já começou

Ao entrar na pequena recepção do escritório de Larry Summers no primeiro andar da Harvard Kennedy School, na cidade de Cambridge, no estado de Massachusetts, o que mais chama a atenção são as fotos na parede. São várias molduras de diferentes tamanhos, mas todas elas contam a mesma história. Em três fotos, Summers aparece no Salão Oval, na Casa Branca, ao lado do ex-presidente Barack Obama. De 2009 a 2011, Summers foi diretor do Conselho Econômico Nacional, órgão ligado ao presidente. A resposta americana à crise de 2008 já foi chamada de “Doutrina Summers”, tamanha a sua influência. Ao lado das fotos de Obama, há uma moldura gigante com o desenho do rosto e o nome de todos os secretários do Tesouro dos Estados Unidos. Summers ocupou o cargo de 1999 a 2001, no governo de Bill Clinton. Para não deixar dúvida sobre quanto Summers valoriza o trabalho na administração pública, há outra foto, próxima ao bebedouro. É uma imagem aérea de Washington num final de tarde em que o Capitólio (prédio do Congresso americano), o obelisco construído em homenagem a George Washington e o Memorial Lincoln aparecem iluminados.

Crítico do governo de Donald Trump, Summers está preocupado com o atual confronto comercial entre os Estados Unidos e a China. Em março, o presidente americano anunciou o aumento de tarifas de importação para o aço e o alumínio, potencialmente atingindo o equivalente a 3 bilhões de dólares de exportações chinesas. Em seguida, a China elevou as tarifas de produtos agrícolas, afetando produtores americanos. Os Estados Unidos não demoraram a reagir. Prometeram voltar à carga a partir de maio com um acréscimo de 25% nas tarifas sobre 1.300 produtos chineses. A China já avisou que vai responder na mesma moeda. Para Summers, estamos na primeira fase de uma guerra comercial.

Como o senhor define uma guerra comercial e quanto falta para que tenhamos uma?

Uma guerra comercial é um ciclo de aumento do protecionismo. Esse ciclo é motivado pela crença de que outros países têm políticas econômicas injustas. Diria que estamos na fase silenciosa de uma guerra comercial. Grandes aumentos de tarifas de importação ainda não foram colocados em prática, mas grandes ameaças já foram feitas. Estamos vendo uma versão na área comercial do que aconteceu na primeira fase da Segunda Guerra Mundial, quando havia muita hostilidade, mas poucas invasões.

Quais são as chances de vermos essa fase calma da guerra desembocar numa fase de conflito aberto?

As chances de um ciclo de conflito total são bastante baixas. Nenhum dos lados tem interesse em algo assim. Ficaria surpreso se visse um aumento grande e generalizado de tarifas. O que não me surpreenderia seria um cenário em que alguns produtos fossem alvo de aumentos e isso afetasse negativamente a confiança na economia com efeitos nas avaliações de risco nos mercados financeiros.

Porto de Qingdao: para o Brasil, há um risco de que produtos chineses que iriam para os Estados Unidos acabem aqui | VCG/Getty Images

Quais são as chances de que esse cenário se materialize?

Os riscos são bastante reais. As chances de isso acontecer são as maiores que eu já vi nas últimas décadas.

Quais são as diferenças entre a atual crise entre os Estados Unidos e a China e a que vimos nos anos 80, quando o alvo do protecionismo era o Japão?

As estratégias americanas nos anos 80 eram pensadas de forma mais cuidadosa para atingir determinados produtos. O foco era mais em objetivos que podiam ser negociados. Havia um comprometimento maior com o processo de resolução de problemas. Isso numa medida maior do que parece ser o caso atualmente.

Pelo que o senhor fala, os riscos são maiores hoje do que nos anos 80.

Os riscos de vermos um retrocesso real no sistema de comércio global são definitivamente maiores hoje do que eram quando os Estados Unidos negociaram com o Japão. Em retrospectiva, o período de maior truculência americana em relação ao Japão, no final dos anos 80 e começo dos 90, parece bastante ridículo quando comparado com o que temos agora. O Japão não era e não se tornou uma ameaça econômica séria para os Estados Unidos. A maior parte da retórica americana naquela época parece muito exagerada. Acabamos tomando medidas que precisaram ser corrigidas anos depois por causa dos estragos que fizeram num importante aliado geopolítico. O Japão era um país com a metade da população americana, com uma Constituição que proíbe o uso de Forças Armadas e onde os Estados Unidos têm uma presença militar substantiva. Era, e é, um aliado importante. Os riscos de um confronto entre os Estados Unidos e a China são consideravelmente maiores. Tanto do ponto de vista da possibilidade de que venha a ocorrer quanto às suas consequências negativas.

Qual é o seu cenário mais provável para a atual crise?

Prefiro não fazer previsões. É importante em qualquer negociação que se criem condições para que o outro lado tenha a possibilidade de dar o que se quer de forma politicamente honrosa. Não estou certo se a estratégia americana foi bem cal-cu-lada para que seja fácil para a China di-zer “sim” às demandas dos Estados Unidos.

Se Estados Unidos e China não chegarem a um acordo, quais serão as principais consequências?

A primeira seria a perda de eficiência econômica, no sentido de que haveria menos comércio e menos acesso a produtos mais baratos. À medida que o tempo passasse, os dois países perderiam competitividade em outros mercados por causa da quebra do comércio entre eles. Veríamos o crescimento substancial das incertezas sobre a economia americana e sobre a chinesa, as quais poderiam se traduzir em mudanças de valores de mercado. Isso tudo poderia puxar ambas as economias para baixo. É difícil prever, porque não temos muita experiência em guerras comerciais. Mas é difícil acreditar que seria algo bom.

O presidente Donald Trump: ameaças protecionistas crescentes | Cheriss May/Nurphoto/Getty Images

Há quem calcule os benefícios da briga entre os Estados Unidos e a China para países como o Brasil. Haveria mais espaço para produtos brasileiros nos Estados Unidos?

Pode ser que haja algum efeito. Produtores brasileiros poderiam ter vantagens com tarifas de importação mais altas para produtos chineses. Mas as consequências negativas para a economia global seriam tão maiores que, no final das contas, o Brasil perderia muito, mesmo que alguns de seus produtores tenham alguma vantagem. Isso sem falar que produtos chineses que antes eram exportados para os Estados Unidos poderiam acabar no mercado brasileiro.

O protecionismo da administração Trump tem origem na percepção de parte da população americana de que o comércio exterior é prejudicial. A globalização precisa passar por algum tipo de reforma?

A globalização é inevitável, dado o progresso da tecnologia. Em breve, teremos mais smartphones no mundo do que pessoas adultas. A realidade hoje aponta que as mudanças daqui para a frente acontecerão de maneira ainda mais rápida. Isso quer dizer que devemos reforçar a rede de apoio social, temos de preparar nossos trabalhadores de uma forma mais eficiente para que possam competir globalmente, temos de investir mais em infraestrutura e em pesquisa e desenvolvimento. Portanto, sim, as políticas públicas devem se ajustar à globalização.

O senhor está focando políticas internas dos países. Existe alguma coisa que deveria ser reformada nas regras da globalização?

Temos de evitar situações em que países se vejam forçados a fazer uma desregulação excessiva porque estão competindo por investimentos de determinadas empresas. Países muitas vezes baixam os impostos de uma maneira que não deveriam. Não podemos deixar que a globalização beneficie de forma demasiada as grandes corporações em detrimento dos trabalhadores. A agenda da globalização precisa dar prioridade às pessoas. Mas não acredito que a imposição de tarifas de importação seja uma saída produtiva.

Até que ponto os últimos governos americanos são culpados por não terem feito as correções necessárias e por terem deixado que o apoio ao livre comércio caísse?

Tanto o Partido Republicano quanto o Democrata tiveram uma agenda comercial que refletiu de forma demasiada as prioridades das elites, das companhias globais. Essa agenda refletiu de forma insuficiente as prioridades dos trabalhadores de classe média. Mas, de forma geral, acho mais produtivo pensar em melhorar o que temos agora em vez de criticar o que aconteceu no passado.

Estados Unidos, Canadá e México estão renegociando o Nafta, tratado de livre comércio da América do Norte. Qual é a sua expectativa?

Sou moderadamente otimista. O povo americano se beneficiou do Nafta. Está melhor hoje do que estaria sem ele. Depois de 25 anos, era de esperar que fosse atualizado. México e Canadá querem isso. Espero que seja isso que aconteça.