Duas semanas é muito pouco para mudar o Brasil

O país anda muito nervoso. Mas pense em como estaria a situação se o presidente fosse Haddad em vez de Bolsonaro. Pronto. Não é preciso perder seu tempo

Já foi dito, mas vale a pena dizer de novo: o Brasil anda muito nervoso. Uma das manifestações mais comuns dessa ansiedade é a cobrança de resultados concretos do governo de Jair Bolsonaro. E então: onde está a reforma da Previdência? Por que ainda não fecharam o Incra, o Ibama e a Funai? Quantos funcionários enfiados na máquina pública pelo PT (tudo peixe graúdo, ganhando de 50 000 reais por mês para cima) já foram demitidos? Por que o Brasil, até agora, não rompeu com a Venezuela? Onde estão os números de queda no índice de homicídios? E as privatizações: alguém já viu alguma privatização sendo feita? Fecharam a empresa do “trem bala”? Por que tanta gente fala e tão pouca coisa acontece? Enfim: por que esse governo não faz nada?

Uma possível resposta para isso talvez esteja no calendário: quando as contas são feitas, o novo governo mal terá completado dez dias úteis quando o leitor estiver lendo este artigo. É verdade que já deu tempo para a ministra Damares pegar no pulo uma espetacular marmelada da era anterior — um contrato pelo qual você pagaria 45 milhões de reais, isso mesmo, para instruir as populações indígenas sobre o uso de criptomoedas, ideia que realmente só poderia ocorrer a alguém depois dos 16 anos de roubalheira alucinada dos governos Lula-Dilma. Mas pouca gente parece disposta a considerar que duas semanas são um prazo muito curto para mudar o Brasil, trabalho que vai exigir os quatro anos inteiros do governo Bolsonaro e sabe-se lá quanto mais tempo ainda.

 O mercado, mais do que ninguém, dá sinais de que está entendendo a situação com muito mais realismo, objetividade e bom senso — falando com dinheiro, e não com ideias, os investidores fizeram a bolsa de valores bater todos os seus recordes nos últimos dias, e o dólar, eterno refúgio nas horas de medo, recuou para sua menor cotação em dois meses. O recado aí é o seguinte: o país vai mudar, sim, na verdade já está mudando e parece estar engrenado para mudar mais do que em qualquer outra época de sua história econômica recente. Essa percepção se baseia num fato essencial. Seja lá o que o governo fizer, seja qual for  seu grau de competência na administração da máquina pública, ou seja lá quanto sucesso efetivo tiver na execução de seus projetos, uma coisa é 100% certa: Bolsonaro, desde já e ao longo dos próximos quatro anos, vai fazer basicamente o exato contrário do que foi feito nos 16 anos de lula-dilmismo, incluindo o arremate dado por seu vice-presidente e aliado histórico Michel Temer. Não é muito complicado. Mesmo um governo presidido pelo centroavante Deyverson inspiraria mais confiança, aqui e no exterior, do que qualquer gestão do PT. Pense, por 45 segundos, em como estaria a situação se o presidente empossado no dia 1o de janeiro tivesse sido Fernando Haddad em vez de Jair Bolsonaro. Pronto. Não é preciso perder seu tempo com mais nada.

Os ministros escolhidos, em geral, parecem realmente os mais indicados para executar o trabalho que o governo se propõe a fazer. Sempre é possível que haja um bobo entre eles — mas até agora ainda não se descobriu quem é. A dúzia de generais, ou algo assim, que foram para o ministério ou primeiro escalão, até agora, só incomodaram os jornalistas; para o governo, deram prestígio moral, autoridade e a imagem de que o Brasil está sendo dirigido por gente séria. Os ministros mais atacados, como os do Meio Ambiente, de Relações Exteriores e da Justiça, passam a impressão de que sabem perfeitamente o que estão fazendo — e de que estão muito seguros quanto a seus objetivos práticos. A “impossibilidade” de lidar com o Congresso, apresentada como fato científico durante a campanha, não impressiona ninguém, a começar pelo Congresso. As reformas mais complicadas na organização do país têm boas chances de ser aprovadas — e isso, por si só, promete uma virada vigorosa na economia. O que está faltando, mesmo, é mais tempo para o governo acontecer. Duas semanas é muito pouco.