Trump, o homem mais poderoso do mundo, é louco?

Trump chega ao segundo ano de mandato da pior maneira: usando expressões preconceituosas e tendo de defender sua capacidade mental

É impossível não notar a ironia: o retrato mais contundente do primeiro ano da Presidência de Donald Trump, o autoproclamado campeão da batalha contra as fake news, é de autoria de um jornalista mais conhecido por suas reportagens cheias de fofocas e maldades sobre o mundo da mídia e dos poderosos do que por seu compromisso com os fatos. Fire and Fury: Inside the Trump White House, livro do jornalista americano Michael Wolff, relata uma Casa Branca caótica e desconjuntada, um ninho de víboras em que a absoluta falta de preparo de Trump para liderar os Estados Unidos é a única unanimidade entre as facções que disputam a influência do presidente. O livro foi denunciado por Trump como uma “impostura”, cheio de “mentiras, representações distorcidas e fontes que não existem”. Advogados do presidente ameaçaram a editora e o autor com ações judiciais — o que garantiu um sucesso de vendas como há muito não se via no mundo editorial (o livro deve ser publicado em março no Brasil com o título Fogo e Fúria — Por Dentro da Casa Branca de Trump). É natural que um relato sobre os bastidores do poder chame a atenção — ainda mais quando se trata de um personagem tão controverso e colorido como Trump. Mas, além de fascinante, o livro de Wolff é alarmante. Depois de um breve respiro, obtido com a aprovação de uma ampla reforma tributária no fim do ano — sua maior vitória política desde que assumiu a Presidência em 20 de janeiro do ano passado —, Trump começa o segundo ano do mandato acuado por crescentes suspeitas de desequilíbrio emocional e mental.

Seu comportamento não ajuda a afastar essas dúvidas. Menos de uma semana depois da publicação do livro, numa reunião com deputados e senadores para discutir a imigração, Trump perguntou por que os Estados Unidos deveriam aceitar imigrantes de “países de m*”, em referência ao Haiti e a nações africanas, e não de lugares como a Noruega. Semanas antes, ele também teria afirmado que todos os imigrantes haitianos “têm aids” e que os nigerianos radicados no país jamais teriam vontade de voltar para suas “cabanas”. As declarações foram relatadas por pessoas que presenciaram os comentários de Trump — e, em ambos os casos, a Casa Branca negou que o presidente americano tenha usado esse tipo de linguagem. “Eu não sou racista. Sou a pessoa menos racista que você já entrevistou”, disse Trump, respondendo à pergunta de um jornalista no domingo dia 14. “Esse é um recurso que Trump usa há muito tempo. Ele constantemente faz afirmações e depois as nega. Às vezes, até usa a construção: ‘Não vou dizer que…’ e logo na se-quência diz o que estava pensando”, afirma Jennifer Mercieca, especialista em retórica política da Universidade Texas A&M e estudiosa das declarações de Trump.

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As postagens do presidente no Twitter, sua maneira predileta de se comunicar com o público, também têm causado mais alarme que de costume. No segundo dia do ano, ele escreveu que seu “botão nuclear é muito maior e mais poderoso” do que o do ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un. A mensagem foi recebida com incredulidade e levou a insinuações de desequilíbrio mental. Em resposta, Trump disse ser um “gênio muito estável”. “Na minha vida, minhas maiores habilidades têm sido minha estabilidade mental e ser, tipo, muito inteligente.”

É impossível (e imprudente) diagnosticar o estado mental de uma pessoa a distância, mas isso não impediu Bandy Lee, professora de psiquiatria na Universidade Yale, de ser chamada por congressistas em dezembro para discutir a sanidade do homem mais poderoso do mundo. Em entrevista ao site Politico, Lee, editora de uma compilação de artigos de especialistas em saúde mental intitulada The Dangerous Case of Donald Trump (“O perigoso caso de Donald Trump”), afirmou ver indícios de que o presidente “está perdendo o controle diante do estresse e vai ser cada vez mais difícil contê-lo por causa das pressões da Presidência”.

Igualmente difícil de conter são os rumores a respeito da 25a emenda à Constituição dos Estados Unidos, que trata da remoção do presidente em caso de incapacidade física ou mental. O artigo 4o da emenda diz que o vice-presidente, com a maioria dos ministros, tem de comunicar ao Congresso que o presidente está incapacitado. Caso o presidente conteste a declaração, o vice tem quatro dias para refutar seu chefe perante o Legislativo. Então, o Congresso tem três semanas para passar o poder ao vice, com maioria de dois terços de ambas as casas. As condições são propositalmente estritas para evitar golpes de Estado. E, quando se trata de uma incapacitação por problemas mentais, “como demonstrar que a pessoa não é sã?”, diz Robert Gilbert, professor na Universidade Northeastern e especialista na 25a emenda.

Ivanka Trump: ela acusou o assessor Steve Bannon de vazar informações para a imprensa | Brendan McDermid/Reuters

Por enquanto, o recurso parece ter mais lugar na ficção: ele foi usado na trama de uma das temporadas da série de TV 24 Horas, nos anos 2000. Mas as investigações sobre a influência russa na eleição presidencial do ano passado continuam em andamento e devem seguir no topo da agenda política de Washington em 2018. Embora não haja provas do envolvimento de Trump num complô com os russos para influenciar a eleição, existe o risco de que o presidente venha a ser acusado de obstrução da Justiça por tentar dificultar a apuração do caso.

Numa das passagens mais bombásticas do livro de Wolff, o ex-assessor de Trump Steve Bannon classifica de “traição à pátria” o encontro de Donald Trump Jr. com operadores russos que teriam informações para prejudicar Hillary Clinton. Depois da publicação do livro, Bannon disse que estava se referindo ao ex-chefe da campanha de Trump, Paul Manafort, já indiciado nas investigações. Bannon está mais preocupado em salvar o resto de credibilidade que tinha na extrema direita do que com eventuais erros factuais de Fire and Fury, mas outros trechos do livro vêm sendo colocados em dúvida. Uma das passagens, por exemplo, sugere que Trump não saberia quem é John Boehner, ex-presidente da Câmara. Mas o presidente já havia mencionado o político diversas vezes no Twitter e ambos tinham jogado golfe juntos.

Steve Bannon: o ex-assessor da Casa Branca disse que Donald Trump Jr. traiu a pátria ao se encontrar com russos | Jonathan Bachman/Reuters

Outras passagens sugerem que a obra de Wolff não adere a princípios básicos do jornalismo. Wolff afirma ter tido acesso irrestrito à Casa Branca — concedido pelo próprio presidente — e conversado com mais de 200 pessoas. Mas ele descreve diálogos inteiros sem explicar quem os relatou. Numa cena que se passa no Salão Oval, Bannon é acusado pela filha do presidente de vazar informações para a imprensa. Na frente do presidente, Bannon aponta o dedo para Ivanka Trump e a chama de “mentirosa do c*”. Não está claro se a conversa foi relatada ao autor por Trump, Ivanka ou Bannon, ou se Wolff- presenciou a conversa. Há outros episódios semelhantes, mas o que torna o relato tão saboroso é que ele é perfeitamente plausível. Afinal, poucos misturam fato e ficção com tanta destreza como Donald Trump. 

Comentários

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  1. Jorge Delmar Machado

    Exame, vocês não tem vergonha??? Isso é coisa de esquerdopata!!! #fakenews

    1. Jorge, nós acabamos de barrar seu comentario na fronteira, não passa mais.