Dinheiro caro, dívida em alta. Isso aparece nos balanços

Com o fracasso da tentativa do governo de baixar os juros, o crédito voltou a encarecer — e seus efeitos, na forma de endividamento, aparecem nos balanços das empresas brasileiras

São Paulo – Há dois anos, às vésperas da comemoraçãO do Dia do Trabalho, a presidente Dilma Rousseff fez um pronunciamento na TV exaltando as iniciativas de seu governo para derrubar os juros. “É inad­missível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lu­crativos, continue com os juros mais altos do mundo”, disse na época a presidente.

Alguns meses antes, por pressão do governo, o Banco Central iniciara o ciclo de redução da Selic, a taxa bá­sica de juro, que, em pouco mais de um ano, caiu de 12,5% para 7,25%, o menor patamar da história. Mas, como se sabe, a queda dos juros não trouxe o es­pe­rado crescimento econômico.

Pior: a in­flação subiu, e o governo teve de dar uma guinada em sua política, voltando a elevar os juros. A taxa Selic está agora em 11% ao ano e já é superior à que vigo­ra­va quando Dilma assumiu a Presidência — e, como a inflação não cedeu, há pers­pectiva de que ainda venha mais au­mento da Selic.

Para o setor privado, o encarecimento do dinheiro, impulsionado pela alta dos juros, teve um preço alto. Em dezembro de 2013, o saldo da dívida das empresas brasileiras com as instituições de crédito atingiu 2,2 trilhões de reais, aumento de 16% em um ano, alcançando 45% do produto interno bruto.

Além da alta dos juros, contribuíram para o aumento da dívida a variação cambial — o dólar subiu 15% no ano em relação ao real — e a queda da rentabilidade das empresas.

“Com retorno menor, muitas companhias tiveram de fazer novas dívidas para manter os investimentos”, diz o economista Carlos Rocca, diretor do Centro de Estudos do Ibmec e autor do levantamento sobre as dívidas das empresas. Os dados de endividamento serão apresentados em detalhe na edição de Melhores e Maiores 2014, que EXAME­ publicará em junho.

O aperto monetário não veio em boa hora para empresas de setores como o de construção. Conforme outro levantamento, feito pela consultoria Economatica entre as empresas com ações mais negociadas na Bovespa, as construtoras PDG e Rossi terminaram 2013 no topo das que têm maior endividamento em relação ao lucro operacional.

Após a euforia de anos anteriores, quando financiaram uma expansão agressiva por meio de empréstimos, essas empresas tentam agora renegociar dívidas e fazer caixa promovendo liquidações de imóveis.

“As construtoras têm um cenário desafiador à frente”, diz Lenon Borges, analista da corretora Ativa. “Além do encarecimento do crédito, a desaleração da economia cria um horizonte mais desfavorável para a venda de imóveis.” 

Outra empresa na lista das mais pressionadas por dívidas é a fabricante de papel e celulose Suzano. Em dezembro de 2013, sua dívida líquida era de 9 bilhões de reais, aumento de 44% em um ano. “Esse endividamento decorre dos investimentos de 3 bilhões de dólares na nova fábrica de celulose em Imperatriz, no Maranhão”, diz Tiago Fernandes, diretor de relações com investidores da Suzano.

Mais da metade da dívida foi contraída em moeda estrangeira. Segundo Fernandes, o perfil da dívida não preocupa a Suzano, já que ela obtém a maior parte da receita com exportações, o que serve de proteção contra a variação cambial.

Com a entrada em operação da fábrica maranhense em dezembro de 2013, a Suzano espera ampliar a geração de caixa e equilibrar as finanças. “Nosso foco em 2014 é reduzir o endividamento”, diz Fernandes. Pelo jeito, será a meta de muitas outras empresas no Brasil.