O que está por trás do enorme interesse por bitcoins

A moeda virtual, lançada há menos de dez anos, teve uma valorização de quase 1.500% somente neste ano

Existem alucinações financeiras, e existe o bitcoin. A moeda virtual, lançada há menos de dez anos e que até hoje tem pouca utilidade prática como meio de pagamento para produtos e serviços, teve uma valorização de quase 1.500% somente neste ano, considerando a taxa de câmbio em relação ao dólar. Quem tivesse comprado 10 bitcoins no dia 1o de janeiro teria desembolsado pouco menos de 10.000 dólares. No dia 8 de dezembro, a mesma quantia valeria quase 150.000 dólares. Esse investidor hipotético teria tomado um pequeno susto no começo de novembro, quando o valor do bitcoin caiu mais de 25% em quatro dias. Mas nos últimos tempos nenhum outro investimento proporcionou ganhos potenciais tão assombrosos. A ideia libertária que deu origem à moeda hoje é acompanhada de perto pelos gigantes do sistema financeiro, os mesmos vilões que os criadores do bitcoin queriam ver em ruínas, depois do colapso financeiro na década passada. A CME, maior bolsa de mercados futuros do mundo, tem planos de lançar uma bolsa para negociar derivativos de bitcoin. O banco de investimento Goldman Sachs também estaria estudando negócios envolvendo a moeda. O interesse pelo bitcoin — e também as dúvidas quanto ao real impacto da nova tecnologia nos mercados financeiros mundiais — nunca foi tão grande.

O estouro da bolha da internet ou qualquer outro episódio de “exuberância irracional” são fenômenos triviais diante da complexidade e das implicações potenciais do bitcoin. O sistema é uma ideia verdadeiramente revolucionária. Em outubro de 2008, um usuário de uma lista de discussão chamado Satoshi Nakamoto, cuja identidade real até hoje é desconhecida, compartilhou um paper em que ele (ou ela, ou eles) descreveu um “sistema de transações eletrônicas que não depende de confiança”. Experiências prévias com moedas virtuais já tinham fracassado, em grande parte porque se baseavam numa autoridade central, como qualquer moeda que circula no mundo hoje. “A palavra ‘moeda’ vem da deusa romana Juno Moneta, em cujo templo eram cunhadas as moedas”, escreve Nathaniel Pepper em Digital Gold (“Ouro digital”, numa tradução livre), um livro sobre a origem do bitcoin. “Nos Estados Unidos, os chefes do banco central, o Federal Reserve, são tratados como uma espécie de oráculo; seus pronunciamentos são examinados como as entranhas de um bode nos tempos antigos.”

Vitalik Buterin: ele criou um dos concorrentes do bitcoin | Divulgação

Nakamoto propôs uma descentralização completa, sem banco central nem entidades regulatórias. Todas as informações, garantias e transações — quem tem bitcoins, quantos tem, quem transferiu quanto para quem, e assim por diante — seriam públicas e codificadas em software. Esse balanço seria registrado e mantido pelos computadores dos próprios usuários, numa plataforma comunitária que veio a ser conhecida como blockchain. A emissão de novos bitcoins estaria atrelada à realização de “serviços”, ou seja, à contribuição de poder de computação para o funcionamento do sistema. As regras foram inspiradas no software livre: não existe um “dono” do código, e as modificações e as atualizações são realizadas por uma comunidade de voluntários. O sistema foi implementado em janeiro de 2009, dois meses depois da publicação do paper de Nakamoto, mas é razoável supor que, àquela altura, nem as expectativas mais otimistas do autor da ideia se davam conta do frenesi que estaria por vir.

Só que esse frenesi teria de esperar alguns anos. Mesmo depois de feitos os primeiros ajustes técnicos, quem tivesse bitcoins não conseguiria gastá-los. A primeira transação documentada de um bem físico envolvendo a nova moeda ocorreu em 2010. Laszlo Hanyecz, programador húngaro radicado na Flórida, estava decidido a provar a utilidade dos bitcoins no mundo real. Em abril de 2010, ele ofereceu bitcoins a quem entregasse pizzas em sua casa. Obviamente, nenhuma pizzaria na época aceitava a moeda, mas Jeremy Sturdivant, estudante de 18 anos que morava na Califórnia, ofereceu-se para pagar um delivery perto da casa de Hanyecz. Quando as pizzas foram entregues, Hanyecz cumpriu sua parte no trato e transferiu 10 000 bitcoins para Sturdivant. Em valores atuais, cada pizza teria custado 7,5 milhões de dólares.

Sete anos e meio depois, com o bitcoin nas manchetes da imprensa mundial, ainda são relativamente poucos seus usos práticos. A moeda é aceita por algumas empresas, como a loja de eletrônicos Newegg e o site de viagens Expedia (que a aceita apenas nas reservas de hotéis), ambas dos Estados Unidos. Mas nada se compara ao Japão. Em abril, o país modificou a legislação para permitir que moedas virtuais sejam usadas oficialmente como meio de pagamento. A rede de lojas de eletrônicos Bic Camera, uma das maiores do país, aceita bitcoins, e a Recruit Lifestyle lançou uma máquina de ponto de venda usada por mais de 250 000 lojas e restaurantes, por meio da qual os usuários podem fazer pagamentos com a moeda.

Computadores que mineram bitcoins, na China: software livre | Qilai Shen/Getty Images

Além dos Nerds

O maior interesse no bitcoin hoje, porém, ainda é como investimento — inclusive no Brasil. Fundada há três anos, a Foxbit é a maior corretora brasileira de bitcoins, e a empresa estima que o número de usuários tenha decuplicado no último ano. “Era uma coisa de nerds, mas agora estamos atraindo outro tipo de investidor”, diz Marcos Henrique, sócio e evangelista da Foxbit. “Passamos do público ‘Facebook’, o jovem interessado na novidade, para um público ‘LinkedIn’.” Não é à toa. No dia em que ele conversou com EXAME, um único bitcoin valia 51 000 reais. Marcos Henrique (que não divulga seu sobrenome por motivo de segurança) começou a comprar e a vender moedas informalmente há quatro anos e afirma ser um péssimo trader. “Tenho um décimo dos bitcoins de quatro anos atrás.” Hoje, ele afirma que sua postura é mais conservadora — e essa deveria ser uma lição para quem está interessado na novidade. “A exposição na mídia tem atraído aventureiros.”

A valorização espetacular dos bitcoins nos últimos meses vem, cada vez mais, acompanhada da palavra “bolha”. “Estamos observando uma nova tecnologia que as pessoas ainda estão tentando entender”, afirma o analista especializado em moedas virtuais Matthew Gertler, da consultoria Digital Asset Research. A comparação mais natural é com a bolha da internet, que estourou no começo deste século. Além da multiplicação do valor de cada bitcoin, as alternativas estão aparecendo a todo momento, como a moeda ether, da Ethereum, plataforma criada pelo programador russo-canadense Vitalik Buterin em 2013. O valor dessas novas moedas deve continuar flutuando dramaticamente, mas o que não se discute é o impacto da tecnologia subjacente.

 

O blockchain, espinha dorsal da descentralização proposta pelo bitcoin e por outras criptomoedas (que recebem esse nome por causa da forte criptografia que garante sua segurança e integridade), tem aplicações potenciais em qualquer atividade que dependa de uma autoridade central. O presidente do banco JP Morgan, Jamie Dimon, recentemente afirmou que os compradores de bitcoin são “estúpidos” e que a tecnologia é “uma fraude” que “não vai acabar bem” (depois da repercussão da declaração, ele recebeu um e-mail da filha dizendo que tinha 2 bitcoins). Mas o próprio Dimon também afirma que a tecnologia do blockchain tem valor que vai muito além das moedas. A certificadora londrina Everledger, por exemplo, usa o sistema para garantir a autenticidade de diamantes numa lista pública e essencialmente inviolável.

Outras levam a ideia ainda mais longe: um registro digital baseado em blockchain para identificação pessoal. Em vez de infinitas senhas e cadastros de acesso — mantidos por empresas e governos —, a britânica Evernym aposta num sistema global e descentralizado, baseado em criptografia e computação distribuída. O estado americano de Illinois anunciou no final de agosto uma parceria com a Evernym para uma espécie de certidão de nascimento digital tendo como base a mesma tecnologia do bitcoin. O documento é “autossoberano”, ou seja, independe da validação de uma entidade central. Essa tecnologia permite vislumbrar o fim, por exemplo, dos cartórios brasileiros. O bitcoin pode custar caro, mas a vida sem cartórios não tem preço.