Herdeiros da Casas Pernambucanas brigam para mudar comando

Há 25 anos a família Lundgren, da Casas Pernambucanas, briga por quase tudo. Agora um grupo de herdeiros se uniu para destronar Anita Harley do comando — e fazer a empresa voltar a crescer

São Paulo – A família Lundgren, dona da varejista Casas Pernambucanas, protagoniza há duas décadas uma das mais renhidas disputas societárias de que se tem notícia no capitalismo brasileiro. Mais de 30 descendentes da quarta e da quinta geração disputam o controle da companhia fundada em 1908 e que, em 2014, faturou 4,7 bilhões de reais.

De um lado es­tá Anita Harley, que há 24 anos comanda a Pernambucanas. De outro, primos que discordam da condução do negócio e sobrinhos que brigam na Justiça para tirar poder de Anita — e receber centenas de milhões de reais em dividendos nunca pagos. Em vez de milionários, alguns herdeiros vivem na pin­daíba. Um deles teve de trancar a faculdade e vender sanduí­che na praia para pagar as contas.

Pois essa briga pode estar perto do fim — e de uma virada. O inventário de Helena Lundgren, mãe de Anita, morta em 1990, está prestes a ficar pronto, segundo herdeiros ouvidos por EXAME. Quando isso ocorrer, Anita terá de ceder metade das ações a um grupo de sobrinhos. Na prática, significaria a troca no controle da empresa. Anita, senhora absoluta da Pernambucanas por duas décadas, se tornaria acionista minoritária.

Os problemas societários da Pernambucanas começaram nos anos 70, quando o poder da companhia chegou ao auge. Em 1975, após anos de desentendimentos quanto ao rumo do negócio, a família dividiu a empresa em três unidades: São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste. Cada uma era tocada por um ramo do clã — os demais seguiam acionistas, mas sem se meter no dia a dia.

Apenas a unidade de São Paulo, comandada por Helena Lundgren, sobreviveu à invasão dos importados nos anos 90 que quebrou lojas de departamentos tradicionais, como Mappin e Mesbla.

Em 1990, Helena, dona de 50% das ações da Pernambucanas de São Paulo, morreu. A herança foi dividida entre seus três filhos. Anita Harley, que assumiu a presidência no lugar da mãe, ficou com 25% das ações. Seus dois irmãos, Robert e Christina, ficaram com 12,5% cada um. O plano era que Anita prestasse contas da empresa a cada seis meses aos dois irmãos e distribuísse dividendos.

Mas o inventário de Helena Lundgren nunca foi concluído — e os lucros nunca foram distribuídos. Robert morreu em 1999, deixando cinco filhos. Christina morreu em 2001 e deixou quatro herdeiros. Eles brigam, até hoje, para receber a herança da avó e os dividendos anuais acumulados nesse perío­do. No total, dizem que Anita lhes deve 600 milhões de reais.

Desde a morte da mãe, Anita tenta, na Justiça, fazer com que as ações dos dois irmãos sejam incorporadas a seu patrimônio. Os sobrinhos, por sua vez, brigam para que o testamento seja cumpri­do. No fim de 2013, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que as ações de Robert devem, de fato, ir para seus filhos — o que abre espaço para os filhos de Christina obterem o mesmo.

Mas isso só vai acontecer quando o inventário for concluído. A elaboração do inventário ficou anos sem novidade. Até que, em 17 de dezembro, a Justiça de Pernambuco constatou problemas na condução do inventário e pediu ao Ministério Público e ao Conselho Nacional de Justiça que investigassem o caso.

Segundo a denúncia, os recursos deixados por Helena Lundgren estariam sendo usados de forma irregular — contas bancárias foram movimentadas por mais de uma década sem que os sobrinhos soubessem. Como nada foi decidido, é ilegal mexer na herança sem o consentimento dos envolvidos.

Com a chegada do processo ao Ministério Público, os filhos de Christina e Robert, e seus advogados, avaliam que a conclusão do espólio é iminente. Procurada, Anita não deu entrevista.

O que faz a decisão sobre o inventário especialmente importante é uma peculiaridade daquelas que fazem a briga da Pernambucanas não só antiga mas para lá de complexa. Na divisão dos anos 70, os ramos do Rio e do Nordeste e outros grupos de descendentes ficaram com 50% das ações da empresa de São Paulo.

Hoje, esse grupo é formado por cerca de 20 primos de Anita. Eles estão divididos em três empresas. Esse braço da família recebeu dividendos todos os anos desde a morte de Helena e acabou nunca se organizando para contestar o poderio de Anita à frente da empresa.

Mas, de uns tempos para cá, com a expansão de dezenas de redes varejistas Brasil afora, eles começaram a achar que a Pernambucanas estava ficando para trás. Eles sempre tiveram direito a três das seis cadeiras do conselho, mas não se uniam para contestar em bloco as decisões de Anita. Agora começaram, juntos, a apontar o que consideram falhas da gestão.

Anita nunca quis abrir lojas em shoppings nem voltar a investir no Nordeste e no Rio de Janeiro. Como re­sul­tado, acabou perdendo espaço para empresas como Via Varejo, Ria­chuelo e Renner em seus dois principais mercados — venda de roupas e de eletrodomés­ticos.

Em 2014, a Pernambucanas lucrou 160 milhões de reais, mas teve prejuízo de 50 milhões de reais no varejo. A financeira, com lucro de 210 milhões de reais, garantiu o resultado positivo. “A prioridade sempre foi continuar a pagar dividendos, e não expandir o negócio e pensar no futuro”, diz um ex-executivo. “Era frustrante.”

A passividade dos primos começou a acabar em 2009, quando Frederico Lundgren, um dos 20 herdeiros desse braço, montou um fórum de herdeiros com o apoio do professor de Harvard John Davis, especializado em sucessão de empresas familiares. O plano era unir os primos donos de 50% da Pernambucanas para forçar mudanças.

“A distância entre os primos era tão grande que muitos a gente nem conhecia”, diz um deles. Boa parte desses herdeiros trabalhava no mercado financeiro. Em 2012, a primeira vitória: os primos convenceram Anita a escrever com eles um inédi­to planejamento estratégico. O plano prevê margem de lucro operacional de 7%, o dobro da atual.

Também define que o vestuário deve­ responder por mais de metade das vendas (por ter melhores margens). Mas, hoje, metade da receita ainda vem da venda de eletrodomésticos, com margem próxima a zero, 30% de vestuá­rio e 20% do segmento de cama, mesa e banho.

Visões semelhantes

Para acelerar as mudanças, os herdeiros organizados pressionaram pela contratação de um executivo com experiência em vestuário — Marcelo Doll, ex-C&A, que chegou em janeiro de 2014. Mas, até agora, pouca coisa mudou na estratégia ou nos resultados da Pernambucanas.

Executivos próximos à empresa dizem que o balanço de 2014, a ser publicado em março, deverá mostrar números parecidos com os de 2013 — ou seja, prejuízo operacional e lucro financeiro. Para os herdeiros, ficou claro que mudanças mais relevantes só virão quando Anita, hoje com 67 anos, deixar o controle.

Para isso, eles precisam ver o inventário concluído e, na sequência, unir forças — o que lhes daria mais da metade das ações e o contro­le da companhia. Alguns primos e sobrinhos costumam se encontrar em eventos da família e sabem que têm visões de negócios semelhantes. O objetivo é acelerar o crescimento da empresa, melhorar os números e, mais adiante, vender o negócio quando surgir uma boa proposta.

“Do jeito que está, não vale a pena vender. Precisamos primeiro melhorar a gestão”, diz um dos sobri­nhos de Anita. A mais antiga briga societária do Brasil está prestes a ganhar um novo capítulo — se será o final ou não, ainda é impossível saber.