Sete perguntas | De olho na economia global

Para o economista-chefe da Deloitte, uma das maiores consultorias do mundo, os riscos para a economia global estão se acumulando — um problema para o Brasil

A estabilidade global enfrentará desafios nos próximos meses, especialmente se a desaceleração da economia da China se aprofundar e se partidos populistas se fortalecerem ainda mais após as eleições para o Parlamento Europeu, programadas para os dias 24 e 25 de maio. Essa é a visão de Ira Kalish, economista-chefe da consultoria Deloitte e responsável pelas análises macroeconômicas que a empresa produz para clientes de todo o mundo. A EXAME, ele concedeu a seguinte entrevista em São Paulo.

A China enfrenta a mais lenta expansão em décadas. Quais são os impactos que isso pode trazer para a economia global?

A China é uma economia tão grande que é quase uma máquina de crescimento para o mundo, mas não me surpreende que tenha desacelerado. Nos últimos anos, o país vinha transferindo trabalhadores do campo para as fábricas, conseguindo altos ganhos de produtividade, e isso não acontece mais. Eu diria que hoje o país enfrenta outros desafios mais urgentes.

Quais, por exemplo?

A guerra comercial com os Estados Unidos é um deles. Outro é o fato de sua moeda possivelmente estar supervalorizada. Os Estados Unidos são um grande importador e, se isso diminuir, veremos efeitos negativos para as exportações e o crescimento de outros países, também colocando em risco a economia global.

Muitos economistas têm alertado para o risco de uma nova recessão global. Como o senhor enxerga essa possibilidade?

Acho que o risco existe, mas tenho dúvidas se vai se materializar. Já presenciamos uma redução significativa de crescimento na Europa e na China e estamos vendo isso nos Estados Unidos. O problema é que nós, economistas, nunca fomos muito bons em prever quando essas crises vão acontecer.

A ascensão de governos nacionalistas piora a situação?

Sim. Hoje vemos a ascensão de líderes que se apoiam na ideia de que é melhor defender interesses de seus países em detrimento da cooperação multilateral. E acredito que isso está acontecendo em razão dos efeitos disruptivos da tecnologia e da globalização, que beneficiaram alguns, mas machucaram tantos outros. Esses populistas se aproveitaram desse sentimento.

Por quê?

Na Europa, o fortalecimento de partidos extremistas reflete o fato de que muitos países continuam com altas taxas de desemprego. Ainda que a economia europeia vá bem, há uma estagnação nos salários de trabalhadores menos qualificados, que se tornam mais propensos a apoiar alternativas como essas.

Em meio a esse cenário mundial, como o senhor avalia a situação econômica atual do Brasil?

O Brasil está se recuperando de uma crise profunda e o crescimento está lento, mas há um otimismo de que isso mudará. O governo indicou uma preferência por políticas de abertura de mercado que, se implementadas, podem ter impacto positivo.

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China atrapalha a recuperação do Brasil?

Possivelmente é tanto uma ameaça quanto uma oportunidade. É uma oportunidade no sentido de que, com o declínio da relação comercial entre os dois países, um pouco desse comércio pode ser revertido para o Brasil, e já vemos evidências de que isso está acontecendo com a soja em grão. Contudo, essa guerra comercial terá efeitos negativos tanto nos Estados Unidos quanto na China e isso poderá ser ruim para o Brasil, que se beneficiaria mais de uma economia global robusta.