…E a crise levou a MGM

O rugido do leão dourado da MGM já foi prenúncio de grandes filmes e cinema lotado. Hoje, é sinônimo de fiascos nas telas e de uma dívida de 3,7 bilhões de dólares

São Paulo – O agente 007 entrou de férias forçadas nas últimas semanas, sem previsão de quando retornará à sua dura rotina de perseguição a vilões, entremeada por romances com bondgirls, passeios de Aston Martin e doses de dry martini – “batido, não mexido”.

Segundo o cronograma original de filmagens da série mais lucrativa da história do cinema, o novo James Bond começaria a ser rodado em julho e o lançamento estava previsto para 2011. Agora, a produção está suspensa por tempo indeterminado, consequência da precária situação financeira do estúdio responsável pelo filme, a MGM.

No final da década de 30, auge dos negócios, o rugido do leão do logotipo da companhia provocava frisson na plateia, pois todos sabiam que depois disso a tela exibiria obras do calibre de …E o Vento Levou e Cantando na Chuva. A tradição da vinheta animada continua até hoje, mas a MGM não é nem a sombra de seu passado glorioso.

Hoje, não produz mais do que cinco filmes por ano – na maioria das vezes, fiascos que caem no esquecimento rapidamente e não contribuem em nada para recuperar o caixa da empresa. A dívida da MGM encontra-se na casa dos 3,7 bilhões de dólares e os credores pressionam pela venda da companhia desde o final do ano passado.

No final de março, eles concordaram em adiar pela quarta vez a cobrança da dívida do estúdio na esperança de que apareça alguma oferta melhor para a aquisição da MGM. Stephen F. Cooper, executivo contratado em agosto graças à sua experiência em levantar a Enron depois da falência, conseguiu estender o prazo até 14 de maio.

Por enquanto, o maior lance foi de 1,5 bilhão de dólares, feito pela Time Warner. Os atuais donos da MGM querem, no mínimo, 2 bilhões para fechar o negócio. Os analistas do setor, no entanto, duvidam que a cifra oferecida pela Time Warner seja superada. Caso optem por não vender por esse preço, os controladores da MGM – o principal deles é a Sony – têm duas saídas.

Ou injetam dinheiro do próprio bolso na companhia ou admitem a falência e a entregam nas mãos dos credores – uma solução que não deixa ninguém satisfeito.


Todo o glamour associado à marca MGM se evaporou há muito tempo, mas a derrocada financeira se acelerou nos últimos anos por causa de decisões equivocadas. O fim do período das grandes glórias coincide com a aquisição do estúdio, em 1969, por parte do megainvestidor americano Kirk Kerkorian.

Mais interessado em fazer dinheiro rápido do que em dar continuidade à saga cinematográfica da companhia, Kerkorian vendeu vários dos estúdios, toda a memorabilia dos grandes filmes e até a sede da empresa, arrematada na época pela concorrente Fox. Ao mesmo tempo, tentou colocar em prática um plano de expandir o império de entretenimento para outros mercados.

Exemplo disso foi a inauguração, em 1973, do hotel e cassino MGM Grand, em Las Vegas. Outras parcerias da MGM fora do cinema, como o parque temático na Disney, também foram iniciadas nessa época.

Com esforços em várias frentes, o estúdio acabou descuidando de seu principal negócio, fazer bons filmes, preferindo investir na distribuição de longas baratos produzidos por estúdios independentes.

Fora alguns sucessos esporádicos, como Poltergeist, lançado em 1982, e Thelma e Louise, de 1991, o velho leão dourado passou a preceder, na maior parte das vezes, grandes micos cinematográficos.

No fim de 2004, quando a Sony comprou a companhia em parceria com a Comcast (empresa de TV a cabo) e outros investidores (como Providence Equity, TPG Capital, DLJ Merchant e Quadrangle), seu objetivo era multiplicar os rendimentos com a venda de DVDs, que rendiam cerca de 500 milhões de dólares ao ano para o estúdio na época.

“O problema da Sony é que aquele foi o pico da indústria dos DVDs. Dali em diante, as vendas foram decrescendo. Vieram a crise e a queda no consumo, o que arrebentou o plano de negócios de vez”, diz Robert Marich, pesquisador da Adams Media Research, principal consultoria do setor de mídia dos Estados Unidos. Para piorar, a falta de novos filmes produzidos pelo estúdio foi minando o valor do catálogo a cada dia.

Hoje, a MGM tem uma receita de 350 milhões de dólares anuais, mas só os juros da dívida consomem cerca de 250 milhões por ano. A Sony, que pagou 4,8 bilhões de dólares pela aquisição do estúdio, não consegue repassá- lo hoje nem por menos da metade desse valor.


Os novíssimos mercados de Blu-Ray e de aluguel de filmes na internet – insignificantes na época da compra, mas já na casa de 1,5 bilhão e 2,9 bilhões de dólares em 2009, respectivamente – poderiam indicar caminhos promissores para o futuro, mas o consórcio encabeçado pela Sony não quer mais esperar.

Fundada em 1924 por Marcus Loew, que queria um estúdio para abastecer seu império de cinemas nos Estados Unidos com filmes exclusivos, a MGM surgiu da junção de três companhias: Metro Pictures Corporation, Goldwyn Pictures e Mayer Pictures.

Apesar de ser minoritária no novo conglomerado, foi da Goldwyn Pictures que saíram os principais símbolos dos primeiros anos da MGM: os estúdios de Culver City, na Grande Los Angeles; Leo, o leão-símbolo da empresa; e o lema Ars gratia artis (“Arte pela arte”), que passou a emoldurar o rugido do leão no logotipo da companhia.

Logo no primeiro ano de vida da MGM, Louis B. Meyer, que assumira a vice-presidência da empresa e chefiava o estúdio na Califórnia, lançou dois grandes sucessos: Ben-Hur – que custou 4 milhões de dólares e é o filme mudo mais caro da história (uma nova versão foi filmada na era do cinema falado, tendo Charlton Heston no papel principal) – e O Grande Desfile, filme mudo mais lucrativo da história, com arrecadação de 22 milhões de dólares.

O feito transformou a novata MGM no maior estúdio dos Estados Unidos, ultrapassando a Universal Pictures, e criou a imagem que a companhia ostentou pelas décadas seguintes: a do estúdio das grandes produções.

A lista dos filmes imortais é enorme: Grand Hotel, David Copperfield, O Mágico de Oz, Cantando na Chuva e …E o Vento Levou – a maior bilheteria de todos os tempos, com mais de 202 milhões de espectadores. Durante esse período glorioso, os letreiros dos filmes da MGM comprovaram o lema informal da companhia, “Mais estrelas do que o céu”.

O time incluía gente como Greta Garbo, Buster Keaton e Frank Sinatra. Com os problemas das últimas décadas e a consequente desvalorização dos negócios, voltar a esses tempos gloriosos parece uma missão difícil demais até mesmo para quem tem em sua equipe alguém do calibre de James Bond.