“O maior inimigo do investidor é confiança em excesso”

O psicólogo israelense Daniel Kahneman, ganhador do Nobel de Economia em 2002, explica por que investimos tão mal — para ele, a melhor forma de ganhar dinheiro é parar de perder com bobagem

São Paulo – Daniel Kahneman foi o primeiro e único psicólogo a ganhar um prêmio Nobel de Economia. Nascido em Israel e radicado nos Estados Unidos, ele passou os últimos 40 anos pesquisando como as pessoas tomam decisões, e como estas influenciam seu cotidiano, suas finanças e sua carreira. As conclusões surpreendem porque vão, quase sempre, contra o senso comum.

Em seus estudos com o colega Amos Tversky, Kahneman uniu com brilhantismo os campos da psicologia e da economia, dando origem ao que se convencionaria chamar de “finanças comportamentais” — e criando conceitos tão simples e poderosos que qualquer investidor acaba se vendo descrito em seus estudos.

Nossa aversão a perder dinheiro, diz Kahneman, é muito maior do que o prazer que sentimos ao ganhar, o que ajuda a explicar a quase universal dificuldade de vender na alta (“Vai subir mais um pouquinho”) ou mesmo na baixa, quando as coisas parecem estar indo para o buraco (“Não vou realizar o prejuízo”).

Por descrever atitudes como essas, Kahneman ganhou o Nobel em 2002. Para ele, esse tipo de comportamento não é exceção, mas regra, o que torna os mercados imprevisíveis. Aos 79 anos e professor emérito da Universidade de Princeton, ele falou a EXAME sobre os erros que os investidores cometem — e revelou como aplica seu patrimônio, incluindo o meio milhão de dólares que recebeu pelo Nobel.

EXAME – O senhor já disse que a prática torna o processo de tomar decisões mais fácil: com o tempo, ficamos menos ansiosos. também ficamos mais sábios? 

Daniel Kahneman – Não necessariamente. É verdade que nos tornamos mais confiantes à medida que acumulamos um histórico de decisões no trabalho, na vida pessoal, nos investimentos. O problema é que isso ocorre mesmo quando os re­sultados dessas decisões não são bons. O número de decisões aumenta com o tempo, mas não a qualidade delas. Podemos acabar apenas tomando decisões erradas com mais convicção.

EXAME – O que pode melhorar a forma como tomamos decisões? 

Daniel Kahneman – O mais importante é medir os resultados. É preciso fazer uma análise rápida e que não deixe espaço para dúvidas. Quando fazem isso, as pessoas conseguem enxergar com clareza seus acertos e seus erros, e aprender com eles. Essa é uma regra básica do aprendizado. Mas ela não funciona para investimentos.

Nesse campo, é impossível fazer uma análise precisa dos resultados. Quando alguém ganha dinheiro na bolsa, como saber o que foi sorte, o que foi consequência de um movimento natural do mercado e o que pode ser atribuído a uma decisão acertada? Além disso, os resultados costumam demorar para aparecer, e uma avaliação tardia não ajuda.


EXAME – Qual é o maior inimigo do investidor? 

Daniel Kahneman – O excesso de confiança. A maioria dos investidores acha que pode fazer coisas que, na verdade, não pode. A mais perigosa é tentar antecipar o comportamento dos mercados. A menos que se tenha acesso a dados confidenciais, o que é ilegal, é im­possível prever o desempenho de uma ação ou de uma commodity, porque ele depende de uma série de fatores aleatórios.

Mesmo que a análise do investidor esteja correta, isso não quer dizer que ele ganhará dinheiro com ela. Nesse sentido, acertar é impossível, ou apenas questão de sorte. Tomar boas decisões financeiras significa se concentrar em aspectos conhecidos, como as taxas cobradas pelas gestoras e corretoras.

Pagar menos pode dar um retorno extra. Diversificar é outra coisa que se pode fazer para correr menos riscos. Nada disso é muito empolgante, mas pode evitar erros. Só que a maioria dos investidores não faz isso. Aliás, muitos fazem o contrário. 

EXAME – Como assim? 

Daniel Kahneman – Um erro comum dos investidores é trocar de aplicação com frequência. Negociar ações pode custar caro, porque é preciso pagar taxas de corretagem, e o pior é que há pesquisas que mostram que a maioria das pessoas muda na hora errada: vende algo que já caiu demais para comprar outro que está muito valorizado. 

EXAME – Não aprendemos nada com a crise de 2008? 

Daniel Kahneman – O que aprenderíamos? Que não se deve investir em bolhas? Que não se deve investir em bancos? São conclusões erradas. De forma geral, as pessoas passaram a poupar mais depois da crise, e algumas colocaram dinheiro em aplicações conservadoras, mas não houve mudanças de comportamento, nem poderia haver. 

EXAME – O que explica o desempenho de investidores como george soros ou warren buffett, que bateram o mercado por anos? 

Daniel Kahneman – É claro que eles são pessoas muito inteligentes, mas, depois de um tempo, o que os diferencia é a quantidade de informações a que têm acesso. Quando decide comprar uma empresa, Buffett conhece seus donos e sua estratégia a fundo. Mais do que isso, uma empresa pode valorizar simplesmente porque Warren Buffett decidiu investir nela.

Até certo ponto, é um processo que se autoalimenta. Soros entende muito mais de economia do que a maioria dos profissionais de mercado. Ele conversa com quem toma decisões monetárias, entende como sua mente funciona, então tem mais ferramentas para antecipar o que pode ocorrer. 


EXAME – O senhor fez uma pesquisa que mostrava que as pessoas mais felizes viviam com cerca de 6 000 dólares por mês. Esse não é o seu caso, é?

Daniel Kahneman – Não, não (risos). As conclusões da pesquisa não fizeram diferença na maneira como eu vivo, mas me sur­preenderam. Achava que a felicidade aumentaria com a renda. Afinal, você pode comprar mais coisas e se proteger de fatos potencialmente dolorosos se ganha mais dinheiro.

O que os resultados mostraram é que, depois de um patamar, as pessoas pararam de se sentir bem ao consumir mais e perderam a habilidade de se sentir bem com coisas pequenas. O in­teressante é que esse patamar, de 75 000 dólares por ano, ou pouco mais de 6 000 dólares por mês, não é alto e vale mesmo para cidades caras, como Nova York. 

EXAME – Como o senhor decide onde investir? 

Daniel Kahneman – Evito tomar decisões de investimento quanto posso (risos). A verdade é que sei que não sou bom nisso, então tento reduzir o número de decisões para o mínimo necessário. Sou conservador e faço escolhas muito genéricas: uma parte de meus recursos fica em fundos de ações e outra parte em fundos de renda fixa.

Não escolho papéis nem títulos. Não acompanho meus investimentos todos os dias e troco muito pouco de aplicação. Já tive um assessor financeiro que só me dava conselhos idiotas, então parei de procurar dicas de investimento. Acho que fiquei menos ingênuo com o tempo.

Só contrato um profissional para fazer meu planejamento fiscal porque não entendo nada sobre isso. Alguns amigos meus, claro, fazem coisas diferentes, e acho que estão ganhando mais dinheiro do que eu. Mas, hoje, nem tento ir bem nessa área. Estou confortável assim.