11 erros que você não pode fazer na Bovespa

O que o investidor deve fazer para deixar de cometer os erros mais comuns no mercado financeiro

São Paulo – Para quem não tem tempo nem hábito, colocar dinheiro num novo investimento pode dar uma dor de cabeça danada. Fundos imobiliários têm prospectos de cerca de 200 páginas — e todas elas importantes para conhecer os riscos e o potencial de rentabilidade da aplicação. Existem quase 100 corretoras de ações no mercado, e as taxas que elas cobram chegam a variar até 2 000%. E por aí vai. A seguir, confira um resumo dos maiores erros que os investidores cometem na hora de decidir o que fazer com seu dinheiro — e como fazer para evitá-los.

1 – Deixar de lado as ações que não são do Ibovespa

Aplicar numa carteira de ações que segue o desempenho do Ibovespa tem sido uma péssima forma de investir na bolsa brasileira. O indicador caiu 2% em 12 meses e 8% nos últimos três anos. Já o índice que reúne papéis de consumo valorizou 40% e 82% nos mesmos períodos, enquanto as instituições financeiras tiveram alta, em média, de 13% e 26%.

Desde a crise de 2008, empresas mais ligadas à economia internacional, como as exportadoras de commodities e as siderúrgicas, vêm enfrentando mais dificuldades para vender e reajustar preços. Como elas representam 45% do valor de mercado do Ibovespa, o índice ficou estagnado. Ao mesmo tempo, companhias voltadas para o mercado interno se beneficiaram do aumento da renda e da queda do desemprego no Brasil.

Como evitar: Pense em setores, e não somente no Ibovespa. Hoje, as ações de empresas de commodities estão, de maneira geral, mais baratas do que as ligadas à economia doméstica, mas o risco é alto. As opções de investimento são muitas: diversos fundos têm conseguido se aproveitar da recente fase da bolsa.

2 – Investir na “nova” poupança

A “nova” caderneta de poupança — cujo retorno é de 70% da taxa básica de juro sempre que a Selic ficar abaixo de 8,5% ao ano — rendeu apenas 3,4% desde que foi criada, em maio de 2012, praticamente o mesmo que a inflação. O retorno projetado para os próximos 12 meses é de 5% — ou seja, tudo indica que a poupança não cobrirá a inflação do período.

Como evitar: Procure fundos DI ou CDBs de grandes bancos, que são tão seguros quanto a poupança e podem render mais. Os fundos DI devem ter taxa de administração de até 1% ao ano e os CDBs devem pagar no mínimo 95% dos juros de mercado (CDI).

3 – Confiar na “rentabilidade garantida” 

Alguns fundos imobiliários oferecem garantias de retorno por prazos determinados. Geralmente, elas valem enquanto os imóveis em que o fundo aplica estão em obras e, por isso, não geram receitas. Os gestores fazem uma estimativa do rendimento que conseguirão entregar no futuro e começam a pagá-lo aos cotistas.


O problema é que alguns têm feito uma previsão otimista demais, e isso está prejudicando os investidores. Um exemplo: o fundo no shopping West Plaza, na zona oeste de São Paulo, pagou 0,8% por mês durante os quatro primeiros anos, até setembro de 2012. Quando a garantia acabou, o retorno caiu para 0,3%. Como o fundo é obrigado a comunicar a geração de receitas antes de a garantia acabar, muitos investidores saíram da aplicação, o que provocou desvalorização de 6% em 2012. 

Como evitar: Ler atentamente os prospectos de fundos que prometem retornos garantidos para entender os riscos desse tipo de investimento.

4 – Dar muita importância à isenção fiscal

Entusiasmados com o fato de não pagar imposto de renda sobre a rentabilidade, milhares de investidores passaram a colocar dinheiro em fundos imobiliários, títulos lastreados em imóveis (CRIs e LCIs) e papéis de dívidas de empresas agrícolas (CRAs). São alternativas interessantes, mas arriscadas. Alguns fundos investem em imóveis com problemas — sem inquilinos ou penhorados — e os títulos podem render menos se houver inadimplência. Além disso, têm pouca liquidez: quem é obrigado a vender às pressas pode perder parte do rendimento.

Como evitar: Primeiro, analisar os riscos em detalhe. De novo, é preciso ler as 200 páginas dos prospectos dos fundos imobiliários  — e entender quais são as dívidas que servem de lastro para CRIs, LCIs e CRAs. E o conselho dos especialistas é aplicar uma pequena parte do patrimônio nesses investimentos.

5 – Achar que os títulos da dívida pública não oscilam

Quem compra um título público que oferece, por exemplo, um retorno de 3% ao ano mais a variação da inflação vai receber exatamente esse valor se mantiver o investimento até a data de vencimento — há papéis que vencem em alguns meses, outros em dois, sete e até 37 anos. 

Mas quem decidir vendê-los antes pode receber rendimentos bem diferentes. Quando a demanda está em alta, o retorno é maior, porque há investidores dispostos a pagar mais para comprar esses títulos — em 2012, por exemplo, alguns papéis ligados à inflação renderam até 55%. Se a procura diminui, o investidor pode ficar no prejuízo.

Como evitar: De forma geral, os consultores recomendam manter os títulos públicos até o vencimento. Se for necessário vender antes, é melhor esperar uma condição favorável do mercado.

6 – Mudar de fundo a toda hora

Os fundos de ações que entregaram os melhores retornos de 2009 a 2012 tiveram desempenhos irregulares ao longo desses três anos. O primeiro do ranking, gerido pela gestora BNY Mellon Arx, rendeu só 6% em 2011, mas 32% no ano passado (leia mais na pág. 40). Ou seja, o investidor que saiu em dezembro de 2011, decepcionado com os 6%, perdeu a recuperação. Mesmo fundos de renda fixa podem ter desempenhos diferentes de um mês para outro, se aplicarem em títulos da dívida de empresas ou em papéis públicos prefixados, que costumam oscilar no curto prazo.


Quem troca de fundo depois de três ou quatro meses ruins pode perder dinheiro devido a uma desvantagem fiscal: recursos aplicados nessas carteiras por menos de seis meses estão sujeitos a um imposto de renda de 22,5% sobre o rendimento — o percentual cai até chegar a 15% para aplicações superiores a dois anos.

Como evitar: O conselho dos especialistas é fazer uma triagem inicial detalhada, que deve incluir uma análise da estratégia do gestor e a classificação em rankings de fundos como o publicado anualmente por EXAME. Feita a escolha, é bom dar um prazo de pelo menos um ano para acompanhar o desempenho do fundo.

7 – Ignorar os riscos da renda fixa

Com a queda dos juros, os fundos de renda fixa passaram a aplicar cada vez mais em títulos da dívida de empresas, que oferecem retornos maiores que os papéis públicos. Só que os títulos de empresas têm um problema: no Brasil, é dificílimo negociá-los antes do vencimento.

Como há poucos negócios, não existe uma cotação oficial para eles. Isso significa que os fundos precisam estimar o valor desses papéis para informar a rentabilidade das carteiras aos investidores. Estimativas malfeitas podem surpreender o investidor: se, no momento em que for negociado de fato, o título valer menos, o retorno do fundo de renda fixa pode cair de forma inesperada. 

Como evitar: É preciso analisar o histórico do administrador do fundo — que é quem estima o preço dos títulos. Se ele teve problemas em outros fundos, o conselho dos especialistas é não investir.

8 – Aplicar em empresas pouco transparentes

O investidor americano Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo, costuma dizer que só compra ações que manteria em carteira, feliz da vida, mesmo se o mercado “fechasse no dia seguinte e só reabrisse em dez anos”. O cenário é hipotético, mas a chance de um investidor ser impedido de negociar os papéis de uma empresa existe mesmo.

No Brasil, havia, até o fechamento desta edição, seis companhias nessa situação: a refinaria Manguinhos, a tecelagem São José, a fábrica de tecidos Schlösser, a produtora de café Brasília, a metalúrgica Wiest e a Sam Indústrias. Elas foram suspensas porque deixaram de cumprir regras do mercado — por exemplo, atrasaram a publicação dos balanços por mais de 12 meses — ou porque estão numa pindaíba financeira (a Sam decretou falência em 2008).


Os papéis suspensos podem voltar ao pregão quando a empresa passa a cumprir as regras: foi o que ocorreu com a companhia agrícola Agrenco. É mais comum que esse tipo de problema ocorra com as small caps, ações que são pouco negociadas mas vêm subindo mais que a média da bolsa e vêm atraindo investidores.  

Como evitar: Pesquisando a situação da empresa no site da Comissão de Valores Mobiliários — a CVM publica uma lista das empresas que não entregam documentos há mais de três meses.

9 – Escolher fundos sem governança

Cada vez mais investidores aplicam parte de seu dinheiro em fundos de recebíveis (os FIDCs), que investem em títulos lastreados em dívidas que um banco ou uma empresa têm a receber. O patrimônio desses fundos cresceu 64% em cinco anos. Mas os riscos são vários. Se os devedores não pagarem, o fundo fica no prejuízo. Outro risco é aplicar num FIDC com governança ruim.

Se o fundo é gerido pelo mesmo banco que também administra a dívida, os riscos ficam concentrados numa só instituição. Os FIDCs do banco BVA, que está sob intervenção desde outubro, não vêm recebendo repasses. Ao menos em tese, escolher gestores independentes torna o investimento mais claro ­— e aumenta a proteção dos investidores caso credores ou devedores tenham problemas. 

Como evitar: Buscar FIDCs em que a gestão é feita por uma instituição independente do banco que origina os empréstimos. 

10 – Desprezar os bancos médios

Os CDBs de bancos médios renderam, em média, 103% do CDI (o equivalente a 8,7%) em 2012, enquanto os de grandes bancos pagaram 95% do CDI (ou 8%). Claro, o retorno é maior porque o risco é maior — só no ano passado, três instituições 

de médio porte quebraram. Mas isso não vale para quem tem até 70 000 reais nessas aplicações. Até esse valor, conta-se com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — se o banco quebrar, o FGC cobre o prejuízo. Funciona assim: o Fundo repassa os CDBs para outro banco e paga ao investidor o rendimento combinado. Geralmente, essa transição leva três meses.

Como evitar: Em vez de aplicar automaticamente no banco em que recebe salário, o investidor deve pesquisar as taxas oferecidas por instituições menores. Se ele tem CDBs em dois bancos diferentes, tem 70 000 reais garantidos por instituição. Fundos de investimento estão fora do pacote. Conta-corrente e poupança também são cobertas pelo FGC até o limite de 70 000 reais.

11 – Não comparar as taxas das corretoras

As diferenças são relevantes. O valor da taxa de corretagem (cobrada quando o investidor compra e quando vende ações) vai de 5 a 25 reais. Algumas corretoras cobram até 21,50 reais por mês de quem tem ações (é a taxa de custódia). Outras oferecem esse serviço gratuitamente.

Comprar títulos públicos pode custar até 4,4% do total investido — mas algumas instituições não cobram nada. Geralmente, os preços mais altos são os de corretoras de bancos.

Como evitar: Pesquisando. Em geral, as corretoras não cobram para abrir ou manter contas — assim, vale a pena se cadastrar numa instituição barata. Uma taxa mensal de custódia de 20 reais, por exemplo, representa 2,4% de um investimento em ações de 10 000 reais.