Comida de laboratório será alimento das próximas gerações?

Bruce Friedrich, diretor da ONG The Good Food Institute, aposta na carne artificial para conquistar a geração milênio

São Paulo — Até pouco tempo atrás, o advogado americano Bruce Friedrich, de 49 anos, vivia de infernizar a vida de quem come carne. Vegetariano desde os 18, Friedrich foi durante duas décadas uma das maiores lideranças do Peta, grupo de defesa dos animais pródigo em realizar protestos em frente a lanchonetes fast-food. Os protestos não raro reuniam um exército de ativistas com pouca ou nenhuma roupa e muito sangue falso, numa tentativa de chocar carnívoros denunciando  maus-tratos sofridos pela bicharada até virar hambúrguer.

Há dois anos Friedrich mudou de estratégia. Agora, ele quer convencer a sociedade a comer o que chama de “carne limpa”, um tipo de alimento feito em laboratório com base numa mistura de células de animais enriquecidas com vegetais como castanhas e cana.

Desde o ano passado, Friedrich é diretor do The Good Food Institute, grupo de estudos de Washington que reúne cientistas e empreendedores em busca de alimentos para substituir os atuais. Além disso, é fundador do New Crop Capital, fundo de investimento aberto no ano passado e que já captou 25 milhões de dólares em contribuições para investir em startups que produzem comida em laboratório. “Este será o alimento ideal para as próximas gerações”, diz ele. Na entrevista a seguir, Friedrich explica por que considera o modo tradicional de produção de alimentos em xeque — e quais são as chances da nova tecnologia roubar esse mercado.

Exame – Os consumidores estão mais desconfiados da qualidade da comida?

Friedrich – Sim, isso é especialmente verdadeiro para a chamada geração do milênio — os jovens nascidos nas décadas de 80 e 90. Eles já têm um enorme poder de compra e confiam pouco nas empresas de alimentos. Um relatório de 2015 da consultoria Mintel revelou que 74% dos jovens americanos querem práticas de produção mais transparentes na indústria de alimentos. Embora sejam números referentes aos Estados Unidos, há todos os motivos para acreditar que são semelhantes no Brasil.

Exame – O que tem feito os consumidores estarem mais críticos em relação ao que comem?

Friedrich – As redes sociais popularizaram a troca de informações e tornaram difícil ocultar aspectos desagradáveis dessa cadeia, como a derrubada de florestas em nome de pastagens de gado. E, embora a perda de confiança nas grandes empresas de alimentos tenha sido uma tendência constante em todo o mundo, hoje uma reputação pode ser destruída num instante por causa da repercussão de notícias negativas nas redes sociais, o que só piora as coisas para essas empresas.

Exame – Essa perda de confiança acontece na mesma proporção em todo o mundo?

Friedrich – Sim, seja em nações ricas, seja nas emergentes. Nada é mais ilustrativo do que as revelações da Operação Carne Fraca. Após o escândalo, um levantamento do instituto de pesquisas online MindMiners revelou que 50% dos brasileiros estavam dispostos a reduzir o consumo de carne e 16% haviam jogado fora compras feitas antes da operação. Mesmo a carne brasileira de melhor qualidade foi barrada dos Estados Unidos, um país com controles sanitários considerados relativamente fracos.

Exame – E qual é a alternativa?

Friedrich – Uma solução pode ser a produção do que chamo de carne limpa, feita em laboratórios e sem a necessidade de criar, engordar ou abater qualquer animal. Nesse processo, células são extraídas de animais e enriquecidas com açúcares, proteínas e minerais extraídos de fontes vegetais para que cresçam e se multipliquem. É um processo semelhante ao do cultivo de levedura de cerveja. Ao final da fermentação, há uma massa com textura e gosto muito próximos aos da carne puramente animal.

Exame – Mas, no futuro, o cultivo de plantas para a produção de comida em laboratório não vai também ocupar uma grande extensão de terras e prejudicar o meio ambiente?

Friedrich – Pelo contrário, ela vai liberar grandes quantidades de terras agrícolas hoje usadas para pasto. Atualmente, com a tecnologia já disponível, é possível produzir utilizando somente 3 calorias das fontes vegetais para cada caloria de carne produzida. É apenas um terço da energia necessária para produzir frango da maneira convencional, um quinto da de suínos e um oitavo do necessário para o bife.

Exame – Existe mercado para esse tipo de alimento?

Friedrich – Atualmente, as vendas de carnes a partir de fontes vegetais somam 500 milhões de dólares por ano nos Estados Unidos. É menos de 1% do mercado de alimentos, mas o consumo cresce rapidamente. Há projeções de que esse mercado vai representar um terço da venda de proteínas em 2054. Por isso, grandes empresas alimentícias já olham para ele. Em dezembro do ano passado, a Tyson Foods, segunda maior produtora de proteína animal no mundo, aportou recursos na Beyond Meat, uma dessas fabricantes. No Brasil, startups como a Nomoo e a Novah utilizam a tecnologia para fabricar queijos deliciosos.

Exame – O que indica que a produção de comida em laboratório vai ganhar espaço no futuro?

Friedrich – Hoje, o agronegócio tem duas grandes questões: como alimentar os 9,7 bilhões de pessoas que o planeta terá em 2050 e como reduzir o impacto do aquecimento global? Esse modo de produção de carne atende aos dois desafios, pois amplia a produção de comida sem abrir novas fronteiras agrícolas, contribuindo para manter as florestas de pé. Por isso, tenho certeza de que esse será um alimento ideal para as próximas gerações.

Exame – Mas as pessoas vão se acostumar a comer uma carne que, de fato, não é uma carne?

Friedrich – Assim como a invenção de aviões e carros tornou inconcebível a ideia de viajar longas distâncias a cavalo, a comida feita de bases vegetais vai tornar uma coisa do passado a criação de animais para tirar sua carne, seu leite ou seus ovos.

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