Com vocês, Walduck Wanderley, da Cowan

A Cowan é uma sobrevivente no mundo das empreiteiras. Mas mais extraordinária que ela é a história de seu dono

Belo Horizonte – De terno escuro, ao volante de uma Mercedes S-600, o empreiteiro Walduck Wanderley segue pela Afonso Pena, a principal avenida de Belo Horizonte, a 20 quilômetros por hora, se tanto. Anda devagar, admite, porque faz questão de ver e de se mostrar para quem passa pelas calçadas, especialmente para as mulheres. “Não basta ter dinheiro”, diz ele. “É preciso ter e mostrar que se tem.”

Wanderley é dono da Cowan, 14a colocada na lista das empreiteiras brasileiras. No ano passado, a empresa faturou 161 milhões de dólares e teve um lucro de 3 milhões.

É um lucro modesto – sobretudo diante das despesas pessoais do dono do negócio. Wanderley gasta 200 000 dólares por mês, conforme a estimativa de amigos. Isso dá 2,4 milhões de dólares por ano, ou ainda 80% do lucro da Cowan em 1996.

“Não vivo da empresa”, diz. Segundo Wanderley, seus gastos pessoais são bancados pelo patrimônio que vem juntando em seu próprio nome desde a fundação da Cowan, em 1958. Os amigos calculam sua fortuna pessoal em uns 50 milhões de dólares, em aplicações financeiras e em imóveis.

Em investimentos conservadores, seus 50 milhões rendem por mês pelo menos 400 000 dólares. Ou seja, o dobro de seu desembolso mensal. “O que quebra um sujeito não é o que ele gasta, são os maus negócios.”

E que tipo de negócios faz Wanderley? A Cowan é, antes de tudo, uma sobrevivente. “Das 10 maiores construtoras de Minas Gerais 10 anos atrás, só restam de pé a Andrade Gutierrez e a Cowan”, diz Wanderley. “Ficamos porque temos competência.”

Com franqueza desconcertante – um de seus traços marcantes -, Wanderley reconhece que não existem freiras no mundo da empreita.

Considera importante ter amigos em postos-chave do governo, único cliente das construtoras até há poucos anos. Admite que ajudou a financiar campanhas eleitorais e que emprestou seus jatinhos a políticos em busca de mandato. Mas, segundo diz, não foi isso que garantiu a sobrevivência da Cowan.

As construtoras que estão terminando os anos 90 mais sólidas do que no início da década tiveram sucesso porque se tornaram organizações mais vivas. A Cowan também está mais forte – mas pela razão contrária: ela como que se fingiu de morta. O enxugamento no quadro de empregados foi radical.

Dos 6 000 funcionários que a empresa chegou a ter nos seus melhores anos restam menos de 600. Ao contrário de concorrentes maiores (Camargo Correa, Odebrecht e Andrade Gutierrez, por exemplo), a empresa não tentou combinar a necessidade de encolher com a decisão de se tornar mais agressiva.

Nem pensou, no primeiro momento, em se expandir rumo ao exterior ou em direção a outros ramos de atividade – a forma encontrada pela concorrência para compensar a perda de receita pelo lado das obras públicas. (A busca de novos negócios só está acontecendo agora, depois que o pior passou.) A intenção foi mesmo reduzir as atividades da empresa ao mínimo necessário e fazê-la sobreviver em hibernação até a chegada de dias melhores.

Que empresa na história recente da economia brasileira promoveu um enxugamento tão profundo sem ter de se desfazer de ativos para pagar a conta? Poucas, certamente, e entre elas está a Cowan.

Nos galpões da construtora, na região da Pampulha, em Belo Horizonte, estão parados cerca de 70 milhões de dólares em caminhões, tratores, niveladoras e outros equipamentos pesados.

Quase todos zero-quilômetro. As máquinas foram adquiridas pouco antes da decisão de paralisar a empresa – e conservadas até hoje. O empresário não pensou em vendê-las nem mesmo no auge da ociosidade, cerca de seis ou sete anos atrás.

Naquela época, o governo ficou meses sem pagar à Cowan. “O cemitério está cheio de construtoras que quebraram trabalhando”, diz Wanderley (um excepcional criador de frases). “Parada, nenhuma quebrou.”

“OI, WALDUCK” – Lentamente, as máquinas estão voltando a funcionar. A Cowan conseguiu, nos últimos anos, algumas obras pequenas, mas suficientes para fazê-la retornar ao mundo dos vivos. Atualmente, está construindo uma auto-estrada que deverá desafogar o trânsito nas imediações da fábrica da Fiat, em Betim. São 13 quilômetros de rodovia, com quatro pistas.

Quem encomendou a obra, que renderá à Cowan 20 milhões de dólares, foi o governo de Minas. Mas a conta será paga pela montadora, que abaterá o gasto de seus impostos a pagar. No ano passado, construiu avenidas para as prefeituras de São Paulo e do município mineiro de Contagem.

Antes que isso acontecesse, o dinheiro voltara a entrar na conta à medida que a Cowan conseguia receber parte dos créditos de órgãos públicos. (Ainda há, segundo Wanderley, 300 milhões de dólares a receber da Dersa, a estatal que cuida das rodovias paulistas.) Com isso, a empresa conseguiu vencer o período mais agudo da crise sem se descapitalizar.

Para cada dólar em dívidas, a Cowan tem 48 dólares disponíveis. A média entre as empresas brasileiras é de 1,02 dólar disponível para cada dólar em dívidas. A empresa tem em caixa mais de 90 milhões de dólares aplicados em títulos de liquidação imediata.

“Para uma construtora do porte da Cowan, a redução de atividades acabou sendo a salvação”, diz o empreiteiro Eduardo Andrade, diretor-superintendente da mineira Andrade Gutierrez. “Muita gente que não seguiu essa receita teve de sair do mercado.”

Nada que diga respeito à Cowan – nem a forma peculiar que a empresa encontrou para atravessar viva tempos duríssimos – é tão extraordinário quanto a figura de seu dono. Walduck Wanderley vive num edifício no bairro das Mangabeiras de onde se tem uma das vistas mais privilegiadas de Belo Horizonte.

Ele tem 25 automóveis (10 dos quais Mercedes-Benz). Os carros, quase todos estrangeiros, ficam espalhados entre Belo Horizonte, São Paulo e Miami, onde ele tem residências montadas, e mais duas ou três cidades onde tem interesses. Há pouco tempo vendeu um outro apartamento, no Rio de Janeiro. Foi informado da presença de seu nome numa provável lista de seqüestráveis e resolveu evitar a cidade.

“São apartamentos de solteiro”, diz. Desde o fim de seu único casamento, cerca de 20 anos atrás, Wanderley nunca voltou a dividir o mesmo endereço com uma mulher. “Nas minhas casas, mulher não entra com mala”, diz ele. “Tudo o que ela traz é a bolsa, que leva embora no dia seguinte.” Wanderley não tem a mínima preocupação em parecer politicamente correto quando fala de mulher.

Pode-se acusá-lo aí de muitas coisas. Por exemplo, de ser troglodita ao falar de mulher. Mas não se pode acusá-lo de hipocrisia. O homem diz o que pensa e não parece nem um pouco incomodado com a possibilidade de que o achem um horroroso machista.

Wanderley vive, respira e transpira mulher. Segundo uma lenda belorizontina, Wanderley tem (e mantém) mais de 30 namoradas. “Na verdade, só 10 são fixas”, diz ele. “Algumas outras vêm e vão embora.” Wanderley reconhece que boa parte dos 200 000 dólares que gasta por mês se transforma em automóveis, apartamentos e jóias caras para suas namoradas.

“É uma troca justa”, diz. “Elas me emprestam sua juventude e eu retribuo com um pouco do que tenho.” (Numa noite em que ele recebeu EXAME em seu apartamento, duas das moças apareceram. Ambas morenas e bonitas, na faixa dos 20 anos. Chegaram e cumprimentaram Wanderley com beijinhos no rosto. “Oi, Walduck”, foi tudo o que disseram. Depois ficaram na sala sem interferir na conversa.)

Visitas masculinas são raríssimas no apartamento das Mangabeiras e nos outros endereços de Wanderley. O empresário conta nos dedos os amigos que recebeu em casa para jogar cartas.

Ele se considera bom no baralho e faz visitas eventuais aos cassinos em Montecarlo e Las Vegas. “Jogo e mulher não quebram ninguém”, afirma. “Só mau negócio.” Dezenas de marcas de uísque estão expostas no bar de sua sala. Sua predileta é a Ballantine s 17 anos.

Homem corpulento, de 65 anos, Wanderley fala de sua vida com naturalidade, sem piscar nem franzir o rosto diante de qualquer assunto. Sob a testa ampla espalha-se o nariz largo como o de um lutador de boxe. A pele sulcada aparenta haver passado pelo menos por uma cirurgia plástica. Ele tem pressão alta e 220 de taxa de colesterol.

Tenta combater o colesterol alto com 1 litro de suco de berinjela por dia. Para baixar a pressão, tempera a comida com um sal americano que não tem sódio. Ex-fumante, de acordar no meio da noite para dar umas tragadas, abandonou o cigarro. Mas dispensa as caminhadas aconselhadas pelo médico. “Se andar fosse bom, carteiro seria imortal.”

DI CAVALCANTI – O apartamento de Belo Horizonte tem 560 metros quadrados e ocupa um andar inteiro do prédio. Sempre que chega com algum visitante de primeira viagem, ele apressa o passo, abre a porta com um gesto brusco e diz: “Estou em casa”. (No chão da sala, em mármore, está o WW de sua marca pessoal.) Depois, se afasta para que o acompanhante veja a quem ele se anunciou.

É James, o mordomo inglês, vestido a caráter, com casaca e luvas brancas. Nas mãos, uma bandeja de prata de lei. Mais adiante está Jennifer, uma morena jovem e bonita. A moça traja uniforme de arrumadeira e segura um espanador. Wanderley faz, matreiro, um agrado em Jennifer.

Quem a moldou – Jennifer é uma boneca de cera, assim como James – cuidou de todos os detalhes, inclusive das particularidades anatômicas. Cada um dos bonecos custou 5 000 dólares. “A diferença entre um homem e uma criança é o preço de seus brinquedinhos”, diz o empreiteiro.

Muitos dos objetos na sua casa, pelo menos é essa a impressão, são alguns desses brinquedos caros. As cortinas são acionadas por controle remoto. “Custam uns 1 000 dólares”, diz. “Uma bobagem.” Se os aparelhos estragam, é o dono da casa que os conserta. Em cada um dos apartamentos há uma oficina bem sortida de ferramentas.

“Gosto do trabalho manual”, diz. “É relaxante.” Outro brinquedo é uma miniatura de vaso sanitário, branca. Quando pretende pregar uma peça num amigo ao telefone, ele pede que a pessoa aguarde na linha e dá descarga na engenhoca. O som é idêntico ao de um banheiro real. (No banheiro de verdade da casa, outro brinquedo. O papel higiênico tem duas faces. Uma é branca.

A outra reproduz estampas da nota de 100 dólares. Piscando o olho, ele diz: “Funciona como indução psicológica.”) A casa é de uma organização impecável.

No closet, de cerca de 50 metros quadrados, estão penduradas por ordem de cor – das brancas até as pretas – centenas de camisas de linho e de outros tecidos finos. Todas têm no bolso o monograma WW bordado à mão. Há muitas calças e uma centena de ternos, quase todos escuros. (Mesmo para trabalhar, Wanderley prefere roupa esporte.

Quando usa terno, é com suspensório.) Estão ali muitos pares de sapatos, quase todos estrangeiros. Cuecas de seda, gravatas italianas, meias inglesas – são quase 1 000 peças, cada uma no seu devido lugar.

Quem mantém as roupas e toda a casa em ordem é uma empregada, essa de carne e osso, com quem Wanderley não demonstra a menor intimidade. Além dela, o empreiteiro tem a seu serviço particular um motorista. Sua secretária, na Cowan, é quem controla suas contas bancárias e as despesas da casa. “Um homem como eu, descasado, que vive viajando, precisa confiar em alguém”, diz ele.

Seus três apartamentos são decorados no mesmo estilo. “Assim, se eu acordo de fogo, não tenho que me perguntar onde estou”, diz. O de Belo Horizonte é repleto de objetos caros. São pratarias, esculturas, jarros de porcelana, lustres e abajures. Nas paredes da sala, oito telas de Di Cavalcanti – com mulatas e paisagens.

“Me disseram que valem mais de 1,5 milhão de dólares”, afirma. “Se for verdade, vou passá-las adiante”, diz. O empreiteiro não cede ao argumento de que o prazer estético proporcionado pela obra de Di Cavalcanti justifica a posse das telas. “O prazer é maior ainda na conta bancária.”

Embora freqüente os lugares da moda em Belo Horizonte, São Paulo ou onde quer que esteja, ele não se deixa fotografar para colunas sociais (seus encontros com EXAME ao longo de dois meses, nos intervalos de suas viagens, resultaram numa das três ou quatro reportagens publicadas a seu respeito em toda a vida).

Todo ano, comparece à festa de Réveillon que seu amigo Alexandre Grendene promove no balneário uruguaio de Punta Del Este. Entre tantas celebridades, Wanderley costuma passar despercebido: poucas pessoas fora de seu meio sabem quem ele é. “O Walduck já casou, descasou e não quer compromisso com ninguém”, diz Grendene.

“Isso é normal, como também é normal a pessoa que não queira viver sozinha se casar uma, cinco ou dez vezes.” Wanderley pode ter mantido, pelo menos até aqui, sua vida particular protegida pelo anonimato. Mas nunca fez questão de agir às escondidas. O hábito de mostrar o poder de sua conta bancária nasceu muito antes de ser tão rico como é hoje.

Foi para ter dinheiro e comprar um carro – seu primeiro sonho de consumo – que Wanderley, quase 40 anos atrás, trocou por um trator zero-quilômetro a pequena fazenda que tinha na região de Montes Claros, norte de Minas, sua terra natal. Ele concluíra o segundo grau num internato em Belo Horizonte e não quis, como pretendia o pai, prestar vestibular para medicina.

Aquele trator, que no princípio cavava açudes nas fazendas da região e depois passou a atender às prefeituras do norte de Minas, foi o embrião da Cowan.

Wanderley chegou a ser ao mesmo tempo o administrador do negócio, o operador da máquina e trabalhador braçal. Na juventude, gosta de recordar, ele tinha força suficiente para erguer acima da cabeça um tambor com 200 litros de água e colocá-lo sobre a carroceria de um caminhão.

PT-WAN – O carro não foi comprado com os primeiros lucros. Antes dele, vieram mais tratores, caminhões e outras máquinas. Um dia, Wanderley se achou em condições de realizar o sonho e embarcou num avião para São Paulo. Visitou as revendedoras e achou o que procurava.

Era um Impala SS-1961, cinza, com estofado em couro vermelho. O pagamento foi feito à vista, com uma parte do dinheiro vivo que Wanderley carregara dentro de uma mala até São Paulo. Naquele tempo, se levava mais de dois dias para percorrer a distância entre São Paulo e Montes Claros, onde ainda vivia.

Chegou à cidade de madrugada. Fez de propósito, para que ninguém visse o automóvel empoeirado. Pela manhã, mandou lavar e deixar o carro brilhando. Depois, saiu com ele. Queria que toda a cidade comentasse que já tinha não um carro qualquer, mas “o carro”.

Dos sonhos daquela época, o único que não realizou foi o de pilotar aviões. O pai, o mecânico paraibano Flamarion Wanderley, tinha brevê e foi um dos fundadores do aeroclube de Montes Claros.

Na época em que tinha tempo e idade para aprender a pilotar, Wanderley, um dos 10 filhos de Flamarion, não tinha dinheiro para pagar as aulas no aeroclube. Depois que ganhou dinheiro, já não tinha mais tempo a perder com cursos de pilotagem – mas, então, podia comprar aviões e contratar pilotos.

O primeiro avião, um bimotor, chegou ainda nos anos 60. Na década seguinte, ele comprou o primeiro jato. Os atuais, registrados em nome da Wanair, a empresa de táxi aéreo do grupo, são dois BA-800 – um modelo de jatinho com ótima reputação. (O piloto Ayrton Senna tinha um desses.) Nenhum dos dois aviões da Wanair completou as primeiras 1 000 horas de vôo. Eles têm alguns metais dourados e poltronas de couro finíssimo.

Cada um dos BA-800 custou 11 milhões de dólares. (Dias atrás, a Wanair vendeu um terceiro jato, um Falcon 50, por 12,5 milhões de dólares.) Um dos jatinhos atuais, o preferido pelo empresário, tem o prefixo PT-WAN. O prefixo do Falcon 50 era PT-WAL.

Os jatinhos servem, é claro, para os deslocamentos do empreiteiro dentro do Brasil e, de vez em quando, o levam ao exterior (de algum tempo para cá, ele tem preferido a primeira classe dos vôos de carreira para suas viagens mensais a Miami.) Além de transportar seu dono, os aviões da Wanair já fizeram muitas horas de vôo levando a bordo políticos em campanha.

A ligação com os políticos, diz ele, vem de berço. Virginaud Wanderley, irmão de seu pai, foi senador pela Paraíba. Outro parente, Dinarte Mariz (casado com uma das tias de Wanderley), foi senador pelo Rio Grande do Norte.

Mariz entrou na vida política milionário, segundo o sobrinho. Ao morrer, deixou para a mulher apenas um apartamento no Rio de Janeiro e uma fazenda em Caicó, no Rio Grande do Norte. O exemplo do tio deve ter produzido algum efeito sobre Wanderley. Em vez de se tornar político, uma profissão que admira, preferiu ser empreiteiro.

No passado (por sinal, nos anos em que a Cowan esteve melhor), ele manteve uma amizade estreita com o então ministro dos Transportes, Mário Andreazza. “Isso nunca me rendeu obras”, afirma. “Quando a Transamazônica ia ser construída, Andreazza não me deixou participar da concorrência.”

Conforme Wanderley, o argumento usado pelo ex-ministro para dissuadi-lo foi que seu pé era pequeno demais para um sapato do tamanho da Transamazônica. (O pé também foi pequeno para a hidrelétrica de Itaipu. A Cowan foi a primeira empreiteira a se instalar no canteiro de obras – mas apenas para fazer o trabalho de infra-estrutura. A melhor parte, a barragem, ficou com empreiteiras maiores.)

O dinheiro que a empresa tem em caixa hoje em dia já permite que Wanderley sonhe em tornar a Cowan menos dependente das verbas públicas. Em consórcio com outras empreiteiras, a empresa ganhou o direito de explorar o saneamento na cidade fluminense de Campos.

Está na disputa pela concessão do mesmo serviço na região da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Pretende disputar a concessão de rodovias paulistas e também quer entrar no ramo das telecomunicações.

Através da Universal Telecomunicações, uma subsidiária da Cowan, disputa concessões dos serviços de trucking. Disputa, também, duas concessões da banda B em sociedade com o grupo Hutchison, de Hong Kong.

Há outros negócios, menores mas promissores, engatilhados. Wanderley pretende ceder um terreno que tem no bairro carioca do Leblon para a instalação de uma cervejaria Dado Bier. Em troca, é claro, de uma participação expressiva no negócio. Faz isso porque pretende continuar ganhando dinheiro – não porque demonstre muita preocupação com o futuro da Cowan.

SUCESSÃO? – E o amanhã? Wanderley não parece interessado em preparar a Cowan para o dia em que não estiver mais à frente do negócio. “Não devem existir nem cinco grandes empresas brasileiras bem-sucedidas na segunda geração”, afirma.

Por essa razão, diz não se sentir nem um pouco frustrado por não ter tido um filho homem para continuar o negócio. “O problema é que o filho pode querer ser violonista ou médico, enquanto o pai quer que ele seja empresário”, diz. “E aí, para onde vai a empresa?”

Na verdade, ele não demonstra nenhuma preocupação com a perpetuidade da Cowan. “Nem quero saber como será a sucessão na empresa”, afirma. “Nem se ela vai viver 10 ou 100 anos depois que eu não estiver aqui.”

O casamento desfeito deu a Wanderley duas filhas, já casadas. “Se não fizerem bobagem, terão com o que viver muito confortavelmente”, diz. Uma das filhas gosta do ramo de construção e já revelou ao pai o desejo de trabalhar na Cowan.

“Monte sua empresa e veja se você tem mesmo vocação para o negócio”, foi a resposta. Ela seguiu o conselho. Conforme o empresário, a empresa da filha, em sociedade com um irmão dele, Wandick Wanderley, vai bem. Mas ela continua fora da Cowan.

A sala de Wanderley na sede da empreiteira obedece ao mesmo estilo de decoração de sua casa. É cheia de objetos. As paredes são decoradas com quadros de pintores pouco conhecidos. Miniaturas de aviões e de helicópteros ficam numa estante.

Nela há também livros e uma réplica de uma máquina a vapor. O chão é forrado com tapetes grossos. Cadeiras no estilo Luiz XV cercam a mesa de Wanderley. É uma mesa em madeira escura, com o monograma WW entalhado no interior de um círculo.

A harmonia do ambiente só é quebrada por uma poltrona larga, quase uma cama, voltada para a janela. “Nunca me sentei nela”, diz Wanderley. Na antiga sede da empresa, confessa, havia um dormitório instalado numa sala contígua a seu gabinete. Muitas vezes, ele recebeu visitas femininas entre uma reunião com a diretoria e outra com clientes.

Nas rodas de conversas, Wanderley se sente bem como o centro das atenções. É do tipo que gosta de contar histórias sobre jagunços paraibanos e casos dos políticos com quem conviveu. Também conta piadas. Muitas – adivinhou – são sobre mulheres.

“Você sabe qual é a parte do homem que as mulheres mais gostam?”, pergunta, para ele mesmo responder: “É o derrière. É lá que vai a carteira”. O único tema que evita são os planos para o dia em que a idade impedir suas aventuras. “A gente nunca é velho, pois sempre haverá alguém com 15 anos mais”, diz. “E eu não quero morrer. Para que, se minha vida é tão boa?”