A ArcelorMittal ganhou uma mãozinha de Donald Trump

A medida protecionista do presidente americano ajudou a elevar os preços do aço — e a Arcelormittal teve o maior lucro na década

Em abril do ano passado, os estados Unidos impuseram uma sobretaxa de 25% ao aço importado, uma ação protecionista determinada pelo presidente Donald Trump. A medida tinha o potencial de provocar prejuízos às siderúrgicas instaladas por aqui, uma vez que o Brasil é o segundo maior fornecedor de aço e ferro para os Estados Unidos, atrás apenas do Canadá. Para reduzir o estrago, o governo brasileiro negociou uma cota de exportação isenta da sobretaxa. “Na verdade, não foi bem uma negociação, porque para nós era pegar ou largar”, diz Benjamin Baptista Filho, presidente da subsidiária brasileira da ArcelorMittal, maior siderúrgica do mundo.

O que inicialmente parecia uma ameaça acabou sendo um fator decisivo para o bom desempenho da ArcelorMittal em 2018. Num primeiro momento, o Brasil foi o único país com uma cota sem a sobretaxa — 3,5 milhões de toneladas de produto semiacabado —, enquanto sobre concorrentes como Rússia, México e Japão incidiram os 25% de imposto adicional. O movimento protecionista americano, ao lado de um corte na produção definido pelo governo da China, levou a uma alta global nas cotações do aço.

A  ArcelorMittal foi responsável por 36% da cota exportada pelo Brasil sem a sobretaxa e se beneficiou com os preços elevados: a cotação das placas de aço vendidas aos Estados Unidos chegou a 70,80 dólares, valor superior ao de qualquer outro mercado. No ano passado, a produção da ArcelorMittal Brasil subiu 5%, para 10 milhões de toneladas, dos quais 45% destinados ao mercado externo. A empresa fechou o ano com uma receita de 6,7 bilhões de dólares, quase 25% mais do que no ano anterior. O lucro líquido foi de 635 milhões, o melhor resultado da companhia na década.

Benjamin Baptista Filho, presidente da ArcelorMittal: “O aumento da eficiência reduziu as perdas na produção e contribuiu para os bons resultados” | Alexandre Rezende/Nitro

O presidente da ArcelorMittal atribui o bom desempenho não apenas às circunstâncias do mercado mas também a uma série de medidas para aperfeiçoar aspectos gerenciais e operacionais. Os investimentos no país em 2018 chegaram a 1,1 bilhão de reais em manutenção da capacidade produtiva, melhorias e inovações. A siderúrgica já está inserida no conceito de indústria 4.0, com um big data para a análise de dados e o sensoriamento dos equipamentos.

“Conseguimos aumentar a capacidade de produção ano a ano com as mesmas usinas, um processo que deve continuar”, diz Baptista Filho. A unidade de Tubarão, no Espírito Santo, por exemplo, que no passado produzia 3 milhões de toneladas de aço, hoje produz 7,1 milhões. Até 2020, o objetivo é chegar a 7,5 milhões graças à maior eficiência. “Ganhamos em rentabilidade e temos menos perdas no processo e menos sucata.” A eficiência da ArcelorMittal pode ser medida pela longevidade de seus altos-fornos. Em Tubarão, o alto-forno 1 é utilizado continuamente há 21 anos, um recorde mundial.

Neste ano, os ventos sopraram no sentido contrário, com a queda do preço do aço no mercado internacional. A guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, que no ano passado beneficiou as siderúrgicas brasileiras, é agora um fator de preocupação — nem tanto pela possibilidade de restrições ao aço feito aqui, mas pelo risco de desaceleração da economia global em razão do cenário de incerteza. O baixo crescimento da economia no Brasil também não ajuda. “Há certa frustração com as projeções econômicas, de modo geral”, diz Felipe Beraldi, analista de mineração e siderurgia da Tendências Consultoria. Contudo, ele observa alguns sinais positivos vindos da construção civil e da infraestrutura. “Há uma luz no fim do túnel, mas a recuperação tende a ser gradual.”

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