Com lucros em queda, empresas reduzem distribuição de dividendos

Em 2016, as companhias de capital aberto pagaram aos acionistas 15% menos do que no ano anterior, segundo um levantamento de MELHORES E MAIORES

São Paulo – Com a economia do Brasil atolada há três anos e sofrendo os efeitos da prolongada crise política, muitas empresas vêm lidando com a dura rotina de retração das vendas, aumento das dívidas e diminuição dos lucros. Se a vida das empresas não está nada fácil, a situação não tem sido melhor para os acionistas. A Lei das Sociedades Anônimas estabelece que toda empresa de capital aberto deve distribuir aos acionistas, no mínimo, 25% de seu lucro líquido na forma de dividendos ou juros sobre o capital próprio (a diferença entre eles é que os dividendos são integralmente recebidos pelos acionistas, enquanto os juros sobre o capital próprio são tributados na fonte em 15%).

Com os lucros minguando, o quinhão distribuído aos acionistas está diminuindo, uma vez que algumas companhias que costumavam pagar bons dividendos optaram por aumentar a reserva para atravessar o momento de economia fraca. Em 2016, as companhias listadas na BM&F Bovespa pagaram 68 bilhões de reais em dividendos e juros sobre o capital próprio — queda de 15% em relação ao montante distribuído no ano anterior. Isso em termos reais, já descontada a inflação do período. Em 2015, o total distribuído aos acionistas já havia caído quase 22% em relação ao ano anterior. Os dados são da consultoria Economatica e serão apresentados com mais detalhes na edição de MELHORES E MAIORES 2017, que chegará às bancas na primeira quinzena de agosto.

Além de ter encolhido, a fatia de lucros distribuída aos acionistas está cada vez mais concentrada. Os bancos foram responsáveis por 31% dos dividendos pagos no ano passado. Na sequência, as companhias de alimentos e bebidas responderam por quase 25%. Ou seja, somente esses dois setores concentraram 56% dos dividendos pagos no ano passado. Em 2010, a participação dessas duas áreas de  negócio no total distribuído alcançava 34%.

“O setor bancário há anos lidera o pagamento de dividendos no país”, diz Einar Rivero, gerente de relacionamento institucional da Economatica. “O que chamou a atenção nos últimos anos foi o crescimento expressivo também do setor de alimentos e bebidas.” A alta desse ramo foi puxada pela Ambev. A maior fabricante de bebidas do país aparece no topo da lista das empresas que mais distribuíram dividendos no ano passado, com 10,3 bilhões de reais — 15% do que foi pago pelo conjunto de companhias abertas.

“Independentemente do momento do país, a Ambev tem mostrado consistência na entrega de resultados”, diz Roberto Indech, analista-chefe da Rico Corretora. De acordo com o levantamento de MELHORES E MAIORES, a Ambev lucrou 11 bilhões de reais no ano passado — o segundo maior valor entre as empresas não financeiras, atrás apenas da mineradora Vale, que gerou mais de 12 bilhões de reais de lucro.

Ações que pagam dividendos têm sido uma alternativa para os investidores que querem fugir dos altos e baixos da bolsa de valores. Nos últimos tempos, com o cenário complicado no Brasil, muitas pessoas têm buscado essas ações, chamadas “defensivas”. Em geral, são papéis de empresas com boa gestão, posição de liderança ou que enfrentam poucas adversidades em relação à concorrência. Nesse aspecto, as ações dos principais bancos estão entre as preferidas dos investidores.

O Itaú e o Bradesco ocuparam a segunda e a terceira posição no ranking em valor de dividendos distribuídos em 2016. De acordo com o analista Vitor Suzaki, da corretora Lerosa, cerca de um terço dos lucros das duas instituições financeiras é proveniente das linhas de crédito. “O restante vem de seguros, tarifas e serviços, que são menos afetados nos períodos de retração da economia”, afirma Suzaki.

Embora não estejam entre as maiores pagadoras de dividendos em volume, algumas empresas se destacam pela proporção dos lucros que distribuem. São os casos da empresa de programas de fidelidade Multiplus e da corretora de seguros Wiz. Ambas têm distribuído 100% dos ganhos. No ano passado, elas ocuparam o topo do ranking de pagamento de dividendos em relação ao patrimônio líquido. São empresas que, mesmo em tempos difíceis, preferem dividir a acumular.