Clínicas populares avançam cobrando R$ 100 por consulta

Cresce o número de clínicas de saúde populares. Elas cobram 100 reais por consulta e prometem bons salários para os médicos. A qualidade? Dá para o gasto

São Paulo — A Avenida Parada Pinto é o coração da Vila Nova Cachoeirinha, um dos bairros mais populosos da zona norte de São Paulo, com 160 000 habitantes. O movimento nas lojas de bijuterias, supermercados, perfumarias e igrejas é intenso das 6 da manhã até tarde da noite. Mas em nenhum deles o entra e sai é tão grande quanto na discreta fachada do número 99, onde fica a Clínica Fares.

Passam por ali 800 000 pessoas por ano — mais de 2 000 por dia. A Fares atende, principalmente, pacientes das classes C e D e cobra de 80 a 160 reais a consulta — aproximadamente um quarto do que cobram os consultórios particulares, de acordo com a Associação Médica Brasileira. São 150 médicos de 31 especialidades — desde pediatria até neurologia.

O dono da clínica é o médico Adiel Fares, um dos quatro filhos do imigrante libanês Abdul Hadi Mohamed Fares, fundador da varejista de móveis e eletroeletrônicos Marabraz. Seu plano é repetir na saúde o sucesso que a família alcançou no varejo — a Marabraz tem 130 lojas em 15 cidades. “A Fares vai popularizar o acesso à saúde, assim como a Marabraz popularizou a compra de móveis”, afirma Fares. 

Fares abriu a clínica em 1988, mas passou a se dedicar em tempo integral ao negócio somente há dois anos, quando se distanciou do dia a dia da Marabraz. Logo abriu a segunda unidade, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Juntas, elas faturam cerca de 60 milhões de reais. Outras seis unidades estão em obras e deverão ser inauguradas até o fim de 2016.

O investimento, estimado em 120 milhões de reais, deverá vir do bolso do próprio Fares. O faturamento de sua rede o coloca na dianteira de um fenômeno — a ascensão das clínicas populares pelo país.

A paulistana Dr. Consulta, criada em 2011 pelo administrador Thomaz Srougi, recebeu neste ano 40 milhões de reais em investimentos dos fundos Kaszek Ventures e LGTVP (voltado para investimentos de impacto social). Atende 25 000 pessoas por mês em oito unidades e pretende chegar a 30 em 2016. Deverá faturar estimados 16 milhões de reais em 2015.

A cearense Clínica SiM, fundada em 2007 pelo administrador Denis Cruz, fatura cerca de 10 milhões de reais e recebeu, em 2012 e 2015, investimento de um grupo de empresários de educação — como Rodrigo Galindo, da rede de universidades Kroton, Ari de Sá, do grupo de ensino SAS Educação, e Carlos Degas Filgueiras, das faculdades DeVry Brasil.

A essas soma-se uma série de outras iniciativas parecidas em diversas regiões do país. Só em São Paulo foram fundadas as redes de clínicas populares MinutoMED, SOS Consulta, Dr. Família, Cuidar Mais, Consulta Fácil, entre outras. “Esse mercado será bilionário em alguns anos”, afirma Denis Cruz, da SiM. O modelo de negócios de todas as empresas é muito parecido.

As clínicas reúnem dezenas ou até centenas de médicos e cobram cerca de 100 reais por consulta. Suas unidades costumam ser confortáveis, com ar-condicionado, sofás, televisor e cafezinho. O atendimento é o mais ágil possível. A Fares não tem telemarketing terceirizado — são 80 funcionários que fazem o contato com o cliente.

A Dr. Resolve envia SMS ou e-mail para avisar pacientes que, por seu histórico de saúde, estão perto de desenvolver doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Na SiM, 90% dos atendimentos são agendados em até três dias. Mas, em se tratando de saúde, a grande questão é: o tratamento presta? Não existem relatórios de qualidade feitos por órgãos públicos.

As clínicas populares têm bom desempenho no site Reclame Aqui, que recebe críticas de consumidores. O objetivo das clínicas não é oferecer tratamento de primeira linha ou competir com centros de referência. Essas empresas cresceram aproveitando o aumento do poder de compra das classes C e D.

Com mais dinheiro em casa, as famílias passaram a gastar mais com móveis e eletrodomésticos, TV a cabo, restaurantes — e saúde. Mesmo com a inflação e a escassez de crédito atuais corroendo o poder de compra, os gastos com saúde não são cortados. “Os pacientes preferem reduzir outros gastos a ter de voltar para a fila do SUS”, afirma Renato Meirelles, presidente da consultoria Data Popular.

“A má qualidade do serviço público joga a favor dessas empresas.” De acordo com uma pesquisa do Datafolha, 93% dos brasileiros estão insatisfeitos com o SUS. Além disso, os clientes dessas clínicas (com renda mensal de até 1 200 reais) têm dificuldade para pagar um plano de saúde, mas topam pagar por tratamentos esporádicos.

Uma nova opção 

As clínicas também aproveitam a crescente insatisfação com os planos de saú­de. Há três anos, o segmento lidera o ranking das reclamações do Instituto Brasileiro de Defesa ao Consumidor. O preço está aumentando — a alta foi de 16% no último ano. Os médicos também re­clamam. Os planos pagam, em média, 40% do preço da consulta — algo como 50 reais.

Descontados gastos com aluguel, secretária, água, luz e telefone, so­bra pouco mais de 6 000 reais por mês pa­ra um médico que atenda apenas clientes do plano, segundo estimativas de mercado. As clínicas populares criaram um modelo para atrair os descontentes. Elas repassam aos médicos 60% da receita das consultas e bancam todas as despesas.

Segundo estimativas, nessas clínicas os médicos ganham, em média, 17 000 reais por mês — é metade do que ganhariam em hospitais de ponta, mas o triplo do que receberiam atendendo só clientes de planos de saúde.

“Durante muito tempo, as opções de um estudante de medicina eram abrir um consultório e conquistar clientes do plano de saúde ou ser plantonista em hospitais”, diz José Bonamigo, diretor da Associação Médica Brasileira. “As clínicas populares são uma boa opção.”

Como boa parte do valor da consulta é repassada aos médicos, essas empresas têm de investir em consultas simples, como definição do grau de óculos ou tratamentos de manchas de pele. Os tratamentos mais complexos são encaminhados aos hospitais tradicionais. Ainda assim, a margem de lucro fica abaixo de 5%. E as coisas podem ficar ainda mais complexas com a expansão recente.

Essas empresas, acostumadas a competir com os planos de saúde, deverão passar a disputar médicos entre si. Fechar as contas no azul, atrair bons médicos, atender bem os pacientes. O desafio é grande. Mas, com o SUS indo de mal a pior, mercado não há de faltar.