Classe mundial, privilégio de poucos

Você já deve estar cansado de ouvir falar em empresas de classe mundial, as tais de world class companies. Talvez esteja querendo transformar sua companhia numa dessas organizações cinco estrelas. É bom saber: você não é o único. Com o desafio asiático, a formação de blocos econômicos como o Nafta e o Mercosul e a unificação da Europa, comandar empresas de classe mundial tornou-se uma obsessão para a maior parte dos executivos do planeta. Não é uma tarefa fácil. “Empresas desse tipo são lideradas, não apenas administradas”, diz o americano Harold L. Sirkin, vice-presidente em Chicago do The Boston Consulting Group, uma das maiores consultorias internacionais de gestão. “Elas adotam práticas que são benckmarking para o mercado.” Fazem parte desse time, segundo Sirkin, empresas como a Hewlett-Packard, a ICI e a Toyota. Certo. Mas por onde começar? Será que qualquer empresa pode alcançar esse status? Não. É preciso ter algumas credenciais indispensáveis. Analise a lista preparada por Sirkin.

Foco nos funcionários, não no patrimônio – Empresas de classe mundial apostam no potencial criativo de seus empregados para melhorar sua própria performance. A lógica: os funcionários – por conhecerem como ninguém a organização – são melhores que qualquer consultor na hora de resolver problemas rotineiros com baixos custos.

Gestão de todo o sistema, não apenas de divisões – Companhias bem-sucedidas são organismos integrados, não um amontoado de departamentos e funções. Claro que divisões existem, mas elas sempre devem estar ligadas por uma mesma cultura administrativa.

Microgestão, não macrogestão – Por mais estranho que possa parecer, empresas de ponta não substituem tecnologia ou fazem investimentos até que todos os benefícios sejam feitos nos processos já existentes. Eles fazem pequenas mudanças diárias que, somadas, resultam em grandes transformações. As melhores companhias sabem que a vantagem competitiva está nos detalhes.

Foco no tempo, não no custo – Hoje, a resposta mais rápida dada ao cliente é a real vantagem. Empresas de classe mundial desenvolvem novos produtos na metade do tempo gasto por seus concorrentes. Esse é, segundo Sirkin, o melhor caminho para estar à frente dos concorrentes. O tempo é a melhor maneira de medir a eficiência das operações no dia-a-dia. Cortar custos, quase sempre, é uma conseqüência da rapidez com que se opera uma empresa.

Organização em torno da cadeia de valor, não em torno de funções – A empresa é vista como um fluxo contínuo de trabalho em função do cliente. Conceitos tradicionais como hierarquia e especialização funcional não dão certo quando os negócios se movem rapidamente e quando produtos e serviços mudam freqüentemente.

Aprender com os erros, não repeti-los – Companhias cinco estrelas encaram os problemas diretamente e tentam resolvê-los conhecendo suas causas para que eles não se repitam. Por que será que elas são mais rentáveis?

Ser local, não central – As divisões de empresas dessa categoria têm autonomia para tomar as melhores decisões no momento certo e no lugar certo.

Prontidão no lugar de decisões adiadas – Rapidez é uma marca dos competidores mundiais. Contando com organizações dinâmicas e staffs reduzidos, eles tomam decisões, analisam o mercado e estabelecem prioridades rapidamente.

Cooperação, não competição interna – Times de trabalho que combinam profissionais de especialidades diferentes podem ser uma boa solução para reduzir a politicagem corporativa. Numa equipe, um gerente de marketing não pode (pelo menos, em teoria) boicotar o chefe da engenharia. Executivos de empresas de classe mundial conseguem pensar, ao mesmo tempo, como ganhar dinheiro no curto prazo e estabelecer vantagens competitivas futuras. São elas que indicam que caminho o mercado deverá percorrer.

Pare e pense: sua empresa tem todas essas credenciais? Não? Calma, ainda não é hora de se desesperar. Segundo o consultor Robert Davies, vice-presidente do recém-aberto escritório brasileiro do The Boston Consulting Group, atualmente não há empresas brasileiras de classe mundial. “As organizações estão concluindo os processos de reestruturação iniciados após a abertura do mercado”, diz Davies. “Transformar-se em companhias de classe mundial será uma etapa posterior.” Há um outro fator que contribui para esse estado de coisas: as empresas brasileiras tratam, atualmente, de conquistar (ou reconquistar) espaços no mercado nacional. A expansão global ainda está por vir. As afirmações do The Boston Consulting Group são confirmadas pela concorrente McKinsey. Há alguns meses, a maior consultoria mundial na área de gestão iniciou um estudo sobre a competitividade da indústria brasileira. Os resultados preliminares não são nada animadores. Segundo a McKinsey, as empresas nacionais dos quatro setores analisados até agora (automóveis, aviação, telecomunicações e aço) vêm mostrando desempenhos de 50% a 70% inferiores aos atingidos pelos benchmarks internacionais.