Carta de EXAME | Choque de capitalismo

A economia brasileira vive uma revolução que mistura empreendedorismo, flexibilização de normas burocráticas e injeção de capital privado

Entrando no quarto mês de um governo tão confiante em sua capacidade que se pôs a criar alguns obstáculos contra si próprio, o país já não apresenta os mesmos níveis de otimismo do início do ano. Já não se projeta um índice animador para o crescimento do produto interno bruto, e a maioria dos analistas não mais acredita que a mera aprovação da reforma da Previdência vá destravar os caminhos do progresso.

E, no entanto, identifica-se na economia brasileira um choque de capitalismo. Não é um choque advindo de formulações de gabinete, incentivos à atividade ou decisões macroeconômicas. Ele vem de uma revolução que mistura um tanto de empreendedorismo, outro tanto de flexibilização de normas burocráticas mais um bocado de injeção de capital privado. É a invasão dos aplicativos de celular, uma febre que já permitiu que 45 milhões de brasileiros embolsassem algum dinheiro em 2018. Esse número inclui 5,5 milhões de cadastrados nos serviços de transporte de pessoas ou entrega de comida, os mais visíveis nas ruas das grandes cidades, mas vem se expandindo rapidamente para setores como cuidados para cachorros, manutenção de casa, aulas, hospedagem, cabeleireiros.

Um dos efeitos positivos dessa revolução é o avanço sobre o mundo da informalidade: no ano passado, 44.000 motoboys e 18.000 motoristas de aplicativos fizeram cadastro como pessoa jurídica, números 148% e 42%, respectivamente, acima dos de 2017. Mesmo os que se mantêm na informalidade conseguem, com os aplicativos, oportunidade de atender muito mais gente.

Se ajuda esses profissionais autônomos, a profusão de aplicativos favorece também os empreendedores. Nesse ambiente há empresas já gigantescas, como Uber, 99 e Aibnb, e várias em franco crescimento, como a prestadora de serviços GetNinjas, a Movile (dona do serviço de entregas iFood e da plataforma de conteúdo infantil PlayKids) ou a startup Loggi, que procura resolver problemas da logística de entregas. E vários empreendedores já estabelecidos têm aproveitado a onda, como os restaurantes que estão expandindo sua clientela com um serviço exclusivo para atender a pedidos via celular.

Essa revolução tem impactos óbvios no mercado de trabalho. Forma-se uma classe de trabalhadores que não são empregados tradicionais, porque têm liberdade para definir sua agenda, nem empreendedores típicos, porque dependem da estrutura e das condições definidas pela plataforma a que estão ligados. De certo modo, essa realidade antecipou a reforma trabalhista aprovada durante o governo de Michel Temer. Ainda há desafios, claro. Como evitar que um motorista se esfalfe de trabalhar até alcançar a verba que deseja?

Também há desafios de outra natureza: como evitar as consequências indesejadas de atividades não previstas nas regras da sociedade, entre elas o incômodo gerado aos vizinhos por alguém que decida ceder seu apartamento via aplicativo? São questões que, mais cedo ou mais tarde, os governos (especialmente o Legislativo) vão resolver. Por definição, as inovações surgem antes das regulamentações. O que não se deve perder de vista é que a sociedade já caminha na direção de uma economia mais dinâmica, menos travada, mais empreendedora.