Carta de EXAME: a megalomania virou um megadesperdício

É difícil entender o que leva um país como o Brasil, com tantos problemas ainda a enfrentar, a decidir que é hora de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas

Se nada mais fosse dito sobre o legado da Copa do Mundo e da Olimpíada do Rio de Janeiro, bastaria um único número para evidenciar o buraco em que nos metemos. As quatro arenas dos Jogos Olímpicos que ficaram sob a administração do governo federal trouxeram uma receita no ano passado de 1,3 milhão de reais. Sua manutenção, porém, custou 35 milhões de reais no mesmo período. Torramos quase 34 milhões em 12 meses, e nada faz crer que a história será diferente neste ano. É difícil entender o que leva um país como o Brasil, com tantos problemas ainda a enfrentar, a decidir que é hora de sediar os dois mais caros encontros esportivos do mundo. Pois o fato é que fizemos isso anos atrás. O custo da embriaguez em dose dupla começou a ser pago quando um substancial montante de dinheiro público deixou de ser investido em educação, saúde, saneamento, segurança, estradas e outras necessidades básicas para atender a exigências dos detentores dos direitos de montagem das competições. E o pagamento segue parceladamente, sabe-se lá até quando, na forma de prejuízos com a manutenção de estruturas que foram aproveitadas plenamente, às vezes, por apenas um mês e agora são subutilizadas ou estão completamente inúteis.

Qualquer análise minimamente acurada dos eventos chega a uma conclusão só: não há nenhuma justificativa racional para pleitear ser escolhido como país-sede — ainda mais no caso de nações emergentes. Como demonstra o economista americano Andrew Zimbalist, os Jogos são um mico: faria muito mais sentido escolher uma única cidade do mundo que passasse a ser a sede permanente dos torneios. Especialista em estudar as relações entre o mundo do esporte e a economia, Zimbalist chama a atenção para a onda de metrópoles dos países desenvolvidos que têm se esquivado de disputar o “privilégio” de  receber uma Copa ou uma Olimpíada. A recusa vem diretamente dos cidadãos, cada vez mais informados e conscientes do mau negócio que seria para sua cidade e país.

Além das arenas olímpicas do Rio, os estádios em capitais como  Manaus, Cuiabá e Natal são provas monumentais de que os moradores de Munique e Boston, duas das cidades que recentemente se opuseram a abrigar os grandes eventos, estão certos. Manauaras, cuiabanos e natalenses não foram previamente consultados sobre a conveniência de abrigar localmente a Copa. Hoje, depois de comprovada a inutilidade dos elefantes brancos e, pior que isso, revelada a bandalheira que envolveu sua construção, é possível que muitos brasileiros já tenham formado uma opinião de que foram lesados. As arenas viraram símbolos de um Brasil de ilusão. Em alguns casos, cálculos mostram que agora sua demolição seria a solução mais barata.

A megalomania virou o que já se previa: um megadesperdício. Seria bom se a experiência pelo menos servisse para melhorar nossas próximas escolhas.

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