Capitalização é o caminho para a recuperação da Eletrobras

Presidente da Eletrobras está confiante na capitalização da empresa, e defende que o governo deixe de ser o controlador da companhia

O presidente da Elebrobras, Wilson ferreira Júnior, foi o único líder de uma estatal mantido pelo governo de Jair Bolsonaro. Sua missão agora é abrir o caminho para a atração de novos sócios privados na companhia de energia por meio de uma capitalização no mercado de capitais. Por isso mesmo, Ferreira não usa o termo “privatização”, mas diz que o governo poderá deixar de ser o controlador da empresa, mantendo uma fatia expressiva de seu capital.

Desde julho de 2016 no cargo, o executivo é responsável por comandar a recuperação da Eletrobras, que sofria com investigações da Operação Lava-Jato, prejuízos nas distribuidoras de energia e até ameaças de ser retirada da Bolsa de Valores de Nova York. De lá para cá, o valor de mercado da empresa subiu de 18,3 bilhões de reais para cerca de 42 bilhões. Para chegar a esses números, a Eletrobras vendeu subsidiárias na área de distribuição e participações em empresas de geração eólica e de transmissão. Também foram feitos cortes profundos: cerca de 44% dos empregados da estatal, mais de 11.000 pessoas, foram demitidos. Em sua primeira entrevista depois de ser confirmado no cargo, Ferreira defende que a capitalização vai restaurar a capacidade de investimento da estatal e a retomada das obras da usina nuclear de Angra 3. Confira, a seguir, a entrevista.

A Eletrobras será privatizada no governo Bolsonaro?

O almirante Bento Albuquerque Júnior, novo ministro de Minas e Energia, teve a compreensão da importância da capitalização da empresa. No próprio discurso de posse, ele ressaltou que era necessária a distribuição de energia a um preço justo. Também comentou que interessava a capitalização da Eletrobras para retomar sua capacidade de investimento.

Como essa capitalização vai ocorrer?

Em princípio, estamos falando de uma capitalização via mercado. Dessa maneira, nos beneficiaremos da valorização das ações nos últimos dois anos. A Eletrobras valia em junho de 2016 algo na casa dos 18 bilhões de reais. Agora, o valor está em torno de 42 bilhões de reais. Isso reflete as melhoras operacionais e de governança da companhia. As distribuidoras foram vendidas, assim como diversas sociedades de propósito específico. Também houve redução de pessoal e de outras despesas. Hoje, a situação é bem melhor.

Como foram as conversas para o senhor continuar no comando da Eletrobras?

O novo governo enxergou em mim uma forma de contribuir para o trabalho de recuperação da empresa, até mesmo pela continuidade do trabalho que vinha sendo feito. Tivemos a primeira conversa na semana passada. Ao longo das próximas semanas conseguiremos dar mais forma à proposta de capitalização.

O novo governo já fez declarações contra a participação da China nas privatizações e nas concessões. Nos últimos anos, os chineses foram

investidores importantes no setor de energia. Isso pode ser um problema para a Eletrobras?

Nossa proposta foi sempre a criação de uma corporação, com o capital pulverizado. Não se trata de um processo de venda para uma companhia estrangeira. Queremos fazer o que é feito pelas maiores e melhores empresas do mundo, como a italiana Enel e a portuguesa EDP. O governo pode ter — e terá — uma participação importante, além dos poderes da golden share [classe de ações em estatais que dá direitos especiais de caráter estratégico aos governos]. Além disso, não haverá investidores com concentração de participação. No máximo, um investidor deverá ter 10% das ações da companhia. Os investidores para esse tipo de operação devem ser os institucionais, como os fundos de pensão e os especializados em países emergentes.

Qual seria o percentual de participação razoável para o governo na Eletrobras?

Isso vai depender muito do processo de capitalização. Depende de quanto ingressar de recursos na companhia. O ideal é que fique abaixo dos 50%.

Quanto a capitalização pode aumentar a capacidade de investimento?

Esse processo de capitalização permitirá à empresa ter uma capacidade de investimento muito maior do que tem hoje. Antes da minha chegada, o plano de investimento de cinco anos era de 50 bilhões de reais. O que está em curso desde o ano passado prevê um investimento de 19,7 bilhões entre 2018 e 2022. Não é a nossa vontade, mas é a realidade.

E qual seria o patamar ideal de investimento?

A Eletrobras tem hoje 31% da geração e 48% da transmissão em todo o país. Precisaríamos, então, estar investindo entre 10 bilhões e 14 bilhões de reais por ano. O problema é que a empresa não tem caixa para mais do que 4 bilhões de reais por ano. O governo, que é o controlador, também não tem capacidade de aportar recursos. Quando o governo Bolsonaro assumiu, expliquei essa situação. A partir da capitalização e entregando as obras que estão paralisadas, em menos de dois anos é possível retomar a capacidade de investimento da companhia.

O senhor está otimista que a privatização ocorra ainda em 2019?

Estou, sim. O governo precisará focar o conjunto de reformas que assumiu publicamente. E há um espaço grande de crescimento da infraestrutura. Existem obras em energia, rodovias, ferrovias, portos e afins. Isso demanda investimento, que cria emprego. Exemplos como o da Eletrobras vão trazer investimentos e dinamizar nossa economia. O que falta é a capacidade de atrair capitais. Precisamos aproveitar essa percepção de confiança, que está nítida nos indicadores do mercado do país.

Qual é sua avaliação das privatizações das distribuidoras?

Do ponto de vista contábil, congelamos todas as perdas, que chegavam a 4 bilhões de reais em 2017. Além disso, não oferecíamos um bom serviço. Todos perdiam: o acionista, a empresa e o consumidor. Gosto do exemplo da Cepisa, no Piauí, privatizada em julho de 2018, que seis meses depois já tinha uma redução de tarifa de 8,5%. Como parte do processo de venda, houve uma capitalização de todas essas companhias e serão investidos 2,5 bilhões de reais nas operações.

As obras da usina nuclear Angra 3 serão retomadas?

A intenção é essa. Se a usina estivesse funcionando, a tarifa de todos os consumidores seria 1,5% mais barata. Angra 3 é estratégica e já tem 63% das obras concluídas. A usina ficará pronta em cinco anos e custará 14 bilhões de reais. Com isso, o sistema elétrico de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, que é o mais complexo que temos no Brasil, ficará mais estável.