Caminho de Joaquim Levy é uma corrida de obstáculos

O ministro Levy parece ter um plano para tirar a economia da situação atual. Mas não se sabe se o governo quer as mesmas coisas que Levy

São Paulo – O ministro da fazenda, Joaquim Levy, deveria saber o que estava fazendo quando aceitou, no fim do ano passado, o cargo que ocupa hoje. Possivelmente, aliás, ele é o único que sabe.

Espera-se, com grande fé, que Levy tenha tido bons motivos para assumir a função de gerente de abismos que lhe foi entregue — haveria, nesse caso, alguma perspectiva racional de redução no volume de aberrações econômicas nas quais o Brasil de hoje está enfiado até o talo.

A distância, para os mortais comuns, é um perfeito mistério o que o ministro poderia fazer de concreto diante da retirada em desordem, com pouca munição, morro acima e debaixo de fogo inimigo, que o governo provocou na economia deste país — após quatro anos de laborioso empenho em aproveitar todas as oportunidades que teve para tomar decisões erradas.

Será que Levy está sabendo alguma coisa que ninguém mais sabe? Tomara. Caso contrário, a vida econômica nacional continuará em sua presente situação de desmanche, visível quando se constata que praticamente não passa um único dia sem o registro de que isso ou aquilo chegou “ao pior ponto desde” tal ou qual data — dívida pública, dívida privada, dívida externa, dívida interna, inflação, nível de emprego, taxa de juro. Basicamente, sobe tudo o que deveria descer; desce tudo o que deveria subir.

Para sair dessa situação patológica é necessário, tanto quanto se saiba, um programa coerente de ação e a vontade real de fazer mudanças. Existe o plano? Parece que sim, mesmo porque não é necessário ser nenhum prêmio Nobel de Economia para identificar os pontos de demência que 12 anos de governo irresponsável criaram no sistema econômico do Brasil.

Existe a vontade de mudanças? Aí já se entra no mistério apontado acima. Levy pode querer uma porção de coisas, mas ninguém sabe até agora se elas são as mesmas que o governo quer.

Mais: existe na vida real, neste preciso momento, um Congresso Nacional cada vez mais hostil à presidente da República e a seu partido — e que tem demonstrado a clara vontade de dizer “não” a tudo que vem do Ministério da Fazenda e do Palácio do Planalto. A estratégia do governo realizou o prodígio de colocar praticamente na oposição (e com muito mais força do que a oposição tinha até agora) o grosso do PMDB, justamente o partido que lhe garantiu durante anos a fio a maioria parlamentar.

A presidente precisa, agora, montar de novo o que desmontou — e essa é uma tarefa que tem prazo desconhecido e resultado incerto. Pode ser que consiga, mas se conseguir não será igual aos bons tempos, quando os presidentes e as lideranças de Senado e Câmara viviam em feliz matrimônio com a Presidência da República.

É pouco provável que eles se contentem com um empreguinho na diretoria dos portos, outro na diretoria de aeroportos, e assim por diante; vão querer mais, e mesmo assim não estarão dispostos a aprovar cegamente qualquer coisa que o governo lhes mande. É a conhecida situação daquelas lutas de boxe amador em que um dos competidores não sabe nada de boxe, e o outro não tem nada de amador. Acabam sempre do mesmo jeito.

Somando-se 2 mais 2, o que se tem, em resumo, é um ministro da Fazenda que boa parte do partido oficial quer detonar, pois acha errado tudo o que ele acha certo; ao mesmo tempo, leva chumbo da oposição reforçada que o governo criou.

É possível que ele acabe vencendo pela paciência ou pela constatação de que não há um mínimo de lógica em nenhum plano “B” — quem iria para seu lugar, e o que poderia fazer de útil? Enquanto isso, o dólar ronda os 3 reais, um aumento de 12,5% em apenas dois meses — o equivalente a uma máxi.

Não é o dólar que está forte; é o governo que está fraco. Não há corte de despesas — há apenas a suspensão do pagamento de despesas já feitas. Não há “reavaliação” do PAC — há, simplesmente, obras paradas. Não há recomposição de receitas para enfrentar o déficit nas contas públicas — há, isso sim, queda na arrecadação. Vida dura para o ministro Levy, sem dúvida. E, para nós outros, um preço muito alto a pagar.