Cada vez mais executivos dão adeus ao crachá antes dos 50

Após anos de bônus generosos e em busca de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, executivos partem para uma segunda carreira antes dos 50 anos

São Paulo — A costumado a frequentes idas e vindas em aeroportos, o paulistano Alessandro Carlucci se preparou para uma viagem diferente no início de agosto. Ao partir de São Paulo rumo a Nova York, ele não tinha a passagem de volta marcada para as horas seguintes, ao contrário do que aconteceu inúmeras vezes em seus compromissos de trabalho.

Como sempre, ele levou uma pilha de cartões de visita. Dessa vez, porém, não tinham a identificação de nenhuma empresa. Acompanhado de sua mulher e de seus dois filhos, Carlucci embarcou numa transição desenhada nos 12 meses anteriores.

Além de mudar para outro país, ele partiu para uma nova rotina, bem diferente da que teve como presidente da fabricante de cosméticos Natura por quase uma década, até agosto de 2014. Uma prioridade na nova fase, segundo ele, é manter uma boa proporção de horas livres na agenda.

Aos 49 anos, Carlucci assumiu neste ano dois novos compromissos seguindo essa premissa. Um deles é a presidência do conselho de administração da Business for Social Responsibility (BSR), organização com sede em Nova York que reúne mais de 250 empresas interessadas em discutir temas relacionados à sustentabilidade, como Xerox e Walmart.

Além disso, assumiu uma cadeira no conselho da varejista de moda Renner, em Porto Alegre. “Não tenho a intenção de ter outra posição executiva”, afirma Carlucci. “Quero ser dono do meu tempo de novo.” Abandonar a carreira corporativa e reduzir o ritmo de trabalho faz parte de um roteiro comum para executivos com mais de 60 anos.

Em boa parte das empresas, a idade estipulada para aposentadoria compulsória está acima desse patamar. Uma confluência inédita de fatores, no entanto, começa a favorecer esse tipo de movimento antes dos 50 anos. Um desses aspectos é um ambiente corporativo cada vez mais abrasivo.

Os altos executivos brasileiros passam, em média, 14 horas no escritório, 1 hora a mais do que há uma década. Segundo um levantamento da consultora Betania Tanure com mais de 1.000 executivos entre as 500 maiores empresas brasileiras, fins de semana livres e férias de 30 dias viraram raridade no topo das companhias.

A pressão por resultados cresceu no mesmo ritmo. O ciclo de permanência dos executivos vem caindo — uma das razões é a necessidade de mudanças em momentos de crise como o atual. Em 2014, 11% dos presidentes foram trocados. Neste ano, a média subiu para 17%. 

Outro fator é financeiro: hoje, presidentes e diretores de grandes empresas no Brasil podem se dar ao luxo de mudar o estilo de vida. Passado um período de bonança econômica, eles receberam uma soma sem precedentes de dinheiro — considerando salários e incentivos.

Uma estimativa da consultoria de recursos humanos Hay Group mostra que o presidente de uma empresa com vendas acima de 1 bilhão de dólares por ano acumulou a soma de 49 milhões de reais apenas entre bônus de curto e longo prazo na última década. No início dos anos 2000, cerca de 20% ofereciam algum tipo de incentivo de longo prazo — um percentual que subiu para 60% hoje.

Por fim, há mais alternativas de carreira para profissionais experientes em conselhos de administração — e mesmo oportunidades para investir em pequenas empresas. “Vemos um interesse cada vez maior de profissionais que querem continuar ativos, sem sobrecarregar a agenda”, diz Luiz Giolo, diretor-geral da consultoria de contratação de altos executivos Egon Zehnder no Brasil.

Dilema

Embora pareça uma transição cheia de vantagens, nem sempre é indolor. Perder o sobrenome corporativo pode signi­ficar deixar para trás boa parte do status que o acompanha. O paulista Alexandre Hohagen, ex-vice-presidente do Facebook para a América Latina, viu-se diante do dilema no começo de 2014.

“Minha carreira estava no auge. Comandava 400 pessoas na operação regional da companhia que mais cresceu nos últimos anos”, afirma Hohagen, que em 2011 ajudou a montar o escritório do Facebook em São Paulo. Antes disso, comandou o Google na América Latina. “O nível de energia que as corporações exigem é enorme e por muito tempo isso fez sentido para mim”, diz.

Segundo ele, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, porém, começou a se tornar insustentável. Com três filhas, Hohagen perdeu todas as festas de aniversário da caçula, de 9 anos, desde 2009. A razão: a data coincide com o festival de publicidade realizado todo mês de junho em Cannes, na França.

Em outros momentos do ano, ele também estava mais fora do que dentro de casa. “Eu viajava 70% do meu tempo”, diz. Ele conta que a decisão de mudar de vida ficou mais fácil quando percebeu que poderia ter satisfação e aplicar seu conhecimento em outras atividades e ainda ganhar flexibilidade na agenda.

Em abril de 2012, começou a investir em startups como a MarketUp, que vende softwares de gestão para pequenas e médias empresas. Dois anos mais tarde havia assumido um assento no conselho de administração do grupo de ensino Estácio. Em março deste ano, deixou oficialmente o cargo — mas continuou a morar em Miami, onde trabalha desde 2013.

Segundo Clayton Christensen, professor da Universidade Harvard e um dos maiores especialistas em planejamento estratégico do mundo, em geral executivos bem-sucedidos não planejam tão bem a vida pessoal como fazem com a carreira e as empresas que administram.

Há uma razão para isso — o risco de perda e a possibilidade de recompensa na empresa sempre parecerão mais emergenciais do que nas questões pessoais. E assim acabam sugando mais energia do que outros aspectos da vida. “Após décadas, muitos percebem que deixaram de cultivar relacionamentos cruciais para sua felicidade”, escreveu Christensen no livro Como Avaliar Sua Vida?

Para Carlucci, um exercício realizado num grupo de discussão de executivos, em que a regra de ouro é o sigilo absoluto, ajudou a tornar essa reflexão concreta. Durante alguns minutos, os participantes discutiram o que seria um dia perfeito para cada um. “Ficou evidente que muitos tinham uma vida bem diferente da que idealizavam e não tinham um plano para se aproximar dela”, diz.

A reflexão pessoal do executivo coincidiu com um momento particularmente difícil para a Natura, às voltas com esforços para recuperar a participação no mercado e, portanto, aberta à troca de guarda. Em agosto de 2013, Carlucci começou a montar um cronograma para sua saída com os três fundadores da companhia, numa transição que levou 12 meses.

Depois de entregar o bastão a Roberto Lima, ele passou a se dedicar a uma agenda pessoal. No começo deste ano, ficou uma semana atrás de uma vaga na escola para o filho caçula em Nova York, por exemplo. “Foi a primeira vez que participei da vida escolar do meu filho”, diz.

É comum que executivos mencionem a necessidade de se sujeitar a uma “desintoxicação” quando decidem mudar de vida. Carlucci passou 45 dias em Nova York, com toda a família, para experimentar a vida na cidade antes da mudança definitiva. Hohagen ficou dois meses viajando pela Europa com a mulher e as três filhas.

Para conseguir se desconectar, pediu à mulher que colocasse uma senha que só ela soubesse para bloquear seu celular. Andréa Mota, ex-diretora executiva de O Boticário, teve uma experiência mais radical. Numa manhã de janeiro de 2014, durante as férias, ela não conseguiu levantar da cama. “Pensei que estivesse sofrendo um AVC”, afirma Andréa, que trabalhou 18 anos na empresa de cosméticos.

Mais tarde, o diagnóstico apontou que se tratava de uma crise de burnout. A recomendação médica foi taxativa: desacelerar. Durante os meses seguintes, ela reuniu a equipe e avisou que tiraria as primeiras horas do dia — das 6 às 10 da manhã — para se dedicar a atividades pessoais. A reflexão ao longo daquele ano a levou, porém, à decisão de mudar de vez.

Ela acabara de alcançar metas estabelecidas em 2008 e que, pelo planejamento, só seriam atingidas em 2018. Antes de encarar mais um exaustivo processo de planejamento estratégico para os dez anos seguintes, ela avisou ao chefe, Artur Grynbaum, presidente do grupo, a intenção de sair em janeiro.

“Voltei para casa e passei dois dias destruída”, diz Andréa, que viajou durante o mês de fevereiro com o marido e o casal de filhos gêmeos, de 9 anos. O primeiro passo de sua nova carreira foi há poucos dias. Aos 46 anos, ela acaba de se tornar uma das conselheiras de administração da varejista de moda Hering.

Para esses executivos, perseguir uma segunda carreira mais cedo garante mais energia para construir um novo caminho. “Vi diversos executivos se aposentar depois dos 60 anos, sem energia ou sem um bom planejamento para se dedicar a outras atividades”, afirma Carlos Miranda, que até 2010 foi sócio da Ernst&Young, onde trabalhou durante 21 anos.

“No meu caso, não quis perder o timing da empolgação.” Aos 53 anos, ele comanda o próprio fundo de investimento, o BR Opportunities, e investe em empresas como a de comércio eletrônico Flores Online. Andréa diz ter estabelecido 30 metas desde que começou o novo ciclo de vida — por enquanto, cumpriu apenas metade delas. “Fechei uma porta”, diz a executiva. “Mas abri várias outras.”