Briga e confusão entre Insper e Ibmec por causa de São Paulo

Executivos demitidos, sócios em polvorosa, um bilionário sob pressão — por que a possível competição entre Insper e Ibmec no mercado paulista está causando tanta confusão?

São Paulo – Reuniões entre altos executivos e os donos das companhias são tensas por natureza. Costumam envolver decisões estratégicas e, como há muito dinheiro em jogo, é esperado que o clima esquente de quando em quando. Mas o que aconteceu com os executivos da rede de ensino Ibmec no dia 21 de junho é um caso à parte.

Um mês antes, o presidente da instituição, VanDyck Silveira, havia feito uma proposta de 280 milhões de reais para comprar o Ibmec. Enfurecido pelo que consi­derou um ato de traição, Claudio ­Had­dad, maior acionista do Ibmec, pediu uma proposta de pelo menos meio bilhão de reais.

Silveira e seu diretor financeiro, Felipe Negrão, passaram as quatro semanas seguintes levantando dinheiro com seus sócios na empreitada, o fundo brasileiro TMG e o conglomerado alemão Bertelsmann. Chegaram a uma proposta de 380 milhões de reais, entregue a Haddad num envelope.

A resposta seria dada no dia 21. A dupla entrou na reunião decisiva certa de que sairia dona do negócio. Deu tudo errado. Após 1 hora de discussão e dedo na cara, Haddad rejeitou a oferta e demitiu os executivos. 

O episódio escancara um dilema. ­Haddad é o principal acionista do ­Ibmec, com 40% das ações. Mas também é o único dono de outra escola, o Insper, instituição sem fins lucrativos sediada em São Paulo. As duas atuam no mesmo nicho de mercado — graduação e pós-graduação em administração e economia — e cobram mensalidades parecidas, na casa dos 2 000 reais.

Para evitar um conflito de interesses, Haddad definiu que o Ibmec não poderia entrar em São Paulo até 2016. Criou-se uma barreira geográfica. O Ibmec atua no Rio de Janeiro, em Brasília e em Belo Horizonte. E o Insper fica em São Paulo. O problema é que 2016 está chegando.

Conflito de interesses

Se Haddad fosse o único acionista das duas escolas, não haveria problema algum. Ele faria o que quisesse, e pronto. Mas o empresário só tem 40% das ações do Ibmec. O resto pertence a acionistas minoritários, como o fundo americano Capital Group, dono de 30% das ações, professores e executivos.

Para os minoritários, ficar fora de São Paulo, o mais importante mercado de educação executiva do país, é uma loucura do ponto de vista econômico. E acusam Haddad de não fazer movimentação alguma para mudar esse quadro. No mercado de educação, algumas decisões importantes, como o pedido de registro de novos cursos, levam quase dois anos para sair.


E o Ibmec ainda não tem um plano definido para a capital paulista. Os executivos demitidos estavam pesquisando um terreno na cidade, mas desde que saíram a instituição congelou o projeto. 

O Ibmec vive um bom momento. Em 2010, teve um prejuízo de 11 milhões de reais. No ano passado, lucrou 16 milhões de reais. Para este ano, a meta é chegar a 30 milhões. Ajudou a inauguração de um novo campus na Barra da Tijuca, que fez o número de vagas no Rio de Janeiro aumentar 57% neste ano. Nessa unidade, a empresa oferece cursos inéditos, como jornalismo e publicidade.

Executivos próximos à companhia dizem que a meta agressiva de aumento do lucro tem como objetivo elevar o valor de mercado para uma negociação de venda. “Os boatos não param, mas não existe a intenção de vender o Ibmec”, diz João Arinos, que assumiu a presidência após a saída de VanDyck Silveira. Procurado, Claudio Haddad não concedeu entrevista.

A situação se torna ainda mais confusa porque muita gente ainda vê as duas escolas como uma coisa só. O Ibmec foi criado nos anos 70 para fazer estudos para o mercado financeiro — daí o nome Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais. Durante duas décadas, foi financiado por 30 bancos e corretoras e também por órgãos como o Ministério da Fazenda e o BNDES.

Até que, em 1999, Haddad, ex-presidente do banco Garantia, e Paulo Guedes, ex-sócio do Pactual, fizeram uma oferta de 3 milhões de dólares para comprar a empresa. Haddad ficou com a recém-criada unidade de São Paulo. E começou a administrar a escola inspirado no modelo de Harvard, do sistema de financiamento com base em doações à arquitetura das salas de aula.

Guedes tinha um plano mais ambicioso, de criar novas unidades pelo país. Logo ficou claro que as duas visões eram incompatíveis. Em 2003, Haddad fez uma oferta a Guedes para separar a escola paulistana e transformá-la em uma instituição sem fins lucrativos. Guedes recusou, mas depois aceitou vender suas ações a Haddad.

Na sequência, ele de fato transformou a unidade paulistana numa fundação e estabeleceu a cláusula de não competição. Em 2009, mudou o nome da escola paulista para Insper. O dilema de ­Haddad é: trazer para São Paulo um concorrente que tem até hoje seu nome associado ao Insper? Ou perder a chance de crescer no maior mercado do ­país e enfurecer seus minoritários?

O dilema é tão complexo que talvez a única solução para ele seja mesmo vender a empresa. Num mercado efervescente como o de educação, não seria difícil atrair interessados. Com um faturamento de 180 milhões de reais em 2012, o Ibmec é muito menor do que as líderes do mercado brasileiro, e seu modelo de negócios, com mensalidades que podem chegar a 3 000 reais, limita a área de atuação às grandes capitais do país.


Mas a escola é tida por analistas e por investidores como uma excelente opção para os grupos educacionais reforçarem sua preocupação com a qualidade. A empresa de educação superior Anima Educação, que levantou 460 milhões de reais na abertura do capital neste ano, selecionou o Ibmec como uma oportunidade de aquisição.

O Ibmec também seria uma oportunidade de a rede de ensino Estácio reduzir a distância em relação à líder Kroton — Chaim Zaher, fundador da Uniseb e hoje maior acionista individual da Estácio, já se interessou em comprar o Ibmec em 2003 e em 2007. A grande dúvida é se esses potenciais compradores estariam dispostos a bancar os 500 milhões de reais pedidos por Haddad.

Minoritários afirmaram a EXAME que, se tivessem sido ouvidos, teriam recomendado a Haddad que aceitasse a oferta de 380 milhões. “Não virá proposta melhor do que essa”, diz um dos sócios do Ibmec. 

Embora tenha batido o pé em 500 milhões de reais, Haddad não está exatamente precisando de dinheiro. Após concluir um doutorado na Universidade de Chicago, em 1979, ele entrou para o extinto banco Garantia — fundado por Jorge Paulo Lemann — e chegou à presidência da instituição. Nessa época, comprou um pacote de ações na cervejaria Brahma que atualmente vale, segundo estimativas, 1 bilhão de reais em ações da AB Inbev. 

Desde junho, o grupo de 18 minoritários passou a ter uma cadeira no conselho de administração. Alunos e ex-alunos já se manifestaram dizendo que não aceitam qualquer comprador. Nos últimos meses, eles organizaram um abaixo-assinado revelando a preocupação de que a empresa seja vendida a grupos de educação de massa. A confusão não vai acabar tão cedo.