Shiller se mostra otimista em plena crise

Para o professor de Yale Robert Shiller, autor do célebre livro Exuberância Irracional, os países emergentes vão mesmo sustentar a economia mundial

Os livros de maior repercusão do economista americano Robert Shiller, professor da Universidade Yale e um dos maiores estudiosos de bolhas especulativas, não costumam trazer visões alentadoras sobre a economia mundial.

Em Exuberância Irracional, publicado em março de 2000, ele descreve os excessos da bolsa americana na década de 90 – e antecipa a derrocada das ações das empresas de tecnologia que aconteceria meses depois.

Em Solução para o Subprime, escrito pouco antes da quebra do banco americano Lehman Brothers em setembro de 2008, Shiller fala da necessidade de reestruturação do sistema financeiro dos Estados Unidos para evitar um colapso econômico. Por isso, surpreende quando, em plena crise, ele se mostra otimista.

Shiller acredita que o forte crescimento dos países emergentes garantirá a expansão mundial nos próximos anos. Colunista do jornal The New York Times, o professor diz que o modelo de desenvolvimento brasileiro tem funcionado. De seu escritório em Yale, o autor de O Espírito Animal, escrito junto com o Nobel de Economia George Akerlof, deu a seguinte entrevista a EXAME.

EXAME – Existe uma grande euforia em relação aos países emergentes por parte de empresários e investidores de diferentes países – o Brasil está no centro desse movimento. Há exagero nisso?

Robert Shiller – De forma geral, não. O crescimento dos emergentes tem sido tão excepcional que é capaz de sustentar a expansão da economia mundial nos próximos anos, mesmo se tivermos um “duplo mergulho” da Europa e dos Estados Unidos, o que parece provável. Uma nova queda da economia europeia e da americana não está descartada. Estou otimista com as economias emergentes. Vejo exageros apenas em algumas situações.

EXAME – Quais?

Robert Shiller – O mercado imobiliário da China, por exemplo, tem características de bolha. Estive lá em dezembro e, falando com as pessoas sobre imóveis, percebi o mesmo tipo de ansiedade que vi nos Estados Unidos anos atrás: muita gente está correndo para comprar sua casa agora porque acha que os preços só vão subir. O lado positivo é que o governo tem agido para conter o problema.

EXAME – Há sinais de bolha imobiliária em outros emergentes, como o Brasil?

Robert Shiller – Não vejo isso, mas é preciso ficar atento. Os mercados imobiliários são vulneráveis a excessos, especialmente em cidades onde há glamour e a imaginação das pessoas pode voar. É o caso de Los Angeles, Nova York – e, no Brasil, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Geralmente, o boom imobiliário segue a forte valorização das bolsas, e vemos isso em muitos países emergentes.


EXAME – A expansão de emergentes se sustenta no longo prazo, quando os Estados Unidos e a Europa se recuperarem?

Robert Shiller – Claro. O mundo está se transformando, a economia global está ficando mais coesa graças às novas tecnologias. Importa cada vez menos em qual país uma empresa ou um indivíduo está, e isso cria oportunidades para os emergentes. O problema é quando os governos estragam tudo. O Zimbábue, por exemplo, vai mal. Mas, se o Estado apoia o ambiente de negócios, como é o caso do Brasil, o espaço para o desenvolvimento é enorme. Veja o caso da Coreia, que há 50 anos era muito pobre. O país emergiu no campo técnico e hoje tem empresas como a Samsung.

EXAME – No Brasil, as taxas de investimento são baixas, a carga tributária é alta. Isso não inibe os negócios?

Robert Shiller – Quando estive no Brasil, há três anos, me deram o livro O Brasil Não É para Amadores (de Belmiro Castor). Também ouvi muito sobre o “jeitinho brasileiro”. Entendi que as coisas são feitas de forma diferente no país, mas o modelo tem funcionado. Um exemplo de sucesso é a fabricação de aviões. O governo brasileiro, apesar dos problemas, está em sintonia com a economia mundial, e o crescimento do país é de dar inveja. Os números do FMI mostram que, grosso modo, a expansão mundial teve uma queda de 2 pontos percentuais em razão da crise de 2008. Mas países como o Brasil têm sido capazes de crescer bem acima da média global. Isso deve continuar.

EXAME – Em seu último livro, O Espírito Animal, o senhor fala da influência da psicologia nas decisões econômicas. A crise deixou investidores, empresários e consumidores com medo. Isso pode atrasar a recuperação?

Robert Shiller – Com certeza. O pânico generalizado que se instalou depois da quebra do Lehman Brothers passou, mas ainda me preocupo com a depressão que se vê entre empresários e investidores nos países desenvolvidos. As aflições persistem, e o pessimismo desmedido é um freio para os negócios. Há uma estatística nos Estados Unidos que mostra bem isso: o desemprego de longo prazo, que contabiliza as pessoas que estão fora do mercado de trabalho por seis meses, atingiu um nível recorde e continua subindo. Ou seja, muitas empresas contratam, mas não de forma permanente. Se esses empresários olhassem para a demanda, veriam que precisam de mão de obra permanente. Mas, no fundo, estão travados pelas preocupações. Os empréstimos bancários também não estão fluindo normalmente – e, assim, os negócios não evoluem.


EXAME – Como superar isso?

Robert Shiller – Acredito que serão necessários mais estímulos dos governos e também novas regras para o sistema financeiro. A regulação bancária proposta recentemente pelo Congresso, que ainda precisa ser aprovada, pode ser vista como o começo de um processo positivo, mas a verdade é que não se sabe quais serão os resultados dessas mudanças. Embarcamos no maior período de transformações desde a Grande Depressão. Será que, quando as reformas forem concluídas, o país ainda será essencialmente capitalista?

EXAME – Será?

Robert Shiller – Acho que será capitalista. Talvez menos do que já foi antes, porque os governos estão mais envolvidos – mas é importante perceber que não há inconsistência nisso. Não acho que tenhamos de abandonar as soluções de mercado ou a destruição criativa que permite que novos negócios surjam quando outros vão à falência. Esse modelo é um marco importante de nossa época. Só que o capitalismo não funciona bem sem regulação, e agora estamos passando por um período de aprimoramento das regras, o que é positivo. Se há um lado inspirador nesta crise, é o de termos aprendido mais sobre como dirigir uma economia.

EXAME – Isso é suficiente para evitar um novo colapso econômico?

Robert Shiller – É cedo para saber. O fato é que as flutuações econômicas são um problema do capitalismo. Pode parecer que sou um otimista ingênuo, mas acho que sabemos mais o que fazer caso haja problemas no futuro.

EXAME – A crise europeia pode ser mais grave que a americana?

Robert Shiller – Pode. Uma consequência da crise é a possível falência do euro, o que pode ter efeitos devastadores. Além da importância econômica, o euro tem uma grande relevância simbólica – representa um marco de cooperação entre os países e de superação da instabilidade que levou a duas grandes guerras mundiais. Se a moeda acabar, isso vai abalar ainda mais a confiança.

EXAME – Como se manter otimista num cenário como esse?

Robert Shiller – As pessoas me descrevem como um pessimista, mas não me vejo assim. Quando olho para as tendências de longo prazo, vejo que há razões para esperar desdobramentos positivos. Em muitos países emergentes, como Brasil e China, há uma clara noção de que o progresso econômico está ficando mais amplo. Mesmo quem ainda não colheu os frutos do crescimento, porque as desigualdades são grandes, acha que terá sua chance no futuro. É um estado interessante para uma economia.