A contraditória moda do esporte

Como o tênis virou um esporte fashionista — e, ao mesmo tempo, um dos mais opressores para as mulheres

No universo de possibilidades da moda esportiva, de onde parte a maioria das inovações de tecidos tecnológicos, o tênis é uma das modalidades com viés de estilo mais aflorado. Saias curtas, tops, listras, cintos coloridos e faixas de cabeça vêm e vão ao sabor das tendências — e não é de agora.

Nesse lado da quadra, a americana Serena Williams, de 37 anos, recordista em títulos de Grand Slam com 23 conquistas, é também uma campeã. Hoje a tenista mais próxima da indústria da moda, amiga de estilistas como Christopher Bailey, ex-Burberry, e Virgil Abloh — que criou para ela uma roupa de um ombro só combinada a um tutu de bailarina, usada no último Aberto dos Estados Unidos, em agosto —, Serena coleciona tanto looks quanto títulos.

Lavanda, vermelho, preto e, claro, branco estão na cartela cromática da tenista. Neste início de temporada, ela tem repetido o tutu preto de Abloh e usou um conjunto rosa de sua patrocinadora, a Nike, com uma tela vazada do tronco às coxas. Mais do que levar outro senso de moda à prática esportiva, suas escolhas parecem ser feitas para desafiar os padrões engessados dos campeonatos.

O controverso macacão que a Nike criou para Serena é apenas a ponta de lança de uma discussão sobre os códigos do esporte glamoroso, que encontra agora no Aberto da Austrália, iniciado em 14 de janeiro com duração até o dia 27, sua maior passarela. Concebido como um acessório terapêutico para melhorar a circulação da tenista prejudicada por problemas adquiridos no pós-parto, o conjunto, batizado de “roupa de Wakanda” em referência ao filme Pantera Negra, foi proibido pela Federação Francesa de Tênis por supostamente desrespeitar a cartilha de vestimentas do torneio.

Não é a primeira vez que isso acontece. No auge da luta feminina por igualdade de salários nas quadras em 1970, um grupo batizado Virginia Slims, formado por nove tenistas de ponta, entre elas Billie Jean King, Judy Dalton e Kristy Pigeon, contratou o estilista Ted Tinling para vestilas nos campeonatos. Entre os mais de 1.000 looks desenhados por ele, um short de renda colocado por baixo de uma saia curta escandalizou o mundo restritivo dos -Slams, que permitia até então apenas saias longas para elas. Wimbledon, na Inglaterra, já havia chiado com a ousadia na vestimenta em 1949, quando baniu a tesoura do estilista e passou a instituir uma política de punho de ferro no armário feminino.

A brasileira Maria Esther Bueno, no início dos anos 60  | Sydney O’Meara/Evening Standard/Getty Images
Ted Tinling: ousadia e quebra de padrões | Foto: Tony Duffy/Allsport/Getty Images

Nenhum circuito conseguiu, porém, fazer sombra à genialidade do designer, que chegou a criar um vestido de plástico para a paulistana Maria Esther Bueno, considerada a maior atleta brasileira da história, com 19 Grand Slams conquistados e algumas dezenas de looks de Tinling no currículo.

Avesso ao monocromatismo, Tinling instituiu cores, recortes transversais e comprimentos desconcertantes para a época. A bem da verdade, o feito do estilista foi ter transposto para o guarda-roupa das mulheres o que já acontecia no reservado aos homens do esporte.

O sueco Bjorn Borg, por exemplo, foi o maior fashionista do tênis quando passou a usar as combinações de listras vermelhas nos minishorts com blusas azuis criados pela marca italiana Fila, a primeira a se aventurar nas quadras com uma paleta de cores diversa e padrões de moda casuais. A relação da empresa com o atleta propiciou uma revolução no uniforme do tênis comparável ao lançamento da camiseta polo de René Lacoste em 1933.

Aí reside a contradição do esporte. A eles é permitida a evolução dos costumes. A elas, o conformismo e, em alguns casos, até mesmo punições.

No Aberto dos Estados Unidos em agosto do ano passado, a tenista francesa Alize Cornet foi advertida pelo juiz na volta do intervalo porque trocou na quadra a camisa que estava ao avesso.

O pedido de desculpas da Federação Americana de Tênis não diminuiu o mal-estar geral entre os críticos, que, com razão, lembraram ao mundo que torsos desnudados de Rafael Nadal e Novak Djokovic nunca sentiram o apito inquisidor de um juiz.