Boa colheita na Coamo

Com competência técnica e visão de mercado, a Coamo se consolida como a maior cooperativa da América Latina

A escolha da Cooperativa Agropecuária Mourãoense (Coamo), de Campo Mourão, no Paraná, como a melhor empresa do comércio da Região Sul, em 2002, não foi uma surpresa para seus 17 000 associados.

Eles já tinham sentido os reflexos do bom ano agrícola em suas contas bancárias, irrigadas por 50% do lucro líquido obtido no ano passado — cerca de 47 milhões de dólares para um faturamento de 870,9 milhões. Os outros 50% foram engordar fundos de fomento para atividades dos sócios.

Fundada em 1970 numa região de terras originalmente “fracas” para a agricultura, o centro-oeste do Paraná, a Coamo se orgulha de ter atravessado inúmeras crises sempre sem ter registrado prejuízo, uma façanha num setor marcado pelo desaparecimento de dezenas de cooperativas, algumas de grande porte. “Desde o princípio, nós nos preocupamos em operar em bases realistas, sem paternalismo, que envenena qualquer administração”, diz José Aroldo Gallassini, presidente da Coamo há 28 anos.

Formado em agronomia, o catarinense Gallassini chegou a Campo Mourão em 1968 para dar assistência técnica aos produtores rurais. A região saía do ciclo da madeira e ensaiava a exploração agrícola. Gallassini começou recomendando o plantio da dobradinha trigo-soja. Dois anos depois, convencidos de que precisavam criar uma infra-estrutura de armazenagem para não ficar à mercê dos atravessadores do mercado de grãos, 79 agricultores fundaram a cooperativa, que lhes serviria de trincheira na busca por insumos baratos, crédito, assistência técnica e bons preços na comercialização.

Antes de colher as boas safras que colocaram Campo Mourão no mapa brasileiro da produção de algodão, trigo, milho e soja, os agricultores do centro-oeste do Paraná precisaram combater a erosão e corrigir solos que não tinham a fertilidade natural das famosas terras roxas das vizinhas Maringá e Londrina. “Nosso rendimento evoluiu de 70 sacas de soja por alqueire para 191 sacas”, diz Gallassini.

A cooperativa iniciou seu processo de verticalização no começo da década de 80, quando muitas cooperativas brasileiras não resistiram à recessão. Sua primeira agroindústria foi uma unidade de beneficiamento de soja implantada em 1983. Atualmente a Coamo é dona de sete indústrias — duas moageiras de soja, uma refinadora de óleo, um moinho de trigo, uma fiação de algodão, uma fábrica de margarina e outra de gordura vegetal hidrogenada.


Presente em 47 municípios, ela recebe 3,3% da produção nacional de grãos em seus 77 armazéns no interior do Paraná e de Santa Catarina, com capacidade para estocar 2,9 milhões de toneladas, pouco menos do que a produção de seus associados, estimada em 3,3 milhões de toneladas.

Além das bases agrícola e industrial, a Coamo tem um braço comercial que lhe permitiu faturar no ano passado mais de 315 milhões de dólares com a exportação de derivados da soja, contribuindo para o crescimento de 24,5% na receita.

A Coamo não exporta apenas o que seus cooperados produzem, mas também o que o mercado lhe confia. Dona de um terminal de exportação em Paranaguá, abriu um escritório internacional no Caribe para negociar nas bolsas de commodities agrícolas. No mercado interno, a cooperativa faturou 65 milhões de dólares em 2002 com a venda de uma dezena de alimentos que levam sua marca.

Com essa infra-estrutura, reforçada por uma fazenda experimental, uma frota de 250 carretas e uma cooperativa de crédito, a Coamo vive seu melhor momento como a maior cooperativa singular da América Latina — a classificação é usada em contraponto à cooperativa central, que reúne várias cooperativas.

O complexo soja responde por 49% do movimento da Coamo. O milho vem atrás, com 14%. A venda de insumos representa 25%. O trigo ainda é responsável por 4,15%, mas o algodão, com apenas 1,41%, caiu irremediavelmente nos últimos anos. Na região de Campo Mourão, a topografia desfavorável à mecanização e o risco de chuvas na época da colheita esvaziaram sua cultura. Para abastecer a fiação, a Coamo compra atualmente matéria-prima em Mato Grosso.

A elevada participação da soja preocupa a Coamo, que procura oferecer negócios alternativos para os associados. Apostas na cafeicultura e na suinocultura resultaram em frustrações. Também não deu resultado a idéia de investir em silvicultura, vocação da região central do Paraná: há dois anos a cooperativa fechou seu viveiro de mudas de espécies florestais, mantido desde a década de 80. No momento, o departamento de assistência técnica da Coamo, formado por 146 agrônomos e veterinários, incentiva o investimento em pecuária em pastagens formadas temporariamente nas entressafras.

Essa alternativa, entretanto, é atraente apenas para os maiores proprietários, que constituem a menor parte do universo social da Coamo. A maioria (72%) dos 17 000 associados é constituída por pequenos proprietários, com sítios de até 25 hectares, áreas em geral insuficientes para lavouras comerciais, cujo ganho está na escala de produção. Como reflexo disso, tem havido uma intensa aglutinação de áreas, seguida pela migração de ex-sócios para a região dos cerrados, no Centro-Oeste.

Em conseqüência, na última década, a Coamo perdeu 16 000 associados. Foi uma perda em termos. Na realidade, a cooperativa teve uma economia relativa de custos, pois desobrigou-se do esforço estatutário de levar assistência aos menos eficientes, ganhando competitividade para enfrentar os cerealistas e as multinacionais, seus maiores concorrentes.