Bancos sob pressão

Espremidas pela falta de recursos e pela concorrência, as instituições de médio porte buscam saídas. As alternativas: mudar a estratégia ou procurar um sócio

São Paulo – “Às vezes, tenho pesadelos imaginando que estou à frente do banco. Quando acordo, fico aliviado de pensar que saí desse mercado”, diz o ex-vice-presidente de um banco de médio porte, uma categoria que engloba as instituições sem rede de agências e que atuam em nichos do sistema financeiro, como empréstimos consignados e crédito para a compra de veículos.

O ambiente de negócios para esse segmento — do qual fazem parte BicBanco, Cruzeiro do Sul, Cacique e Sofisa, entre outros — vem piorando desde o fim do ano passado. Hoje, esses bancos estão ensanduichados.

Com o agravamento da crise internacional e o estresse causado pela derrocada do PanAmericano, eles passaram a ter menos acesso a capital para financiar suas atividades, e os recursos disponíveis ficaram mais caros. A concorrência nunca foi tão acirrada, o que está provocando a redução dos juros de algumas linhas de crédito.

O efeito sobre os resultados é visível: a rentabilidade média das principais instituições de capital aberto caiu para 14% neste ano, 44% inferior à de 2007 e cerca de 30% menor que a dos bancões, segundo dados da consultoria Economática.

À venda

O cenário mais complicado está mudando a cara do setor. Com dificuldades, Matone e Schahin foram vendidos neste ano e o Morada está sob intervenção desde abril. Pelo menos quatro instituições negociaram nos últimos meses a entrada de sócios: ABC Brasil, BicBanco, Bonsucesso e Pine.

O espanhol ­BBVA, que tem um pequeno escritório de representação em São Paulo e planeja aumentar sua presença no país, esteve perto de comprar o Pine, que hoje vale 950 milhões de reais na bolsa.

A transação não foi adiante, segundo pessoas próximas, porque a piora da crise na Europa interrompeu os planos de expansão dos espanhóis — além disso, as negociações esbarraram no preço pedido pelos controladores do Pine: 2 bilhões de reais (os bancos não comentaram).


Quem acompanha o mercado diz que preço é justamente uma das duas razões que impedem uma onda de fusões nesse setor. “Como as ações desses bancos caíram bastante, os donos querem receber um prêmio na venda que não estamos dispostos a pagar”, diz o sócio de um fundo de private equity.

A outra razão é que há menos compradores na praça, já que Bradesco, Itaú Unibanco e Santander decidiram entrar sozinhos, e de forma agressiva, em mercados dominados pelos bancos menores, especialmente o de crédito consignado e de empréstimos a pequenas e médias empresas. 

Comemorada por consumidores e empresas, a maior concorrência dos bancões tem feito estragos nas instituições menores — e algumas estão revendo suas estratégias para tentar aumentar a rentabilidade. O Bonsucesso e o Cacique cortaram suas operações de consignado pela metade.

“O ganho com esses empréstimos, que oscilava entre 6% e 8%, caiu para 0,5%, o que não cobre nem os custos operacionais”, diz Renato Oliva, presidente do Cacique e da ABBC, associação que representa o setor. “Alguns bancos têm feito loucuras para crescer e conseguir mais participação de mercado.”

O Sofisa tomou uma decisão parecida e diminuiu os empréstimos a empresas no segundo trimestre. A consequência imediata foi ruim: com menos operações, a rentabilidade do banco foi irrisória, de 0,1%.

“Vamos retomar o crescimento quando o mercado voltar à normalidade, o que já começa a ocorrer”, diz Ricardo Simone, diretor financeiro da instituição. Numa tentativa de aumentar a base de clientes, o Sofisa lançou um site de investimentos para pessoa física, o Sofisa Direto. 

Também há problemas na maneira como essas instituições captam recursos. Levantar capital é o velho drama do setor. Sem uma rede de agências, os bancos médios não contam com o dinheiro depositado nas contas-correntes e na poupança, como fazem Bradesco, Itaú e outros gigantes.


Eles dependem da emissão de títulos de dívida, como os CDBs. O problema é que solavancos no mercado podem interromper o fluxo de recursos — ou encarecê-lo — do dia para a noite. E houve uma série desses eventos recentemente. A desconfiança gerada pela derrocada do PanAmericano levou os investidores a exigir retornos maiores para comprar os títulos dos bancos médios.

O caso também dificultou a venda de carteiras de crédito, outra fonte de recursos para o setor — segundo a ABBC, o volume dessas operações é, hoje, 40% menor que no ano passado. Além disso, a deterioração do cenário externo tem prejudicado as captações lá fora, que respondem por 18% do capital dos médios, segundo a agência de risco Moody’s.

“Estamos prevendo um ambiente tão ruim quanto o de 2008 e, por isso, aumentamos nosso caixa para o maior patamar da história”, diz Milton Bardini, vice-presidente do BicBanco.

A situação fica ainda mais grave quando se leva em conta que parte dos bancos terá de aumentar seu patrimônio para atender às novas exigências do Banco Central e do Acordo de Basileia, que rege a atividade bancária internacional. Ou seja, o que já está difícil vai ficar mais complicado.

A participação dos bancos médios no sistema financeiro não é expressiva: juntos, respondem por cerca de 25% dos ativos e 15% dos depósitos. Mas têm um papel importante. Com uma atuação centrada em empréstimos, costumam ser mais rápidos do que os grandes no lançamento de modalidades de crédito.

O consignado, por exemplo, partiu deles. Além disso, financiam as empresas de menor porte há anos, quando os bancões tinham uma atuação bem mais discreta nesse mercado. A questão é que eles vivem de altos e baixos, porque a disponibilidade de fontes de financiamento é incerta. 

Está sendo discutida a criação de um portal de investimentos para vender CDBs e o lançamento de um mercado organizado de negociação desses papéis, o que poderia aumentar a demanda pelos títulos. Mas, até essas iniciativas saírem do papel, cada banco vai ter de se virar sozinho.