Atrás do dinheiro verde

Por que nomes como Alcides Tápias e Armínio Fraga estão se aventurando num mercado novo e pouco conhecido: o de créditos de carbono

Durante muitos anos, os executivos da Sadia quebraram a cabeça tentando resolver uma séria questão ambiental. Os rios e lagos de diversas regiões de Santa Catarina estavam contaminados por dejetos oriundos da criação de porcos de seus associados. As autoridades do estado exigiam uma solução rápida.

Os criadores, a maioria deles pequenos, não tinham como arcar com os custos da despoluição. Foi então que Marco Antonio Fujihara, especialista em questões ambientais, que na época prestava consultoria a grandes empresas, foi chamado para resolver a situação. O plano de Fujihara: construir biodigestores que impedissem o lançamento na atmosfera do poluente gás metano, originado dos dejetos desses animais.

No decorrer do processo, a Sadia percebeu que, além da solução de seus problemas com o governo local, ela poderia requerer — e negociar — os créditos de carbono correspondentes, um valor que pode chegar a 150 milhões de reais.

O episódio chamou a atenção do ex-ministro Alcides Tápias, membro do conselho de administração da Sadia e de outras três empresas. “Não sabia exatamente o que havia sido feito”, diz ele. “Mas estava claro que o problema fora resolvido e, de quebra, a solução geraria dinheiro.”

Como consultor de empresas desde 2003, Tápias já estava familiarizado com a crescente demanda por métodos ambientalmente corretos de produção. Muitas companhias enxergam no “selo verde” uma forma de melhorar a imagem, aumentar o valor de seus produtos — e, com isso, melhorar seus resultados.

O caso da Sadia mostrou a Tápias, porém, que a geração de créditos de carbono (um conceito que, como a maioria das pessoas, ele julgava absolutamente etéreo) também poderia ser muito lucrativa. Não demorou para que ele se unisse a Fujihara para a criação de projetos de “desenvolvimento limpo”. A idéia era unir o conhecimento técnico do consultor à invejável teia de relacionamentos do ex-ministro.


Desde então, Tápias tem visitado várias companhias à procura de projetos que possam contribuir para a diminuição do efeito estufa — e, claro, gerar muito, muito dinheiro. Seu próximo alvo é a Usi  minas. Sua equipe já está analisando uma maneira ecologicamente correta de construir uma usina termelétrica para abastecer a siderúrgica. “Não adianta abordar o empresário com um discurso verde”, diz Tápias. “É preciso mostrar a ele que é possível lucrar com isso.”

Embora pareça um negócio pouco palpável, fica fácil entender por que tantas empresas e grandes estrelas do mundo dos negócios vêm se dedicando a essa atividade. Esse mercado hoje é impulsionado por uma combinação de interesses que inclui empresas estrangeiras com passado poluidor e fundos de investimento.

De acordo com o que foi estabelecido pelo Protocolo de Kyoto, essas empresas precisam comprar créditos de carbono para compensar as emissões de poluentes que elas já fizeram, fazem e ainda farão. Trata-se, basicamente, de uma política de compensação, uma espécie de comércio de “bondades” ambientais. Países em desenvolvimento e com natureza abundante como o Brasil são vistos como grandes fornecedores potenciais de projetos de crédito de carbono.

É essa perspectiva que vem atraindo os investidores. Diante do crescimento da demanda, os fundos aproveitam para especular com esses títulos, comprando agora, por um terço do valor de mercado, o que será resgatado daqui a alguns anos. Um exemplo hipotético: parte dos créditos gerados pelos biodigestores da Sadia pode valer algo como 15 milhões de dólares no futuro. Os fundos se oferecem para comprar esses créditos, hoje, por cerca de 5 milhões de dólares e os colocam em carteira.

A idéia é vendê-los depois numa das bolsas européias ou japonesas que já negociam esses títulos. “Funciona como hedge de energia”, diz Marco Fujihara, da consultoria Totum, sócia de Tápias.O mercado de créditos de carbono ainda é algo incipiente e pouquíssimo entendido no Brasil.

Ainda assim, tem despertado a atenção de alguns expoentes do   mundo dos negócios e da política. Além de Alcides Tápias, correm atrás desse “dinheiro verde” nomes como o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o ex-embaixador Rubens Barbosa. Algumas instituições financeiras também já começam a trabalhar nesse mercado.


O Bradesco, por exemplo, já estuda incluir os créditos de carbono em seu portfólio de investimentos. Duas gigantes multinacionais — Bunge e Cargill — também uniram-se a consultorias especializadas para elaborar projetos que ajudem a gerar esses créditos. “É o negócio do futuro”, afirma um desses consultores.

A crescente demanda por créditos de carbono deve fazer com que esse mercado, que movimentou 10 bilhões de dólares no ano passado, cresça rapidamente. Países europeus e asiáticos que já assinaram o Protocolo de Kyoto, classificados como Anexo I, precisam reduzir, até 2012, suas emissões de poluentes para níveis inferiores aos registrados em 1990.

Boa parte dessa redução será conquistada justamente com a aquisição de créditos de carbono de países como o Brasil. De 2005 para cá, o país registrou 67 projetos na ONU. Há ainda outros 103 na fila aguardando registro. O Brasil já ocupa a segunda posição mundial em número de projetos.

Mesmo assim, os créditos gerados ainda estão aquém da demanda internacional. “Os fundos estrangeiros chegam aqui com os dólares, mas não há projetos suficientes”, afirma Flávio Brando, da consultoria Max Ambiental, especializada em créditos de carbono. Recentemente, o britânico Climate Change Capital, maior fundo de investimentos no setor, reuniu 1 bilhão de dólares para investir em projetos no Brasil, na Índia e na China.

“Os bons projetos, aqueles confiáveis, ainda são muito raros”, diz Brando. Para regulamentar esse mercado, a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) pretende realizar um leilão de projetos já no ano que vem. A idéia é dar maior transparência às negociações — hoje feitas a portas fechadas entre empresas e investidores.

Ironicamente, o país que mais tem participado desse mercado é justamente o que preferiu ficar de fora do Protocolo de Kyoto: os Estados Unidos. Apesar de não estarem obrigadas a reduzir a emissão de poluentes, muitas empresas americanas têm adquirido créditos de carbono voluntariamente.

É o caso de gigantes como Motorola, DuPont e Ford. Em Chicago, foi criada uma bolsa específica para transações desses créditos. Em Hollywood, produtoras de um filme sobre o efeito estufa adquiriram créditos de carbono para compensar a emissão de poluentes durante as filmagens. Algumas companhias aéreas oferecem a possibilidade de embutir no preço das passagens o valor do crédito de carbono correspondente.

E o mais incrível: em algumas regiões do país, tornou-se comum presentear amigos com créditos de carbono. Essa febre de conter as emissões de poluentes já começou a produzir reflexos na política americana. No final de setembro, Arnold Schwarzenegger, o governator da Califórnia, aprovou uma rígida lei estadual obrigando grandes indústrias a reduzir em até 25% suas emissões de gases poluentes até 2020.

Para isso, elas poderão lançar mão de créditos de carbono. “A nova lei abre caminho para uma mudança de postura dos Estados Unidos em relação ao Protocolo”, afirma Fernando Tabet, advogado especializado em direito ambiental do escritório Mattos Filho. Se isso ocorrer, estima-se que o mercado mundial de créditos de carbono saltará para algo próximo a 150 bilhões de dólares até 2010.