Estes jovens dizem muito sobre a próxima geração nas empresas

Grupos em defesa da diversidade surgem no ensino superior e conquistam a atenção e o apoio da diretoria das escolas

Desde maio, um grupo de alunos da faculdade Insper, em São Paulo, começou a organizar uma série de debates que lotam o auditório da escola, com capacidade para 230 pessoas. Os encontros não se destacam apenas pela capacidade de atrair público, mas também pelo ineditismo do tema. Pela primeira vez, palestrantes externos foram chamados para debater a presença de LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros) no ambiente de trabalho.

A iniciativa foi a primeira manifestação do grupo, o Inspride, existente desde outubro de 2016 sob a gestão de oito alunos. Naquele mês, eles espalharam pelo prédio da instituição cartazes com a mensagem “O Insper é LGBT”, alguns deles rasurados. “Ficamos incomodados com comentários preconceituosos e vimos no grupo uma forma de dar respaldo a quem precisa”, diz Matheus Hippolito Monaci, aluno de economia e porta-voz do Inspride. “É notável o desenvolvimento social e de liderança dos alunos que participam dos grupos”, diz Sérgio de Carvalho Silva, coordenador do MultiInsper, área de aconselhamento aos alunos do Insper, que mantém cursos de economia, administração e engenharia.

No caso do Insper, não se trata do primeiro grupo em defesa da diversidade a surgir entre os alunos. O coletivo feminista Marianne Ferber, criado em 2015 e batizado em homenagem a uma economista americana, reúne cerca de 100 participantes. Algo semelhante se observa em diversas outras faculdades do país. Para as empresas, a mensagem é clara: a movimentação é um indício de que a diversidade é uma bandeira cada vez mais valorizada pelas novas gerações.

Uma pesquisa global da consultoria EY mostra que 86% das jovens da geração Z, a dos que nasceram de 1995 em diante, considera a igualdade de oportunidades muito importante na hora de escolher um empregador. A proporção é de cerca de 70% nas gerações imediatamente anteriores — a dos millenials e a X. “Esses jovens chegarão ao mercado de trabalho com um discurso mais estruturado em favor da diversidade”, afirma a economista Regina Madalozzo, professora no Insper e especialista no tema diversidade.

Vídeo produzido no início de 2017 por alunas de engenharia da Universidade de São Paulo: são mais de 300 000visualizações no YouTube | Reprodução Integrapoli

Ao perceber a tendência, a fabricante de bebidas Ambev iniciou neste ano uma aproximação com esses grupos. A equipe de seleção de talentos é responsável por mapear constantemente 50 grupos espalhados pelo país. Boa parte dos coletivos defende a ampliação da participação feminina e de LGBTs, mas também de negros e deficientes. Eles ficam no Ceará, em Pernambuco, no Paraná, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. “O objetivo é entender a motivação dos jovens que estão chegando ao mercado de trabalho. Queremos que nossos funcionários sejam uma parcela do retrato social brasileiro”, diz Fabíola Overrath, diretora de desenvolvimento de gente da Ambev, que contratou cerca de 600 estagiários e trainees neste ano.

Os grupos de diversidade têm estruturas parecidas: começaram a se organizar há poucos anos, com o uso de redes sociais, e têm em média 20 membros ativos e centenas de alunos que acompanham as discussões de forma esporádica. A exemplo dos grupos de diversidade existentes nas empresas, entre as práticas mais frequentes está a promoção de debates sobre os temas que apoiam. Alguns grupos conseguiram conquistar a atenção e, posteriormente, o apoio da diretoria das escolas. É o caso de alunas da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli). Um grupo de alunas de engenharia civil gravou no início do ano um vídeo em que escrevem no próprio corpo frases que ouvem, como “você vai desistir” e “peão não respeita mulher”. O vídeo teve mais de 300 000 vi-sua-lizações no YouTube.

Outro grupo, batizado de Politécnicas (R)existem, com alunas de diversos cursos da faculdade, conseguiu formalizar um canal de denúncia anônima. Como consequência, o denunciado é advertido. Segundo a própria direção da Poli, certa vez a faculdade ofereceu segurança particular a uma aluna que vinha sendo perseguida por um colega. “Alguns nos chamam de ‘feminazis’, mas conseguimos a receptividade da diretoria”, diz Beatriz Bessa, aluna de engenharia elétrica. A aluna de engenharia civil Agnes Brasil informou no currículo sua participação em grupos de negros e mulheres. “Se a empresa não quer esse tipo de engajamento, eu também não quero ficar lá”, diz.

Há cada vez mais empresas interessadas em interagir com os grupos pró-diversidade. Os eventos do Inspride têm tido a participação de executivos do Google e da Atento. O Polipride, coletivo LGBT da Poli, organiza há três anos um evento anual com patrocínio de empresas. Em contrapartida, os patrocinadores levam executivos e contam como a diversidade é tratada em seu ambiente de trabalho. Entre os parceiros estão as empresas químicas Basf e Dow e a empresa de tecnologia HP. “As multinacionais são mais maduras na discussão e buscam os coletivos para a divulgação de vagas”, afirma Maíra Habimorad, presidente da Cia de Talentos, empresa especializada no recrutamento de jovens. Na Dow, a abordagem do tema entre estagiários ficou mais sólida neste ano. A empresa propôs aos estagiários que estudam na mesma faculdade a formação de grupos para abordar a diversidade. Um dos resultados foi um painel sobre mulheres na engenharia, realizado na Universidade de São Paulo, em agosto.

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O burburinho causado pelos coletivos começa a induzir mudanças estruturais nas próprias faculdades. A vigilância por parte de grupos fez com que, em abril, a Fundação Getulio Vargas de São Paulo criasse um comitê de diversidade que recebe as denúncias contra alunos e professores. Neste semestre, a diretoria também criou a disciplina eletiva “diversidade” na graduação e contratou a consultoria Txai, especializada em diversidade, para orientar os professores a evitar atitudes que não são mais toleradas, como comentários desrespeitosos. “Aos poucos os professores refletem e minimizam atitudes preconceituosas”, diz Luiza Jardim, porta-voz do coletivo feminista Candaces da FGV, existente desde 2013. Na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, de maio de 2015 até junho de 2017, o coletivo Nuvem Negra conseguiu incluir autores negros e pardos na bibliografia de alguns cursos.

Nos departamentos de relações internacionais e direito, uma disciplina eletiva com temática negra foi criada (relações raciais em perspectiva diaspórica). Na ESPM, o coletivo negro Afroria, criado no início do ano, realizou o primeiro encontro numa sala cedida pela faculdade em setembro. “Trabalhamos e aprendemos junto com os coletivos”, afirma Ismael Rocha, diretor de extensão acadêmica da ESPM.

Nos Estados Unidos, a mobilização avançou há mais tempo e começa a ampliar o alcance de grupos isolados. Em 2015, a organização The Demands mapeou as propostas de 80 coletivos de universitários negros como medidas para aumentar a retenção desses alunos. Para LGBTs, a organização Reaching Out promove uma feira anual para estudantes e empresas desde 1999. No Brasil, a terceira edição do evento aconteceu neste ano. “A valorização da diversidade cresceu muito no Brasil, e os jovens não vão se conformar com a falta dela quando entrarem no mercado”, afirma Reinaldo Bulgarelli, sócio da Txai. É um novo tempo — e as empresas devem estar preparadas para ele.