Até o Bric perdeu o fôlego do crescimento

Os sinais de desaceleração de Brasil, Rússia, Índia e China colocam em xeque a ideia de que os emergentes, imunes à crise, seriam a locomotiva do crescimento global

São Paulo – Uma das mais célebres frases do bilionário americano Warren Buffett resume bem o espírito dos tempos atuais: “Você só descobre quem está nadando pelado quando a maré abaixa”.

A citação se aplica com perfeição às épocas de crise. Entre 2008 e 2009, no auge do recente caos econômico, os países ricos entraram em recessão e mostraram que, se não estavam pelados, vestiam shorts furados. Naquela época, os países emergentes passaram sem grandes constrangimentos pela maré baixa — o que lhes rendeu a fama de resilientes às intempéries da economia global.

Hoje, quando todos contemplam, atemorizados, a possibilidade de um novo mergulho da economia mundial, está claro que os países emergentes não são essa fortaleza toda. Nas últimas semanas, os dados de crescimento de Brasil, Rússia, Índia e China mostram que o bloco Bric também está sofrendo os impactos da crise na Europa.

Diante do agravamento do cenário externo, as quatro nações do grupo — responsável por quase metade do crescimento mundial nos últimos anos — reduziram suas estimativas de expansão para 2012. A previsão inicial para o bloco, que era de 7,6%, caiu para 6,3%.

Há um ano, as projeções da China e da Índia eram de 9,2% e 7,8%, respectivamente — agora, são 8,2% e 6,6%. As previsões para o Brasil foram as que mais encolheram: de otimistas 4% para mirrados 2,2%. 

Mais do que uma desaceleração sazo­nal, essa queda coloca em dúvida a ideia de que o Bric seria a nova locomotiva da economia global. Nos últimos anos, a distância entre o desempenho dos emergentes e o dos ricos vem se estreitando. Em 2009, os países do Bric cresceram, em média, 5,4%, nove pontos percentuais a mais que as nações desenvolvidas.

Neste ano, confirmadas as estimativas, a distância entre os dois grupos deve ser reduzida a 4,9 pontos percentuais. “Os países do Bric vão crescer mais lentamente, pois dependem em larga medida das economias avançadas, que têm um árduo trabalho pela frente”, diz Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia.


Até mesmo Jim O’Neill, o executivo do banco Goldman Sachs que criou o acrônimo Bric em 2001, reconhece que a tese de descolamento dos emergentes está em xeque.

 Onde está o problema?

As causas para a desaceleração dos paí­ses do Bric não são homogêneas. Economias mais orientadas para a exportação, como as de China e Rússia, sofrem com a baixa demanda por importados, principalmente da União Europeia. No primeiro trimestre, as vendas externas da China cresceram 7,6%, o que fez o PIB girar num ritmo mais lento para os padrões chineses — 8,1% —, a pior taxa em três anos.

Pelas estimativas dos próprios burocratas de Pequim, empenhados em apressar a transição para um modelo de crescimento mais dependente do mercado interno, as exportações devem crescer abaixo de 10% em 2012, metade do registrado no ano passado.

No caso de Brasil e Índia, países menos vulneráveis às quedas nas vendas externas, as causas da desaceleração são a combinação de um aparente esgotamento do consumo interno com a falta de reformas que deem mais oxigênio aos empreendedores locais. Nos primeiros três meses do ano, o Brasil cresceu apenas 0,8%.

O desempenho ruim é atribuído, em grande parte, à queda nos investimentos e ao alto endividamento das famílias, o que teria segurado os gastos dos brasileiros. Na Índia, o PIB expandiu 5,3% no primeiro trimestre, o pior resultado em nove anos. Com essas notícias, não chega a ser surpreen­dente o fato de que os investidores estejam mais reticentes.

Em oito das últimas dez semanas, eles reduziram suas aplicações nas bolsas de valores de países emergentes. De acordo com o banco Bank of America Merrill Lynch, o atual nível de exposição de fundos de investimentos estrangeiros nesses paí­ses é o menor desde outubro.

Diante de PIBs mais magros, os países emergentes têm adotado diferentes receitas para voltar a crescer. Recentemente, o governo chinês cortou a taxa básica de juro em 0,25 ponto percentual, diminuiu o preço dos combustíveis em 5,5% e criou um programa de subsídios para a compra de eletrodomésticos.


Também surgiram novos investimentos em infraestrutura. Já foi autorizada a construção de 70 aeroportos nos próximos três anos. “Aumentar o investimento em resposta a uma desaceleração do consumo pode resolver no curto prazo, mas vai agravar o peso da dívida chinesa”, diz Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim. “Foi isso o que aconteceu na América Latina nos anos 70.”

A expectativa é que a Índia imite a China e anuncie investimentos em infraestrutura. A redução do crescimento tem despertado a desconfiança dos analistas. A agência de classificação de risco Standard & Poor’s alertou, em junho, que a Índia poderia ser o primeiro país do Bric a perder o grau de investimento.

Parte da preocupação em relação aos emergentes é fruto do próprio sucesso do bloco. Em 2001, a expectativa de O’Neill era que, em uma década, a economia chinesa seria do tamanho da alemã e a brasileira estaria pouco atrás da italiana. Bem, a história mostrou que a previsão era pessimista.

Hoje, a China é a segunda maior economia do mundo e o Brasil virou a sexta maior — ultrapassando não só a Itália, mas também o Reino Unido. Numa recente entrevista a um site de notícias, o americano Buffett nem piscou quando perguntado se estava preocupado com a China.

“Nas próximas décadas, os chineses terão recessão e períodos de crescimento, assim como os Estados Unidos e vários outros países tiveram ao longo de sua história. Mas não se enganem: a trajetória é ascendente.” Para o investidor, considerado por muitos o melhor do século 20, a grande potência emergente está com todas as partes íntimas bem cobertas.