Até a seleção de trainees é global nas empresas brasileiras

À medida que expandem suas operações fora do país, as companhias brasileiras começam agora a incentivar que estrangeiros participem de seus programas de trainee

São Paulo – O mexicano Fernando Aguilar, de 27 anos, arrumou as malas em agosto deste ano para sua primeira mudança de país. Aguilar deixou a Cidade do México rumo a São Paulo para participar de uma intensa jornada de compromissos na Natura, a maior fabricante de cosméticos do país.

Ao longo de setembro, cumpriu 20 horas em aulas sobre temas como planejamento estratégico e gestão do tempo, além de passar por sessões de coaching com executivos experientes. Também mergulhou no cotidiano do departamento de marketing da empresa, dedicando-se a projetos ligados às redes sociais.

Formado em comunicação, fluente em inglês e agora aprimorando o português, ele é um dos 11 estrangeiros entre os 35 jovens escolhidos para participar da turma de trainees da Natura neste ano. Pela primeira vez, o programa, com duração prevista de dois anos, incluiu a possibilidade de que os participantes — recrutados na matriz e em seis subsidiárias — pudessem cumpri-lo em outro país.

Até então cada uma das operações mantinha um modelo próprio, com duração e formato diferentes, e os participantes que estavam em operações diferentes jamais se encontravam. “É uma oportunidade única trabalhar na matriz, o que significa estar mais perto das decisões estratégicas”, diz Aguilar, que espera pleitear uma vaga por aqui assim que concluir o treinamento, em agosto de 2013.

Internacionalização

Criar um programa para formar lideranças nos países em que atuam representa hoje uma das etapas mais recentes do amadurecimento das companhias brasileiras com atuação internacional. Assim como a Natura, a construtora Andrade Gutierrez abriu neste ano pela primeira vez a inscrição para seu programa de trainee a jovens dos mais de 30 países em que atua.

Dos 20 aprovados, 14 são brasileiros e seis de outras nacionalidades — três portugueses, um francês, um argentino e um venezuelano. Até o final de dezembro, a consultoria de tecnologia de informação paulista Stefanini terá concluído a seleção de seu primeiro grupo global de trainees.


Fundada em 1987 e presente hoje em 28 países, a empresa projeta um faturamento de 1,2 bilhão de reais para 2011 — 40% desse total vindos de suas operações fora do Brasil. “Para continuar a crescer lá fora, é fundamental formar gente nova com a cultura da empresa”, afirma Carla Botelho, diretora de recursos humanos da Stefanini.

Em todos os casos, os candidatos convivem por alguns meses na matriz, mas, ao final do treinamento, têm a opção de seguir carreira em qualquer um dos países envolvidos no programa (desde que a escolha do candidato atenda também as necessidade da empresa).

Na Stefanini, os jovens recrutados permanecerão na sede, em São Paulo, durante todos os oito meses de duração do programa. No caso da Natura, a turma trabalhou na sede apenas no primeiro mês, e depois cada um dos candidatos pôde optar por cumprir o treinamento em qualquer um dos cinco países com vagas em aberto — o mexicano Aguilar foi o único que decidiu seguir o programa fora de seu país de origem.

Além da convivência na matriz, a Andrade Gutierrez decidiu avançar na abordagem internacional de seu programa. A partir de janeiro, os jovens passarão 12 meses percorrendo um roteiro de visitas a todos os negócios do grupo em diversos países, sem permanecer mais do que 45 dias num mesmo lugar.

“Eles foram avisados, logo de cara, de que não teriam residência fixa nesse período e de que precisariam de uma mala bem grande e resistente”, diz Maria Isabel Albernaz, gerente de gestão da Andrade Gutierrez. Até então a Andrade Gutierrez mantinha apenas um módulo de treinamento para engenheiros restrito à operação brasileira.

Nenhuma das companhias instituiu cotas para estrangeiros nos programas. Na Natura, o número de estrangeiros inscritos não passou de 11% do total — exatos 1 571 casos entre os mais de 14 000 candidatos que cumpriram os requisitos básicos exigidos pela companhia.

A parcela de estrangeiros no processo cumpriu a expectativa dos executivos. “É uma relação que tende a mudar nos próximos anos, à medida que nosso programa se torne mais conhecido lá fora”, afirma Denise Asnis, gerente de recursos humanos da Natura. “Nosso objetivo é conseguir formar os líderes com visão global e capacidade para continuar o crescimento da empresa.”