As novas caras do conselho

Uma renovação acima da média nos conselhos de empresas abertas no país acaba de ocorrer. E, pela 1ª vez, mais da metade deles tem pelo menos uma mulher

Após quase oito anos em postos de comando numa das maiores empresas de aviação da América Latina, a Latam, a paulistana Claudia Sender tem se dedicado nos últimos meses a conhecer por dentro empresas de segmentos completamente diferentes. Há poucas semanas, esteve em dois campi da rede de ensino superior Estácio. Viajou à Europa para ver operações da fabricante de cimentos LafargeHolcim. Agora se prepara para visitar a produção da siderúrgica Gerdau pelo país.

A nova rotina veio com uma mudança de papéis. Em maio, aos 44 anos, Claudia decidiu trocar a vida executiva pelo conselho de administração dessas três empresas — no caso da LafargeHolcim, na própria matriz suíça. Até abril, era vice-presidente da área de clientes da chilena Latam, empresa em que também foi presidente da operação brasileira.

“Os convites surgiram quase ao mesmo tempo e, pelo menos neste momento, entendi que seria um passo natural na minha carreira poder colaborar de outra forma com minha experiência acumulada num setor complexo, com tantas crises”, diz Claudia, que é formada em engenharia química pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e tem um MBA pela Universidade Harvard.

Claudia estreou triplamente como conselheira independente, como é chamado o profissional sem vínculo societário ou empregatício com o controlador. Antes disso, ocupara um assento na companhia de fidelidade Multiplus, desmembrada da TAM anos atrás, como representante da empresa-mãe. Recém-chegados, como Claudia, tornaram-se mais numerosos nos conselhos de companhias de capital aberto no Brasil de um ano para cá. É o que mostra um estudo realizado pela empresa de contratação de altos executivos SpencerStuart.

A análise considera as 186 empresas listadas nos níveis 1 e 2 e no Novo Mercado, este último o mais alto nível de governança da bolsa brasileira. Entre elas, 60% contrataram pelo menos um novo integrante para o conselho no período de maio de 2018 a maio de 2019. O movimento resultou na troca do ocupante de 20% dos quase 1.600 assentos disponíveis nessas empresas. Em anos anteriores, a taxa de renovação girava em torno de 10% (veja quadro abaixo). “Mais e mais empresas se veem diante da necessidade de trazer para o conselho de administração competências diferentes, o que resulta na busca por gente nova”, diz Fernando Carneiro, sócio da SpencerStuart e responsável pelo levantamento.

Em sintonia com esse imperativo, a proporção de conselheiros independentes aumentou. Em 2015, eles representavam 26% dos membros. Na pesquisa completada neste ano, a proporção passou a ser de 39%. Parte da mudança teve o impulso da Lei de Responsabilidade das Estatais, que impôs um mínimo de 25% de membros independentes nos conselhos de administração dessas empresas  até junho de 2018. O Novo Mercado e o nível 2 exigem apenas 20%. Algumas delas foram além. A Petrobras reservou 40% dos assentos para os independentes.

Indícios apontam, porém, que há mais do que isso. Os conselheiros estão cada vez mais atuantes: o número de comitês temáticos ligados ao conselho, de áreas como auditoria e recursos humanos, cresceu 25% e a média passou a ser de  2,5 por empresa. Uma pesquisa realizada pela Fundação Dom Cabral com a consultoria KPMG em 2018, mostra que metade das empresas familiares brasileiras selecionou conselheiros independentes por intermédio de consultorias externas, abandonando relacionamentos pessoais e indicações, anteriormente as fontes mais usuais.

Com a alta demanda, a remuneração desses profissionais aumentou 27%, para uma média de 50.518 reais mensais. “Hoje, a atuação como conselheiro independente tornou-se uma carreira. Tem sido um caminho natural para executivos, ainda em atividade ou pós-carreira executiva”, afirma Dalton Sardenberg, professor de governança na Fundação Dom Cabral.

Nessas trocas, a presença feminina atingiu um marco: pela primeira vez, mais da metade das empresas abertas tem pelo menos uma mulher no conselho. Entre as companhias que estrearam nessa lista estão justamente a Estácio e a Gerdau, nas quais Claudia Sender ingressou. Outro exemplo é a Suzano, controlada pela família Feffer e a maior empresa de celulose de eucalipto do mundo desde a compra da Fibria em 2018.

Em maio, o conselho da Suzano passou a contar com a participação de Ana Paula Pessoa, cofundadora da startup de inteligência artificial Kunumi. Formada em economia pela Universidade Stanford nos anos 80, com mais de 20 anos de carreira, mais recentemente ela foi diretora financeira do Comitê dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos da Rio 2016.

Sua trajetória como conselheira começou há mais de seis anos fora do país. Está no conselho de administração global da empresa americana de mídia News Corp, dona do The Wall Street Journal, do banco Credit Suisse e da construtora francesa Vinci. “No Brasil, cresce a consciência de que é preciso ter competências diversas para enfrentar transformações necessárias nas empresas”, afirma Ana Paula.

Loja das Havaianas: conselho global para apoiar planos de expansão | Rodrigo Paiva/Folhapress

Segundo especialistas, uma das competências em alta demanda tem sido o conhecimento da área digital. Há casos em que os novos integrantes foram recrutados no próprio Vale do Silício. A contratação de estrangeiros, no entanto, ainda é exceção e não chega a 10% dos ocupantes. “Com profissionais brasileiros ou estrangeiros, existe a necessidade de trazer uma visão tecnológica para empresas de vários setores”, diz Luis Giolo, diretor-geral da empresa de contratação de altos executivos Egon Zehnder no Brasil. É o caso do conselho da fabricante de calçados Alpargatas, dona da marca Havaianas, com o ingresso neste ano da americana Stacey Brown, vice-presidente global de varejo da Apple.

Desde o final de 2017, o conselho da Alpargatas passou por uma ampla reformulação, quando saiu das mãos do grupo J&F, dos irmãos Batista, para um de novos acionistas: Itaúsa, Cambuhy e BW. Dos sete atuais integrantes do conselho, presidido por Pedro Moreira Salles, o único remanescente da versão anterior é o minoritário Silvio Tini. “A contratação da Stacey tem tudo a ver com a nova fase em que temos planos de expandir a presença internacional e digitalizar a empresa”, afirma Roberto Funari, presidente da Alpargatas desde janeiro.

Funari, que fez carreira global na fabricante de bens de consumo inglesa Reckitt Benckiser, chegou à Alpargatas como conselheiro independente em abril de 2018, junto com Luiz Edmond, ex-presidente da cervejaria ABInBev para Estados Unidos e Canadá. A primeira reunião de que Stacey participará ocorrerá em novembro, e a partir daí todas serão em inglês, um marco simbólico. Funari mudou o escritório da Havaianas de Nova York para Los Angeles, onde, segundo ele, o estilo de vida das pessoas combina mais com a proposta da marca, e abriu lojas na Índia e na China.

Apesar dos avanços, sobretudo na presença feminina, o ritmo brasileiro ainda está aquém do que se vê lá fora. As mulheres representaram 14% das novas contratações de conselheiros no país. Num levantamento semelhante da SpencerStuart nos Estados Unidos, elas somaram 40% dos novos integrantes dos conselhos no último ano. No Brasil, ocupam 10,5% das posições. Se excluídas suplentes e acionistas, a taxa diminui para 6,2%. Nos Estados Unidos, elas representam 27% do total. Neste ano, todas as empresas listadas entre as 500 maiores por lá passaram a ter pelo menos uma mulher no conselho.

“Aqui as empresas começam a pedir mulheres entre os finalistas, embora a equidade esteja distante”, diz Heloisa Carvalho, consultora da SpencerStuart, responsável pela contratação de conselheiros. “Falta dar visibilidade a elas e temos feito isso em eventos e programas de mentoria com presidentes de conselhos”, diz Leila Loria, conselheira na empresa de energia Copel, na Santo Antônio Energia e no Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, e codiretora do braço brasileiro da ONG americana Women Corporate Directors, dedicada a ampliar a presença feminina nos conselhos.

O esforço ganha impulso se a tendência de contratar profissionais independentes permanecer — e há razão para acreditar que esse seja um caminho sem volta.