Colômbia precisará escolher entre duas visões opostas para o seu futuro

Novidade nas eleições presidenciais do país andino - que chega ao 2º turno - é que candidatos refletem espectros completamente opostos do campo ideológico

Quando o colombiano Juan Manuel Santos assumiu a Presidência do país em 2010, o conflito armado com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia  (Farc) ainda era a principal preocupação nacional. Na economia, a Colômbia vinha evoluindo graças a uma política sólida e estável — baseada no controle de gastos públicos e num programa para facilitar os investimentos externos. Na segurança pública, os índices de criminalidade também vinham melhorando. Faltava resolver o problema com as Farc. E foi esse o tema que Santos escolheu como prioridade a enfrentar. Agora, o presidente colombiano chega ao fim de seu segundo mandato tendo alcançado um acordo de paz histórico com a guerrilha, feito que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz de 2016 e, mais recentemente, garantiu o passaporte da Colômbia para a entrada na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico e na Otan, a aliança militar do Atlântico Norte. Mas, no plano nacional, a disputa com os guerrilheiros ainda está longe de ser superada e de sair do debate político.

O acordo costurado por Santos é um dos temas que mais dividem os candidatos que disputam o segundo turno das eleições presidenciais, no dia 17. De um lado está Iván Duque, candidato de direita, que defende uma revisão do acordo de paz para que os guerrilheiros das Farc sejam punidos com mais rigor. Do outro lado está Gustavo Petro, candidato de esquerda — ele próprio um ex-guerrilheiro do Movimento 19 de Abril (M-19) —, que é a favor do acordo e propõe que a Colômbia avance no debate sobre outros problemas, como a desigualdade social.

Uma novidade nessas eleições presidenciais na Colômbia é que os dois candidatos representam espectros completamente opostos do campo ideológico. Tradicionalmente, os partidos que costumavam chegar à reta final das disputas eleitorais na Colômbia sempre foram de direita ou de centro. Os grupos de esquerda nunca tiveram força, porque a população temia a relação deles com as guerrilhas. Isso explica por que a Colômbia é um dos únicos países da América do Sul que não embarcaram na onda esquerdista que tomou a região nos anos 2000. Agora, com o fim do conflito, a situação mudou. Gustavo Petro, ex-prefeito de Bogotá, é o primeiro candidato de um partido de esquerda a chegar ao segundo turno. “Estamos vendo surgir uma discussão política clássica entre esquerda e direita  que ocorria em todos os países latino-americanos menos na Colômbia”, diz Sandra Borda, reitora de ciências sociais da Universidade- de Bogotá Jorge Tadeo Lozano, uma das principais do país.

Embora as pesquisas eleitorais indiquem uma preferência por Iván Duque (ele tem 55% das intenções de voto, ante 35% de Petro), o terceiro colocado, Sergio Farjado — de centro —, recebeu o voto de 23% dos eleitores no primeiro turno. Ele declarou que não vai apoiar nenhum dos dois finalistas e votará em branco na segunda rodada, o que torna o resultado mais incerto. A grande discussão é: para que lado irão os 4,5 milhões de votos de Sergio Farjado?

Gustavo Petro, o candidato de esquerda, tem a vantagem de atrair o eleitorado jovem que está cansado dos políticos tradicionais e apoia o casamento gay e políticas liberais. Ele também tem a aprovação dos que temem a volta do conflito armado caso o opositor Iván Duque decida renegociar o acordo de paz. Duque, por outro lado, tem o apoio dos eleitores que veem no esquerdista Gustavo Petro uma ameaça de que a Colômbia siga o caminho da vizinha Venezuela. Petro era próximo de Hugo Chávez e, até este ano, evitava chamar o governo venezuelano de Nicolás Maduro de ditadura. Ele também já chegou a defender uma revisão da Constituição colombiana. “Esse tipo de proposta é o que gera mais medo, até mesmo em setores que querem mudança. Aqui na Colômbia, o fantasma do chavismo é muito presente”, diz Paulo Gregoire, analista para a América Latina da consultoria de risco Stratfor, que vive em Bogotá.

Risco baixo

As propostas dos dois candidatos no campo da economia não poderiam ser mais diferentes. Iván Duque defende o corte de impostos, a adoção de um teto para os gastos públicos, uma reforma da Previdência e o fortalecimento dos acordos comerciais com mais países. É a continuidade das políticas liberais adotadas na Colômbia desde os anos 90 e que garantiram seu bom desempenho econômico nas últimas duas décadas. A última recessão registrada no país foi em 1998 e, de lá para cá, a economia cresce em ritmo forte. O controle de gastos e as reformas tributárias fizeram com que a Colômbia sofresse menos com a queda dos preços internacionais de petróleo, entre 2014 e 2016. “Um fator muito importante que viabilizou taxas altas e sustentadas de crescimento foram políticas amigáveis ao investimento e ao empreendedor e um modelo mais aberto e integrado”, diz Marcelo Carvalho, economista-chefe do banco BNP Paribas para América Latina.

Gustavo Petro: o primeiro esquerdista no segundo turno na história da Colômbia | Ivan Valencia/Getty Images

No plano social, também houve avanços. A taxa de pobreza, que era de 50% da população em 2002, caiu para 28% em 2016. E hoje mais da metade dos estudantes colombianos chega a cursar o ensino superior. Mas a desigualdade social no país continua alta, a taxa de desemprego é elevada (9,5% da população) e mais da metade dos trabalhadores está na informalidade. Esses problemas são usados pelo candidato Gustavo Petro para fazer críticas ao modelo de desenvolvimento colombiano. Sua proposta é aumentar a participação do Estado na economia, elevando os impostos e os gastos públicos. Algumas das ideias defendidas por ele são usar os bancos estatais para oferecer crédito barato e renegociar acordos comerciais visando proteger setores estratégicos contra a importação. Petro quer ainda exigir que as propriedades urbanas e rurais cumpram suas funções sociais.

O candidato de direita Iván Duque: mais incentivos ao setor privado | Ivan Valencia/Getty Images

Num país como o Brasil ou a Argentina, a chance de vitória de um candidato como Petro seria encarada como um risco por investidores e já teria provocado um aumento do dólar e uma queda das ações. Não é o que tem ocorrido na Colômbia. E é aí que entra o papel das instituições. Para Juan Sebastián Corrales, diretor de análise macroeconômica da Fedesarrollo, um importante instituto de pesquisa no país, a sólida independência do Banco da República — o banco central colombiano —, o domínio dos partidos de direita no Congresso e os compromissos assumidos pela Colômbia com a OCDE são proteções contra eventuais políticas aventureiras. “Independentemente de quem ganhe as eleições, não vemos uma mudança brusca na administração da política econômica”, diz Corrales. Até quando existe risco eleitoral, a Colômbia dá o exemplo a seus vizinhos.