Aqui jaz uma das marcas mais odiadas do planeta

Quando completar a fusão com a Bayer, a Monsanto vai deixar de existir. Ou vai se perpetuar, geneticamente modificada

Qual o poder de um nome? Na peça Hamlet, Shakespeare diz que “uma rosa, chamada por qualquer outro nome, teria o mesmo perfume”. Essa pérola vai poder ser testada agora no mundo dos negócios: a Bayer anunciou que, quando completar a fusão com a Monsanto, vai descartar o nome da empresa que comprou por 66 bilhões de dólares. Não chega a ser uma surpresa. Quando o negócio foi fechado em setembro de 2016, Hugh Grant, o executivo-chefe da Monsanto, disse que o futuro da marca não havia sido discutido. Mas, se a própria empresa havia considerado mudar seu centenário nome (e, segundo relatos, desistiu por causa dos custos de construir uma nova marca), era pouco provável que a Bayer se dispusesse a mantê-lo.

Algumas empresas entram na lista das que menos atraem a simpatia das pessoas por falhas em seu serviço ou no trato com clientes (como a maioria das companhias de telecomunicações), outras pela cultura interna (como o Uber, no ano passado, ou a Wells Fargo, com a descoberta de milhares de contas fantasmas) ou por escândalos (como a United Airlines, execrada quando um passageiro foi retirado à força do avião, ou, no Brasil, a JBS e a Odebrecht, pelo envolvimento em corrupção). Mas poucas têm a consistência da Monsanto — que há décadas se mantém em listas de companhias mais odiadas.

A Monsanto esteve envolvida na construção da bomba atômica; produziu o pesticida DDT, que tantos danos causou ao meio ambiente; forneceu às tropas americanas o agente laranja, um herbicida usado na Guerra do Vietnã para devastar matas inteiras onde os guerrilheiros se escondiam. A Monsanto leva má fama até quando não merece: por ter liderado a produção de organismos geneticamente modificados (em geral, erroneamente identificados como transgênicos, e sob esse apelido fortemente combatidos), uma inovação que colaborou para aumentar a produtividade agrícola e reduzir o uso de agrotóxicos, mas, mesmo assim, sofre crítica de uma parte dos ambientalistas.

Não que a Bayer seja assim uma santa. Durante a Segunda Guerra Mundial, a empresa forneceu ao regime nazista o gás zyklon B, que fazia funcionar as câmaras de gás onde foram mortos milhões de judeus. Mas no pós-guerra ela conseguiu reverter sua imagem, concentrando-se mais no setor de saúde do que na área química. Hoje, a Bayer é mais conhecida como a inventora da Aspirina. Ocorre, porém, que o mundo dos negócios dá voltas, e os planos da Bayer, sob seu novo chefão, Werner Baumann, são de tornar a área agrícola tão grande quanto a de saúde. É isso que explica a fusão — isso, e o fato de que os concorrentes estavam em temporada de acasalamento, com a Dow se unindo à DuPont, e a Syngenta sendo comprada pela ChemChina. Se permanecesse solteira, a Bayer perderia força.

Visão maniqueísta

Curiosamente, foi a Monsanto que deu a largada à temporada de casamentos quando tentou comprar a Syngenta, com três ofertas seguidas, em 2015. Não deu certo, e agora seu nome vai para os arquivos da história. A decisão da Bayer de descartar o nome da companhia foi anunciada menos de uma semana após as autoridades americanas aprovarem a fusão bilionária. O “sim” do Departamento de Justiça dos Estados Unidos demorou, mas já era esperado depois que autoridades antitruste do Brasil, da Rússia e da União Europeia deram o aval ao negócio. Todas as agências governamentais agiram em ampla cooperação — tanto que, ao aprovar a fusão, no dia 7 de fevereiro, o Cade exigiu que a Bayer venda, para a rival Basf, seus negócios no Brasil de sementes modificadas e herbicidas, que valem algo entre 7 bilhões e 9 bilhões de dólares. É a mesma condição imposta pelos demais países, com a inclusão de uma variedade de patentes e projetos de pesquisa nessa área.

A solução é clássica: exigir a venda de ativos para evitar uma concentração de mercado que possa prejudicar os consumidores (nesse caso, os produtores de alimentos). Mas alguns críticos a consideram insuficiente. Com a onda de megafusões no setor, a pesquisa e a venda de produtos químicos para a agricultura, em todo o mundo, vai ficar nas mãos de quatro companhias. Ao atender às exigências das autoridades, a Bayer concordou que seus futuros negócios de proteção à agricultura serão primordialmente os da Monsanto. E então será possível dizer se um organismo modificado, chamado por qualquer outro nome, terá o mesmo perfume.

Talvez sim. Ativistas ambientais, especialmente na Alemanha, berço da Bayer, chamaram a fusão com a Monsanto de “um casamento feito no inferno”. Não toleram os produtos da Monsanto, tenham o nome que tiverem. A Bayer não parece tão preocupada com isso. Em comunicado, disse que a Monsanto não será mais um nome de companhia, mas os produtos que vende estarão no portfólio da Bayer e continuarão a ser chamados por seus nomes — inclusive o combatido defensivo agrícola Roundup, cujo ingrediente ativo, o glifosato, é considerado um gatilho para o câncer e deve ser banido pela União Europeia até 2022.

Guerra do Vietnã: entre outros episódios pouco edificantes, a Monsanto criou o agente laranja, herbicida usado para devastar matas onde os guerrilheiros se escondiam | Bettmann/Getty Images

Em boa medida, a má reputação da Monsanto é calcada numa visão maniqueísta e simplificadora do mundo. Não apenas a grande maioria dos cientistas considera que os organismos geneticamente modificados (OGMs) são seguros para o consumo, mas a produtividade que eles permitem alcançar é uma das maneiras de prover as necessidades de um mundo que já tem mais de 7 bilhões de bocas. É provável que até o saldo ambiental da Monsanto seja positivo: os OGMs levaram à redução do uso de pesticidas. A ideia é usar a inovação para continuar melhorando a reputação da Monsanto, mesmo depois de desaparecida. Há três meses, a Monsanto comprou, por 125 milhões de dólares, a startup de biotecnologia Pairwise, que trabalha com um tipo completamente diferente de manipulação genética, conhecido como Crispr (lê-se “crísper”). “O Crispr é um modo muito mais eficiente e efetivo de fazer as coisas que queremos”, disse Bob Reiter, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento da Monsanto.

Para ter uma ideia de quão complicado é o Crispr, basta dizer de onde vem seu nome: é o acrônimo para “repetições palindrômicas clusterizadas (agrupadas) regularmente dispostas em curtos intervalos de espaço”. Esclareceu muito, não foi? A técnica vem de uma observação feita pelo cientista espanhol Francisco Mojica, primeiro no reino das arqueias, depois estendida para o reino das bactérias. Os crisprs são grupos de códigos de DNA que se repetem na estrutura da bactéria. Aparentemente, são uma defesa contra vírus (a bactéria replica os códigos dos vírus com que entra em contato para, quando os encontrar, combatê-los com mais rapidez e eficiência). E o modo como as bactérias fazem isso é encontrando as sequências que tenham o mesmo código em bactérias afetadas pelo vírus e as cortando. É como uma edição de vídeo: ao reconhecer um pedaço impróprio para o filme, o editor o corta e cola as duas extremidades que sobraram.

Esse processo está sendo usado por cientistas para mexer em áreas específicas do genoma de um organismo vivo. A promessa é mudar o DNA de qualquer coisa, tornando possível produzir, por exemplo, uma maçã mais doce, uma alface que dure mais tempo na prateleira sem estragar ou um arroz que resista melhor a inundações. A Monsanto não está sozinha nessa corrida. A DuPont tem planos de lançar produtos que usem a técnica de Crispr dentro de quatro ou cinco anos. Na Monsanto, a expectativa é ter produtos com essa técnica nos próximos dez anos. Nesse cenário, o grande dilema não será mais se os organismos modificados fazem bem ou mal à saúde, se preservam ou destroem o planeta. Será um dilema ético: até que ponto podemos interferir na natureza (inclusive humana) e escolher as características da próxima geração de seres vivos. Mas o vilão não será mais a Monsanto.