Após cinco anos encolhendo, fatia do bolo distribuída a acionistas cresceu

Com a economia um pouco melhor em 2017, as companhias de capital aberto pagaram 10% mais dividendos do que no ano anterior

Em tempos de economia fraca, as companhias de capital aberto vêm adotando uma série de medidas para enxugar custos e ganhar eficiência. Essas iniciativas, combinadas com o crescimento do produto interno bruto no ano passado — ainda que a uma modesta taxa de 1% —, resultaram em lucros maiores para essas empresas. Com isso, a fatia do bolo distribuída aos acionistas também cresceu. Em 2017, as empresas listadas na B3 (a bolsa brasileira) pagaram quase 80 bilhões de reais em dividendos — alta de 10% em relação ao ano anterior. Foi um respiro após cinco anos seguidos de queda no volume distribuído aos acionistas. Os dados são da consultoria Economatica e serão apresentados com mais detalhes na edição de MELHORES E MAIORES 2018, que chegará às bancas em agosto.

Embora o pagamento de dividendos tenha crescido no ano passado, ainda ficou longe das quantias distribuídas no início da década. De 2010 a 2014, a média paga por ano passou de 100 bilhões de reais, em valores corrigidos. “A chave é o ritmo da atividade econômica”, diz Karel Luketic, analista-chefe da XP Investimentos. Ele prevê que o volume de dividendos deverá crescer um pouco mais neste ano. “Em 2018, provavelmente vamos ver dividendos maiores do que em 2017, uma consequência natural da retomada da economia, ainda que ela seja menos intensa do que a inicialmente esperada.”

Em 2017, os bancos foram responsáveis por quase 36% dos dividendos pagos no país, ou pouco mais de 28 bilhões de reais. “Foi o maior valor registrado entre todos os setores desde 2010”, diz Einar Rivero, gerente de relacionamento institucional da Economatica. O Itaú, líder do ranking, distribuiu aos acionistas 10,7 bilhões de reais. Em termos práticos, um investidor recebeu quase 1 500 reais por lote de 1 000 ações do Itaú. Outro banco, o Santander, repassou 5,9 bilhões de reais em dividendos. “Em 2017, conseguimos ampliar as receitas e mantivemos os gastos sob controle”, diz Ángel Santodomingo, vice-presidente executivo do Santander.

O estudo da Economatica mostra que o setor de alimentos e bebidas foi o segundo que mais distribuiu lucros no ano passado — 11,5 bilhões de reais, quase 15% do total. Aqui, o destaque é a Ambev, maior fabricante de bebidas do país, com 8,8 bilhões de reais entregues aos acionistas. “Além do aumento das vendas da marca Brahma, tivemos desempenho favorável das marcas premium, que representaram mais de 10% do volume de cerveja que vendemos no país”, diz Nicole Brink, diretora de relações com investidores da Ambev. No segmento premium, as vendas da marca Budweiser cresceram 30% no ano passado.

De acordo com a Lei das Sociedades Anônimas, toda empresa de capital aberto deve distribuir aos acionistas, no mínimo, 25% do lucro líquido. As empresas que ocupam as primeiras posições no ranking da Economatica vêm repassando bem mais do que o mínimo legal. Na operadora de meios de pagamento Cielo, a parcela de lucros pagos no ano passado foi de 70%. Isso apesar de o lucro da empresa ter encolhido 1,2% em 2017, segundo dados de MELHORES E MAIORES — recuo atribuí-do ao aumento da concorrência no setor. “Pretendemos manter a política de distribuir a maior parcela possível de lucros na forma de dividendos, desde que isso não comprometa nossos investimentos”, diz Victor Schabbel, diretor de relações com investidores da Cielo.

Em tempos de volatilidade na bolsa, muitos investidores veem nas ações que pagam dividendos generosos uma opção mais segura. Conforme os analistas, em geral, são ações de empresas com boa gestão, posição de liderança, forte geração de caixa e de setores que não necessitam de investimentos pesados. “O pagamento consistente de dividendos tende a refletir a saúde financeira das companhias”, diz Luketic, da XP. Mas os especialistas não aconselham a escolha de ações apenas com base na distribuição de dividendos. Afinal, a parte do lucro que uma empresa destina aos acionistas deixa de ser aplicada no próprio negócio. Por isso, o mais importante é avaliar se as companhias estão usando o capital da melhor forma possível. “O principal ponto é ver se as empresas tomaram as melhores decisões para gerar valor aos acionistas, seja pagando dividendos, seja investindo em projetos novos, fábricas ou máquinas”, afirma Felipe Silveira, analista da corretora Coinvalores. “O que os investidores devem levar em consideração, no fim das contas, são as estratégias eficazes de negócios.”