Carta de EXAME | Ao que importa

Em meio às crises fabricadas pelo próprio governo, há indícios de que o país está andando — devagar, mas para a frente

Não é segredo que Jair Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto graças ao uso competente das redes sociais. Com apenas 0,5% do tempo total de propaganda eleitoral na TV, Bolsonaro apostou tudo em mídias como Twitter, WhatsApp e Facebook. Deu certo. Conseguiu eleger-se presidente da República com 46% dos votos válidos no primeiro turno e 54% no segundo. Passada a eleição, e já entrando em seu terceiro mês de mandato, Bolsonaro continua disparando seus posts e tuítes polêmicos. Ele se dirige a seus seguidores nas redes sociais como se ainda estivesse em campanha, esquecendo-se de que agora governa um país de quase 210 milhões de pessoas.

Um de seus alvos preferidos tem sido a imprensa. No último dia 10, o presidente usou sua conta no Twitter para compartilhar uma notícia falsa, atribuindo à repórter Constança Rezende, de O Estado de S. Paulo, a declaração de que a cobertura do jornal sobre as movimentações suspeitas de um ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente, teria “a intenção de arruinar o governo”. O áudio compartilhado pelo presidente como prova da tentativa de “derrubar o governo com chantagens, desinformações e vazamentos”, porém, não mostra a repórter fazendo tal afirmação — ela diz que as denúncias contra Flávio é que poderiam arruinar o presidente.

Dias antes desse ataque à imprensa, Bolsonaro usara o Twitter para compartilhar um vídeo com conteúdo pornográfico durante o Carnaval. O objetivo do presidente era criticar os blocos de rua, mas a publicação da cena grotesca gerou reação negativa até mesmo de seus apoiadores. Se as redes sociais ajudaram Bolsonaro a ganhar a eleição, agora, utilizadas de forma leviana, estão acelerando o desgaste de sua imagem. E ainda nem chegamos a 100 dias de governo.

A boa notícia é que, em meio às crises fabricadas pelo próprio governo, há indícios de que o país está andando — devagar, mas para a frente. Como nota o colunista J.R. Guzzo nesta edição, em meio à proliferação de bobagens que não ajudam em nada o Palácio do Planalto, é possível enxergar alguns “sinais vitais” do país, como a inflação sob controle, o dólar estável e uma reforma da Previdência que deve ser aprovada. Esta edição traz também uma entrevista com o vice-presidente Hamilton Mourão, que tem se revelado a face mais sensata do governo. Mourão fala sobre a importância de implementar reformas no Brasil. “Hoje, as pessoas se perdem muito em discussões secundárias em vez de debater sobre aquilo que é o mais importante para o país”, afirma.

EXAME tem procurado ouvir os principais representantes do governo Bolsonaro. Nesta edição, apresenta também uma entrevista com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias. Nas edições anteriores, ouviu outros nomes importantes do governo. Há gente trabalhando em vários escalões. Se o presidente ajudar, seu governo ainda pode dar certo.