Allan Mecham investe e cresce 25 vezes mais que bolsa de NY

O quase desconhecido Allan Mecham é um dos investidores mais bem-sucedidos dos Estados Unidos. Morando em Salt Lake City e seguindo uma estratégia parecida com a de Warren Buffett, ele conseguiu um retorno 25 vezes maior que o da bolsa de Nova York

São Paulo – O investidor Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo, tem uma série de discípulos. Nem todos, claro, conseguem ganhar dinheiro de verdade seguindo suas famosas regras. Aos 34 anos, o americano Allan Mecham, dono da gestora Arlington Value Management, pode dizer que está no grupo dos discípulos que vêm dando certo.

Seu fundo teve um retorno de 490% desde que foi criado, em 2000 — uma valorização quase 25 vezes maior que o índice S&P500, da bolsa de Nova York. Como Buffett, Mecham, que administra 110 milhões de dólares, diz que seu bom desempenho se deve ao fato de morar longe de Wall Street.

Seu escritório fica em Salt Lake City, no estado de Utah, a 3 000 quilômetros de Nova York (Buffett costuma ser chamado de “oráculo de Omaha”, em referência à cidade do Meio-Oeste americano onde vive desde que nasceu). Com isso, Mecham diz evitar os burburinhos que fazem a maioria dos gestores “comprar e vender ações pelos motivos errados”.

O segredo, afirma, é prestar mais atenção nas empresas e menos atenção nas previsões para a economia mundial, os juros, a inflação ou para a deterioração da crise na Europa. Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista a EXAME.

EXAME – Crises como a atual levaram o senhor a mudar sua estratégia?

Allan Mecham – De forma alguma. Não mudei nada desde a criação do fundo. O que faço é comprar ações de empresas que me permitem prever como estarão daqui a cinco ou dez anos. 

EXAME – Dá para prever isso?

Allan Mecham – Dependendo da empresa, sim. Projeto se a concorrência pode aumentar muito, se a companhia pode ficar obsoleta em termos tecnológicos e se seus consumidores são fiéis. São todas variáveis ligadas à longevidade do negócio.

Quando estou seguro sobre esses pontos, parto para a avaliação de preço — só compro quando a ação está barata. Mas a ordem é essa: primeiro vêm os aspectos qualitativos, depois o preço. Não adianta comprar uma empresa barata quando há dúvidas sobre sua capacidade de gerar lucro de forma constante no futuro.  

EXAME – Se a ação fica cara, você vende?

Allan Mecham – Não necessariamente. É sempre um cálculo entre o preço da ação e o valor que a empresa pode gerar. Também é preciso olhar o mercado, para ver se há oportunidades mais interessantes de investimento. Vender é muito mais difícil do que comprar, porque é complicado saber se a empresa já deu tudo o que tinha de dar.


Um caso que deu certo para nós foi o da Heico (empresa que produz componentes tecnológicos para aeronaves). Ela opera num nicho com fortes barreiras à entrada, porque é complicado dominar a tecnologia e há entraves regulatórios. Assim, consegue negociar bem seus preços. Vendemos a ação recentemente (ela valorizou quase 80% em cinco anos). Mas adoraríamos voltar a comprá-la. 

EXAME – Quase todo o patrimônio do fundo está aplicado em ações de empresas americanas. Por quê?

Allan Mecham – Isso tem mais a ver com as minhas limitações do que com o fato de não haver nada atrativo fora dos Estados Unidos. Entendo a cultura americana, as regras jurídicas, a contabilidade — e sei pouquíssimo sobre isso em outros paí­ses.

Já comprei ações de multinacionais não americanas, como Diageo e Heineken, mas não gasto muito tempo avaliando negócios internacionais. Há mais de 6 000 companhias abertas na bolsa americana, é um leque considerável de opções. 

EXAME – A perspectiva de recuperação da economia dos Estados Unidos está criando mais oportunidades? 

Allan Mecham – Não para o tipo de investimento que faço. Sempre haverá crises e altos e baixos na economia. Não tento prevê-los nem evitá-los. Só tento comprar ações de boas empresas que possam crescer muito nos momentos bons e sobreviver aos ruins. Mas essa crise, obviamente, é única, assim como as consequências que ainda pode gerar.

EXAME – Que consequências? 

Allan Mecham – Estão bem claros os efeitos devastadores que a confiança sem limites num tipo bem perverso de modelo financeiro pode provocar. Esses modelos são como uma religião: quando você acredita neles, parece que são capazes de resolver todos os problemas.

As consequências mais imediatas da crise são a redução do consumo, o aumento da poupança e a maior regulação. Mas as cicatrizes serão longas: bem menos americanos estão dispostos a aplicar em fundos de ações, o que mostra uma desconfiança em relação ao mercado, que terá impacto na vida das empresas.

É possível que, no longo prazo, tudo volte a ser como era. É da natureza de nossa economia mudar para se adaptar a novos cenários. O curto prazo, porém, será conturbado.