O crescimento dos países ricos agora é para valer?

Depois de uma década de crescimento baixo, a economia dos países ricos volta a dar sinais de recuperação mais acelerada

Nos quase dez anos que se passaram desde a crise financeira de 2008, os países ricos se acostumaram a um cenário econômico desapontador: consumo abaixo das expectativas, inflação quase nula e um desempenho pífio do produto interno bruto. Nem os remédios emergenciais aplicados pelos bancos centrais dos Estados Unidos, da Europa e do Japão — taxas de juro próximas de zero e programas de compra de títulos em poder dos bancos — foram suficientes para fazer a economia se reajustar e entrar numa recuperação mais acelerada.

O cenário, no entanto, começou a mudar neste ano. Hoje, para onde quer que se olhe, os sinais são de que os países ricos caminham para uma virada. No Japão, as exportações cresceram em agosto no ritmo mais rápido em quatro anos. Na zona do euro, o desemprego atingiu o menor patamar desde 2009, e o nível de confiança na economia é o maior em uma década. Nos Estados Unidos, a atividade industrial está no ritmo mais aquecido em 13 anos. E a bolsa americana — assim como a brasileira — vem batendo recorde atrás de recorde. Depois de uma década patinando, os países ricos enfim parecem ter entrado numa fase de otimismo.

Um marco da nova etapa foi a decisão tomada no dia 20 de setembro pelo Federal Reserve System (Fed), o banco central americano, de reduzir a quantidade de títulos comprados de bancos privados ao longo da última década. É um montante equivalente a 4,5 trilhões de dólares. A compra de títulos ficou conhecida pelo nome de quantitative easing (“afrouxamento quantitativo”) e tinha como principal objetivo injetar mais dinheiro nos bancos e incentivar a concessão de empréstimos a taxas de juro mais baixas. A partir deste mês, o Fed começa a vender gradual-mente esses títulos, revertendo o processo.

A iniciativa se soma ao aumento da taxa de juro, e pretende deixar a política monetária dos Estados Unidos alinhada com uma economia em expansão. Do outro lado do Atlântico, a expectativa é que o Banco Central Europeu também faça uma redução de seu programa de compra de títulos a partir do ano que vem. “Com a recuperação se firmando, as políticas monetárias não convencionais estão perdendo sua justificativa”, diz Otaviano Canuto, diretor executivo do Banco Mundial.

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A virada nas políticas monetárias só não é mais radical por causa de uma situa-ção que ninguém ainda sabe direito como explicar: a inflação continua baixa mesmo com um mercado de trabalho aquecido e com a atividade econômica em alta. Em outros momentos parecidos, a combinação já teria feito os salários e os preços dos produtos aumentarem.

Por alguma razão, isso vem demorando para acontecer, e os economistas ainda testam hipóteses sobre o que pode estar se passando. “Na minha visão, mesmo com o desemprego baixo, os rendimentos salariais continuam perdendo participação no PIB, o que pode estar pressionando os preços para baixo”, diz Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional e professor de economia na Universidade Harvard (veja entrevista na pág. 128).

A pressão inflacionária está no radar do Fed. Segundo o último dado, os preços ao consumidor tiveram alta de apenas 1,7% nos Estados Unidos, ainda abaixo da meta de 2%. É por isso que a entidade não parece estar com pressa para elevar com mais vigor suas taxas de juro. Desde o fim de 2015, as taxas nos Estados Unidos saíram da faixa de 0% a 0,25% para um intervalo entre 1% e 1,25%. A expectativa é que o Fed continue a aumentar os juros em doses homeopáticas até chegar a um patamar de 2,75%.

Já o Banco Central Europeu manteve sua principal taxa de juro nula e não deu previsão para o início do aperto monetário. “Estamos cada vez mais confiantes de que a inflação acabará caminhando para níveis em linha com  nosso objetivo, mas também sabemos que um nível bastante substancial de expansão monetária ainda é necessário para que a trajetória de alta da inflação se materialize”, disse Mario Draghi, presidente do BCE, no fim de setembro.

Janet Yellen, do Fed: seu mandato no banco central americano acaba em fevereiro | Joshua Roberts/Reuters

Embora a perspectiva de curto prazo da economia tenha melhorado, ainda existem vulnerabilidades de médio prazo que precisam ser analisadas com lupa. A produtividade continua crescendo num ritmo mais baixo do que nas décadas anteriores, o que impede um crescimento econômico mais forte e sustentável. E a ameaça de os Estados Unidos adotarem medidas protecionistas contra o México ou contra a China — o que causaria grande prejuízo para o mercado de trabalho em setores de bens e serviços — ainda não está descartada. “O protecionismo encarece a importação, o que torna o trabalho dos bancos centrais muito mais difícil”, diz Karthik Sankaran, diretor de estratégia global da consultoria Eurasia, especializada em análise de risco político.

O fator Trump, aliás, é um risco que extrapola o sistema financeiro. Decisões inesperadas do presidente americano são um potencial catalisador de uma crise, com efeitos que podem frear a recuperação econômica. “Vivemos num ambiente de crise iminente, pois existem muitas fontes de problemas no mundo. O que mais preocupa são as eventuais decisões tomadas pelo atual ocupante da Casa Branca”, diz Jean-Pierre Lehmann, professor de economia na escola de negócios IMD, na Suíça.

Nos próximos meses, o presidente americano terá de definir um nome para ocupar a presidência do Fed. O mandato da atual presidente, Janet Yellen, termina em fevereiro de 2018, e Trump vem dizendo que não sabe se vai nomeá-la novamente ou indicar outra pessoa para o cargo. Dependendo de quem for escolhido, é possível que haja uma mudança de rumo na política de aumento de juros ou de venda de títulos públicos, com efeitos para toda a economia global. Se Trump não atrapalhar, o mundo só tem a ganhar com a recuperação dos países ricos.