Beira Rio tem agilidade para fisgar o cliente

A estratégia de produzir calçados de baixo custo e seguindo as tendências da moda ajuda a BEIRA RIO a crescer na contramão do setor

setor calçadista brasileiro é um dos que mais têm sofrido com o aumento da concorrência externa. No ano passado, a produção nacional de 909 milhões de pares foi 7% inferior à de 2014. Com isso, o país caiu do terceiro para o quarto lugar entre os maiores fabricantes mundiais de calçados — está atrás de China, Índia e Vietnã —, perdendo espaço também entre os exportadores. No movimento contrário, desponta a gaúcha Beira Rio. Nos últimos três anos, a empresa aumentou sua produção em 50%, alcançando 97 milhões de pares em 2017. Suas exportações também são crescentes e respondem por 12% da receita. Com foco no público feminino da classe C, a Beira Rio foi uma das primeiras no setor a adotar o modelo de fast fashion (moda de rápida produção e descarte), levando as tendências de moda para lançamentos quinzenais em suas cinco marcas de produtos, que atendem de crianças a idosos. 

“Agregamos o valor de moda a calçados de baixo preço”, diz Roberto Argenta, presidente da Beira Rio. “As novidades constantes atraem o consumidor e aumentam o giro dos nossos produtos nas lojas.” A estratégia se consolidou em 2017, quando a Beira Rio faturou 716 milhões de dólares, um crescimento de quase 13% em relação ao ano anterior. A empresa se destacou ainda em rentabilidade sobre o patrimônio (24%) e foi uma das que mais geraram riqueza por empregado (48 200 dólares), despontando pelo segundo ano consecutivo como a melhor do setor têxtil. 

Roberto Argenta, presidente da Beira Rio: 97 milhões de pares de calçados fabricados no ano passado, com foco em mulheres da classe C | Germano Lüders

As vendas da Beira Rio concentram-se em calçados de até 79 reais, distribuídos por uma rede de 26.000 pontos de venda país afora. A sapatilha Moleca, lançada há 35 anos, é o carro-chefe, com vendas próximas a 30 milhões de pares no ano passado. Para enfrentar o baixo crescimento do mercado interno, a Beira Rio tem ampliado a linha de produtos, apostando em calçados com maior valor agregado. É o caso dos tênis, que tiveram uma boa aceitação no último ano e apresentam um preço 30% superior ao das sapatilhas. Uma das marcas mais novas, a Modare Ultraconforto, de calçados voltados para o conforto do pé, como o nome sugere, foi lançada em 2016 e já responde por 9% das vendas da empresa.

Parte do sucesso da marca Modare se deu no mercado externo, que vem aumentando sua participação nas receitas da Beira Rio. Embora despache calçados para 85 países, o foco da Beira Rio está nos mercados da América Latina, que concentram mais de 70% de seu faturamento com exportações. “As semelhanças de cultura, clima e língua facilitam a aceitação dos nossos produtos na América Latina”, afirma Argenta. Além disso, a proximidade geográfica também proporciona um ganho logístico para a Beira Rio na competição com o calçado chinês, principalmente em produtos que acompanham as oscilações de moda e exigem um ciclo curto entre a produção e a distribuição.

Fundada em 1975 no município de Igrejinha, uma tradicional região calçadista gaúcha, a Beira Rio foi uma das poucas empresas do setor que não levaram a produção para o Nordeste, na busca de redução de custos para enfrentar a concorrência chinesa — suas 11 unidades fabris permanecem no Rio Grande do Sul. Outra tradição da Beira Rio está na formação interna da equipe, composta hoje por mais de 11.000 funcionários. Seus quatro diretores atuais têm pelo menos 15 anos de casa, e os cerca de 30 gerentes estão na empresa há mais de dez anos. “Adotamos um processo de formação continua-da e sistemas claros de meritocracia”, diz Argenta. “Quem demonstra mais capacidade cresce na empresa.” E a empresa, por seu lado, cresce no mercado.