A volta dos IPOs

Dezenas de empresas se preparam para abrir seu capital na bolsa de valores brasileira, num ano que promete ter volume de operações recorde

Assim como os vinhos, as empresas que abrem o capital na bolsa de valores podem ser divididas em safras: há anos bons, há anos regulares, há anos horrorosos. De 2004 para cá, quando os IPOs — sigla em inglês para oferta inicial de ações — entraram na rotina dos investidores brasileiros, houve de tudo um pouco. Bons anos, como 2004, em que chegaram à bolsa empresas como Natura e Porto Seguro, apostas que renderam retornos memoráveis. Anos razoáveis, como 2005. E houve, como destaque absoluto, as péssimas safras 2006 e 2007, quando 90 companhias foram à bolsa e, em sua maioria, provaram-se maus investimentos.

Na média, o histórico recente dos IPOs no Brasil está mais para ruim do que para bom. Apesar disso, houve no caminho inegáveis casos de sucesso. Nos últimos seis anos, surgiu no país uma nova geração de empresários que buscaram no mercado de capitais o combustível para crescer — e, com isso, enriquecer quem investia com eles. Foi assim com uma série de empreendedores, como João Alves de Queiroz Filho, da Hypermarcas, Elie Horn, da Cyrela, ou Eike Batista, do grupo EBX. Quem será o próximo dessa lista? Ao que tudo indica, o número de candidatos será grande em 2011. “Se as coisas continuarem no ritmo atual, neste ano teremos o maior volume de aberturas de capital da história”, diz Edemir Pinto, presidente da BM&F Bovespa. Ele espera que as novatas levantem mais de 55 bilhões de reais no ano.

Se a safra 2011 vai ser boa ou não para os investidores, é cedo para dizer. Mas o mês de janeiro deixa claro que se vive, hoje, uma euforia que não era vista desde o estouro da crise financeira mundial em 2008. Em janeiro, havia oito ofertas iniciais de ações registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No dia do fechamento desta edição, a varejista de calçados Arezzo concluía seu concorrido lançamento de ações.

A operadora de shoppings Sonae Sierra, a fabricante de autopeças Autometal e a companhia de petróleo do Grupo Queiroz Galvão tentavam levantar, somadas, mais de 4 bilhões de reais. Também em janeiro, a IMC, holding de alimentação do fundo de private equity Advent, e o grupo de entretenimento Time for Fun registraram seus pedidos de oferta na CVM. No fim do mês, empresários, advogados e banqueiros de investimentos trabalhavam dia e noite para finalizar os números do quarto trimestre de 2010 e, assim, deixar as companhias prontas para o IPO no início do ano. “Fazia tempo que não trabalhávamos tanto”, diz o advogado Sérgio Spinelli, especialista em mercado de capitais do Mattos Filho Advogados.


.exameTable2 {border-width:1px; border-color:#d9d9d9; border-style:solid; margin:0; padding:0; width: 590px; border-collapse:collapse;}
.exameTable2 td, .baseTable th{solid #CCC; padding:5px 6px; margin:0; font-family:Arial, Helvetica, sans-serif; font-size:12px;border-width:1px; border-color:#d9d9d9; border-style:solid;}
.exameTable2 th{text-align:center;background:#1d6c88; color:#FFFFFF; font-family:Arial, Helvetica, sans-serif; font-size:13px; font-weight:bold; padding:5px;}
.exameTable2 tr{padding:0; margin:0;}
a:hover {text-decoration:underline;}

.subtitle { color: #656565; font-size: 12px; }

Empresas com chances de ir à bolsa
Empresa
Ramo
Previsão
IMC
Alimentício
Controlada pelo fundo de private equity Advent, a empresa, que administra as redes Viena e Frango Assado, fará sua segunda tentativa de abrir o capital
DESENVIX
Energia renovável
A companhia de energia renovável já registrou sua oferta, mas ainda não divulgou o cronograma da emissão de ações
Companhia de Águas Brasil
Infraestrutura
A empresa de saneamento paranaense também não apresentou o calendário da sua oferta, já registrada na CVM
Time For Fun
Entretenimento
Maior promotora de shows da América Latina, a T4F registrou sua oferta de ações no fim de janeiro
Magazine Luiza
Varejo
Após seis anos de especulação, a rede varejista de Luiza Helena Trajano pretende abrir o capital no primeiro semestre do ano
Aché
Farmacéutico
Maior laboratório nacional, o Aché fará uma emissão de dívida e, em seguida, sua abertura de capital
Webjet
Aviação
A companhia aérea da família Paulus, ex-controladora da CVC, já contratou os bancos que coordenarão sua oferta de ações, que deve acontecer nos próximos meses
Azul
Aviação
Fundada pelo empresário David Neeleman, a Azul está conversando com os bancos de investimento para definir os termos de seu IPO
Lafarge
Construção civil
A fabricante de cimento francesa fará um IPO de sua subsidiária brasileira
Vale Fertilizantes
Agronegócio
A mineradora brasileira pretende emitir ações de sua unidade de fertilizantes e já contratou os bancos que coordenarão o processo
Vale Logística
Transportes
Outro projeto da Vale, a abertura de capital de sua companhia de logística deve acontecer após o IPO da Vale Fertilizantes
Camil
Alimentação
O IPO da maior distribuidora de arroz da América Latina, com faturamento de 1,5 bilhão de reais, é esperado para o primeiro semestre
Inbrands
Varejo
A emissão de ações da holding de moda pode ser impulsionada pelo sucesso do IPO da Arezzo
CVC
Turismo
Comprada pelo fundo americano Carlyle há um ano, a maior operadora de turismo do país está escolhendo os bancos que coordenarão sua oferta de ações
Enesa
Engenharia
A empresa, que faz parte da cadeia de fornecedores da Petrobras, já discute com os bancos a estrutura de sua abertura de capital
McDonald’s
Alimentação
Comprado em 2007 por um consórcio de investidores, o McDonald’s da América Latina deve ir à bolsa no segundo trimestre do ano — mas na bolsa de Nova York
Drogaria São Paulo
Farmacêutico
Oficialmente, a empresa planeja ir à bolsa no início de 2012 — mas o aquecimento do mercado pode antecipar os planos
Petroserv
Petróleo
É uma das empresas do setor de óleo e gás que vão à bolsa. O IPO é esperado para o primeiro semestre
Seadrill
Petróleo
Com contratos bilionários de fornecimento com a Petrobras, a empresa norueguesa decidiu abrir o capital de sua subsidiária brasileira
Qualicorp
Seguros
Outra empresa do Carlyle, a gestora de seguros Qualicorp pode abrir seu capital no fim do ano
Loius Dreyfus
Açúcar e etanol
O grupo francês, que comprou a Santelisa Vale em 2009, abrirá o capital de sua operação brasileira
ETH
Açúcar e etanol
A abertura de capital da companhia de açúcar e álcool do grupo Odebrecht é esperada para o fim do ano
BR Pharma
Farmácias
A rede de farmácias deve ser a primeira empresa do BTG Pactual, de André Esteves, a abrir o capital na bolsa
BMG
Financeiro
Após idas e vindas, o mineiro BMG conversa com bancos para estruturar seu IPO para 2011
Grupo Multi
Educação
A companhia de educação, dona das redes Wizard e Yázigi, está preparando sua abertura de capital — que acontecerá no fim do ano ou no início de 2012
Pague Menos
Farmácias
Com mais de 400 lojas e faturamento de 2 bilhões de reais, a rede de farmácias já contratou os bancos que farão seu IPO

Quem vem por aí

A lista de candidatas à abertura de capital em 2011 é grande — e repleta de nomes conhecidos. Nas últimas semanas, EXAME elaborou uma seleção das empresas que pretendem aproveitar o atual momento positivo para ir à bolsa. Algumas se destacam. A Azul, companhia aérea fundada pelo empresário David Neeleman, está se preparando para abrir o capital neste ano. Neeleman tem alguma experiência no assunto. Em 2002, a JetBlue, companhia americana fundada por ele, fez seu IPO na bolsa americana, e as ações valorizaram 67% no primeiro dia (para cair, é bem verdade, isso e mais um pouco nos anos seguintes).

Outra empresa aérea, a Webjet, controlada pela família Paulus, fará o mesmo. A operadora de turismo CVC planejou seu IPO para o segundo semestre. O laboratório farmacêutico Aché, maior do país, também. O Magazine Luiza, rede varejista presidida por Luiza Helena Trajano, finaliza os preparativos para seu aguardado IPO. E a mineradora Vale já contratou os bancos que farão a abertura de capital de suas subsidiárias de fertilizantes e logística. Dezenas de empresas, de setores tão distintos quanto consumo, varejo, infraestrutura e óleo e gás, completam a lista.

Por que o ano começou tão aquecido? Os motivos, claro, são vários. O pano de fundo dessa história toda é o interesse dos investidores estrangeiros pelo Brasil — essa é a condição necessária para que um IPO saia do papel, já que eles respondem por até 80% da demanda de uma emissão de ações. Ajudou muito o fato de a safra 2010 de IPOs ter sido excelente para os investidores. As ações de empresas como a Multiplus, gestora do programa de fidelidade da TAM, a Mills Engenharia e a exploradora de petróleo HRT tiveram valorizações de 96%, 78% e 52%, respectivamente.

Segundo um levantamento da Renaissance Capital, os IPOs da América Latina tiveram o melhor desempenho do ano na comparação com outras regiões do mundo. Isso contribuiu para amenizar o trauma surgido com os maus resultados das ações de empresas que abriram o capital em 2006 e 2007. Além do impulso dado pelos bons resultados, a gigantesca capitalização da Petrobras, em setembro, fez com que diversos projetos ficassem parados, com empresários temerosos de que não haveria demanda suficiente para todo mundo. Ninguém queria competir com a maior emissão de ações da história. Feita a capitalização, a fila começou a andar.


Há, ainda, outro fator-chave. Enquanto a Bovespa como um todo teve um mau desempenho em 2010, empresas ligadas a setores como consumo chegaram perto de seus picos históricos. As ações de Ambev e Lojas Renner, por exemplo, tiveram valorização de cerca de 50% no ano. Para investidores que querem pegar carona no crescimento econômico brasileiro, portanto, há poucas opções disponíveis a preços razoáveis. Daí os atrativos de um IPO: quando uma empresa vai à bolsa, é natural que seja negociada a valores mais baixos que suas concorrentes de capital aberto.

No jargão do mercado, com um “desconto” em relação a seus pares. A rede de farmácias Droga Raia foi avaliada em aproximadamente 15 vezes sua geração de caixa durante a abertura de capital, no fim do ano passado — 25% menos que a rival Drogasil, que já tinha capital aberto. A emissão de ações foi um sucesso, e os papéis ainda subiram 8% no dia do IPO.
É de esperar, portanto, que empresas ligadas ao aumento da renda do brasileiro chamem a atenção dos investidores — não é à toa que companhias como Magazine Luiza ou Camil, maior distribuidora de arroz da América Latina, estejam se preparando para seus IPOs. Mas há outros setores da economia repletos de candidatos à abertura de capital nos próximos 12 meses. Impulsionadas pelos investimentos da Petrobras, empresas de óleo e gás formam um desses grupos.

Nos próximos meses, duas delas, a Petroserv e a subsidiária brasileira da norueguesa Sea Drill, devem emitir ações na Bovespa para financiar sua expansão. “Há muitos setores da economia brasileira mal representados na bolsa”, diz Will Landers, gestor do fundo Blackrock, que tem cerca de 7 bilhões de dólares investidos na Bovespa. “São poucas as empresas de infraestrutura, por exemplo.” Diante do interesse dos investidores, EXAME apurou que a subsidiária brasileira da gigante francesa de cimento Lafarge abrirá seu capital na Bovespa.

As empresas de fundos de private equity também se destacam na lista. Esses fundos compram participações ou o controle de empresas para tentar revendê-las depois por um preço maior. Com um mercado acionário nas condições atuais, é difícil escapar da tentação de vender ações e embolsar lucros. O brasileiro Tarpon, que tem 25% da Arezzo, é o primeiro da fila. O Advent já tentou abrir o capital da IMC, empresa que administra as redes de restaurantes Viena e Frango Assado, em 2009. Mas a demanda fraca fez com que os planos fossem adiados. Dado o momento atual, o Advent decidiu que valia a pena tentar de novo.

O Gávea, dos primos Armínio e Luiz Fraga, pretende levar três de suas empresas à bolsa — além de Time for Fun e Azul, a operação latino-americana do McDonald’s, comprada em 2007 por um consórcio de investidores, emitirá ações na bolsa de Nova York. Finalmente, o Carlyle pretende abrir o capital da CVC e, a depender das condições do mercado, também da gestora de planos de saúde Qualicorp, comprada em julho por 1,1 bilhão de reais.  


É impossível, em janeiro, vislumbrar o volume de aberturas de capital para o ano inteiro — o que há são projeções com base na manutenção das atuais condições de temperatura e pressão. Existem fatores que podem atrapalhar tudo, e também fatores que podem acelerar ainda mais o ritmo das operações. Em 2010, um início de ano promissor descarrilou em razão da crise da dívida na Grécia e do vai não vai da capitalização da Petrobras. As recentes manifestações no Egito ajudam a lembrar que o imponderável sempre pode surgir para atrapalhar planos — e a ele se somam incertezas quanto à re­cuperação econômica americana, à solução da crise da dívida europeia, à freada chinesa e por aí vai. Mas existem, também, movimentos que podem tornar o ano ainda mais aquecido. Em aberturas de capital, o sucesso tende a gerar mais negócios, numa corrida para aproveitar um bom momento que não durará para sempre. Será assim também em 2011. Caso o IPO do Magazine Luiza dê certo, a rival Máquina de Vendas acelerará seus planos? A abertura de capital da Louis Dreyfus, controladora da usina de açúcar e etanol Santelisa Vale, fará a concorrente ETH antecipar seu IPO? O IPO do Aché levará a Eurofarma à bolsa?

Critério

Esse “fator sucesso” foi um dos principais desencadeadores da farra de 2007. Assim que perceberam que bastava oferecer aos investidores um desconto em relação à cotação da pioneira Cyrela, os banqueiros de investimento trataram de levar à bolsa um número enorme de construtoras e incorporadoras, muitas delas micos absolutos. Foram 15 só em 2007. Corre-se risco semelhante desta vez? Não se devem menosprezar a criatividade dos banqueiros (um deles disse a EXAME que, “dependendo do que acontecer nos próximos meses, uma empresa que ainda nem existe pode abrir o capital até o fim do ano”) e a falta de critério de investidores eufóricos. Mas, felizmente, ainda há sinais de racionalidade.

Dos 11 IPOs do ano passado, apenas um (da Droga Raia) saiu no teto da faixa de preço esperada pelos vendedores, uma evidência de que os investidores não estão comprando qualquer coisa a qualquer preço. “O mercado está mais criterioso, não está aberto a muitas das coisas que vimos em 2007”, diz José Olympio Pereira, copresidente do banco de investimento Credit Suisse. Entre as lições aprendidas em 2007 está a importância de comprar IPOs grandes, de empresas cujas ações tenham uma negociação diária mínima.

A abertura de capital de companhias sem essas condições criou uma série de zumbis na bolsa — ações sem liquidez, sem cobertura de analistas, que acabam abandonadas. “Hoje, emissões inferiores a 300 milhões de dólares dificilmente passariam no teste do mercado”, diz Alexandre Bettamio, presidente do Bank of America Merrill Lynch no Brasil. Empresas-projeto, que usam o dinheiro levantado na bolsa para simplesmente existir, também teriam maior dificuldade para ir à bolsa. Mas, de novo, cabe aqui a devida cautela — é impossível saber como o ano vai acabar.


O país tem muito a ganhar caso essa racionalidade se mantenha em patamares mínimos. Um mercado de capitais sólido é um pilar fundamental para o desenvolvimento econômico. Para empresas que aproveitam a oportunidade direito — e não como mera chance de pegar o embalo e embolsar um dinheiro —, ir à bolsa pode significar uma oportunidade única de se fortalecer. Basta olhar para o desempenho da Hypermarcas desde sua abertura de capital, em 2008, para constatar quanto uma empresa em crescimento vertiginoso pode ganhar tendo acesso franqueado ao mercado de capitais. Em dezembro, a Hypermarcas comprou a farmacêutica Mantecorp por 2,5 bilhões de reais e usou suas ações como moeda de troca.

Os acionistas do laboratório Aché decidiram que está na hora de abrir o capital para ter a mesma flexibilidade. “Eu não tenho essa ferramenta, e uma empresa aberta tem”, diz José Ricardo Mendes da Silva, presidente do Aché. “Com a abertura de capital, vamos ganhar fôlego para crescer mais rápido.” O Aché tem uma geração de caixa de 420 milhões de reais, e seu IPO tem tudo para ser um dos principais do ano. Mas a BM&F Bovespa estima que, além de grupos como o Aché, existam mais de 15 000 empresas médias brasileiras com tamanho suficiente para abrir o capital — e espera que 200 delas o façam até 2015.

E o investidor? O que fazer para evitar os erros do passado? Na euforia de 2006 e 2007, entrou na moda “flipar” ações de empresas que iam à bolsa — ou seja, comprá-las e vendê-las rapidamente, no dia do IPO, com a certeza então reinante de que essa estratégia só podia dar certo. Claro que esse oba-oba tinha hora para acabar. (Em 2010, aliás, ocorreu fenômeno inverso: muitos dos IPOs que brilharam ao longo do ano, como o da Multiplus ou o da operadora de shoppings Aliansce, tiveram um mau desempenho no dia do lançamento de ações.) É desnecessário dizer que não existem fórmulas para ganhar dinheiro com aberturas de capital.

“Mas é certo que comprar ações de empresas que vão à bolsa é mais arriscado que investir em companhias conhecidas”, diz Landers, do Blackrock. De acordo com um estudo da escola de negócios Insper, empresas que têm fundos de private equity entre seus sócios rendem mais que as outras, após a ida à bolsa. Isso acontece, segue o estudo, porque esses fundos ajudam a preparar as empresas para a vida de companhia aberta. Mas, é claro, há inúmeros exemplos brasileiros de empresas que tinham fundos entre seus sócios e acabaram tão micadas quanto as outras. Edemir Pinto, da BM&F Bovespa, tem uma recomendação ao pequeno investidor: “Abertura de capital é coisa para profissionais. Quem for picado pela mosca do IPO deve, além de estudar a empresa a fundo, investir uma quantia pequena”. E torcer para ter apostado na safra certa.

Com reportagem de Thiago Bronzatto e Alexandre Moschella