A volta do 11 de setembro

A tragédia de 11 de setembro impôs mudanças inesperadas nas relações internacionais

Passados quase dois meses da tragédia de 11 de setembro, é possível fazer um balanço provisório da marcha dos fatos e das conseqüências do atentado terrorista no plano das relações internacionais, assim como no da sensibilidade dos povos. Começando pelo primeiro tópico, o mundo escapou do pior.

Nos primeiros dias após o atentado, havia sintomas de que seríamos conduzidos a uma guerra generalizada entre as forças do Bem e do Mal. As declarações do presidente George W. Bush e do secretário de Defesa Donald Rumsfeld indicavam isso, com suas referências à necessidade de varrer do mapa os terroristas e os Estados que os abrigam, com suas alusões ao início de uma cruzada, tudo acompanhado de uma pitada de filme de faroeste: “Tragam Bin Laden, vivo ou morto”.

O bom senso acabou prevalecendo, com a visita simbólica de Bush à mesquita de Washington e a condenação da xenofobia e da “guerra entre civilizações”. Na estratégia do campo de batalha, impôs-se a linha representada pelo secretário de Estado Colin Powell. O ataque ao Talibã, que estaria na lógica de qualquer potência hegemônica, vem sendo realizado como uma iniciativa localizada, que obteve o apoio de aliados esperados e até certo ponto inesperados, como a China e a Rússia.

Nem por isso os temores estão dissipados. A campanha do Afeganistão reproduz, com marcas específicas, alguns aspectos de outras intervenções americanas. Apesar da imensa desproporção de forças, a guerra se prolonga, sem resultados práticos visíveis. As imagens de refugiados e de destruição enchem as páginas dos jornais e aparecem na tela da televisão, numa penosa sobreposição à tragédia de Nova York.

O prolongamento do conflito traz desdobramentos negativos para a situação interna instável dos países islâmicos, sendo o Paquistão, na linha de frente, o caso mais agudo. E surge o temor de como ficarão as coisas quando o Ramadã chegar, esticando ainda mais as cordas da sensibilidade religiosa, e, a seguir, com uma intervenção da natureza: o inverno. Isso, sem falar na hipótese de o conflito vir a estender-se a outros países, como desejam os falcões americanos.


Na esfera menos angustiante das relações internacionais, o 11 de setembro rompeu a unilateralidade do poder americano, traduzida na expressão “os Estados Unidos em primeiro lugar”, tão a gosto do presidente Bush e de seus assessores. O multilateralismo que se desenha, tendo como foco central os Estados Unidos, abriu espaço não só para a União Européia mas também para países como Rússia e China, justamente no momento em que esta adere à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Afinal, vamos ao que chamei de “sensibilidade dos povos”, desenhando-se em um arco que vai das comunidades islâmicas à sociedade americana. De saída, o ataque brutal colocou o mundo ocidental diante do Outro, ou melhor, diante dos Outros. Passamos a conviver, por algum tempo, com a figura de Bin Laden e seus pronunciamentos ameaçadores.

Passamos a conviver, principalmente, com a realidade variável do mundo islâmico, na sua abrangência de etnias árabes e de outras procedências. Não por acaso, nos Estados Unidos e na Europa os livros sobre o tema se esgotaram das prateleiras, alimentando a fome de compreensão dos leitores.

Como explicar, passado o primeiro sentimento de espanto, a reação entusiástica a favor dos atos terroristas e a mobilização de uma parte da população do Paquistão, da Indonésia e de outros países contra os Estados Unidos, entronizando Bin Laden como herói islâmico? Esse choque obriga a pensar no fosso que se cavou entre a mentalidade pluralista ocidental — independentemente do fato de que o Ocidente tenha também seus fundamentalistas — e a mentalidade fanático-religiosa, emanada de círculos que não são compostos de miseráveis.

A cúpula dirigente dos movimentos terroristas é formada por gente instruída, apta a realizar façanhas de grande porte, que revelam capacidade na utilização dos meios adequados e percepção aguda do papel estratégico da mídia no mundo contemporâneo.

Ao mesmo tempo, as ações terroristas têm o suporte de multidões desesperançadas, que encontram nos líderes fundamentalistas uma bússola que lhes dá uma razão poderosa de existência e a perspectiva de transpor, gloriosamente, os umbrais da vida eterna.

A visão de mundo maniqueísta, integrada por anjos e demônios, é uma receita tranqüilizadora que simplifica o mundo e estabelece uma fronteira entre nós e eles. O demônio, no caso dos países islâmicos, é o Tio Sam, convertido em Grande Satã, culpado por todas as violências deste mundo, o que não quer dizer que não seja de fato responsável por algumas delas.


Na outra ponta do arco de sensibilidades afetado pelo 11 de setembro, encontram-se as sociedades ocidentais. Em alguns países da periferia desse mundo, em que o Brasil se inclui, o golpe aplicado nos Estados Unidos reacendeu o velho terceiromundismo, sempre pronto a ressuscitar. É curioso observar a diversidade das reações ao ataque americano ao Talibã. De um lado, apoio maciço, no continente europeu. De outro, condenação majoritária, em países como a Argentina e o Brasil.

Subitamente, nesses países, esqueceu-se ou ignorou-se o caráter odioso do governo dos talibãs — a repressão às mulheres, às manifestações artísticas, a destruição de monumentos históricos etc. –, ficando tudo reduzido a uma luta de Davi contra Golias, com inevitável simpatia pelo primeiro.

O caso dos Estados Unidos merece ser considerado à parte. Diante de um ataque inusitado no coração de seu território, o governo e a sociedade americana reagiram em coro bem afinado, mas foram tomados pelo sentimento de insegurança.

Por mais que os governantes tenham insistido na necessidade de voltar à vida normal, é impossível seguir esse caminho em um país tido antes como invulnerável, golpeado fundamente, seja pelo atentado em si, seja pela seqüência dos atos de procedência nebulosa, que colocam na mesa das aflições o que poderia vir a ser o bioterrorismo em larga escala.

Ao interpretar a História, os historiadores oscilaram, no passado, entre dois pólos. De um lado, situava-se o interesse pela face mais visível dos acontecimentos, pelo desempenho dos atores centrais ou pela descrição do funcionamento das instituições. De outro, como resposta a essa corrente, a ênfase explicativa concentrava-se na chamada longa duração, caracterizada pela lenta mudança de estruturas sociopolíticas e, principalmente, das mentalidades.

De uns tempos para cá, no campo das interpretações, vem ocorrendo o retorno do acontecimento, entendido agora como um momento deflagrador de ondas que aceleram tendências ou impõem reviravoltas inesperadas. Nesse retorno, o terrível episódio de 11 de setembro ganhou certamente um lugar de destaque.

Boris Fausto é historiador