A bolsa já subiu 90% desde de 2016. Vale a pena comprar?

A bolsa já subiu 90% desde o início de 2016 e os investidores continuam colocando dinheiro no mercado. Vale a pena comprar ações agora?

São Paulo — Em situações normais, as bolsas de valores são um termômetro da economia: elas sobem quando as coisas vão bem e caem nas crises. Mas vivemos nos últimos tempos uma fase atípica. Desde que o Ibovespa chegou a 38.000 pontos, em janeiro de 2016, a bolsa já subiu 90%. Enquanto isso, a economia brasileira continuava a afundar numa das piores crises da história. Agora, parece que as coisas estão voltando ao normal: a economia começa — finalmente — a se recuperar e a bolsa ensaia mais uma arrancada.

Nem mesmo notícias negativas, como a piora da meta de déficit fiscal anunciada pelo governo, alterou o ânimo dos investidores. Além de pouco se importar com o anúncio, a bolsa logo depois subiu ainda mais quando Brasília comunicou que pretende privatizar a Eletrobras, embora não haja detalhes sobre quando e como isso será feito. No início de setembro, o Ibovespa chegou ao maior nível desde 2010 (ano em que, é bom lembrar, o PIB cresceu 7,5%): ultrapassou os 72.000 pontos.

A maioria dos analistas e dos investidores acredita que a bolsa já começa a ficar cara. Apesar disso, quase todos recomendam comprar. “Nunca vi ninguém ganhar dinheiro tomando decisões com base nos índices que mostram se as ações estão caras ou baratas. O que importa é que estamos saindo do fundo do poço”, diz Luiz Alves, gestor da empresa de investimentos GTI. Com essa filosofia, ele tem comprado ações há meses. Seu fundo, que atual-mente é um dos mais rentáveis do mercado, rendeu cerca de 200% em 12 meses.

A principal explicação para o otimismo dos investidores que estão colocando mais dinheiro na bolsa brasileira é a queda dos juros. A projeção média do mercado indica que a Selic, a taxa de juro básica,  cairá para 7,25% em dezembro, e há analistas que esperam menos que isso. É o mesmo patamar de 2012, mas, naquele ano, o Banco Central cortou as taxas na marra e elas voltaram a subir pouco depois. Hoje, com a inflação controlada, espera-se que a queda seja sustentável. Juros menores têm começado a melhorar os resultados das empresas, porque reduzem o custo do endividamento.

Dos 25 setores da bolsa, 13 lucraram mais no segundo trimestre deste ano, segundo um levantamento da empresa de informações financeiras Economatica. “A recuperação da economia ainda não está sendo suficiente para elevar o faturamento das empresas, mas a queda dos juros está ajudando mais do que o esperado”, diz Marco Saravelle, analista da gestora de investimentos XP.

A avaliação é que, quando o PIB voltar a crescer de fato — a expectativa é de uma expansão de 2% a 3% em 2018 —, os resultados vão melhorar e justificar os preços atuais das ações. “A bolsa não está barata, mas dizer que está cara é subestimar o poder de lucratividade das empresas daqui para a frente”, diz Will Landers, responsável pelo fundo de ações da América Latina da americana BlackRock, maior gestora de fundos do mundo, com um patrimônio de 5,7 trilhões de dólares. Landers elevou de 46% para 65% a parcela do patrimônio investida em ações brasileiras em dois anos.

Empurrão do exterior

Investidores e analistas também apostam que o cenário externo deve beneficiar a bolsa. Ainda que tenham começado a subir nos Estados Unidos, os juros lá continuam baixos historicamente, levando os gestores de fundos a buscar oportunidades de maior risco para aumentar a rentabilidade. Por enquanto, os investidores estrangeiros têm comprado com parcimônia no Brasil. Aplicaram 12 bilhões de reais na B3 (novo nome da BM&F Bovespa) neste ano, mas a participação de ações brasileiras em suas carteiras é pequena — inferior a 10% em fundos que seguem o índice de mercados emergentes MSCI (em 2009, a participação do país beirava os 20%). Ou seja, há espaço para novas compras de ações. O que tem deixado os estrangeiros cautelosos — e também os gestores de fundos de pensão no Brasil, que relutam em investir mais na bolsa — são as dúvidas em relação às eleições de 2018.

 (Divulgação/Revista EXAME)

Como não há candidatos oficiais até agora — e, por consequência, não há propostas ou programas de governo —, analistas e gestores têm considerado duas alternativas de cenário em suas projeções. Num deles, sairá vitorioso um presidente populista e todo o esforço fiscal será enterrado. Isso levaria a uma derrocada da bolsa. No outro cenário, o eleito estará comprometido com o ajuste fiscal e a reforma da Previdência. Essa previsão é tida como mais provável, mas seus impactos para a economia — e para a bolsa — vão depender de quem será o presidente de fato.

Além disso, mesmo que um candidato ortodoxo vença, caso as pesquisas mostrem um crescimento dos populistas, haverá volatilidade na bolsa. Ou seja, quem esperar pode conseguir comprar ações pagando mais barato. “Com tanta incerteza e neste nível de preço da bolsa, este não é o melhor momento para correr grandes riscos”, diz Marcelo Mello, vice-presidente de investimentos, vida e previdência da seguradora SulAmérica, que tem 34 bilhões de reais sob gestão. O risco, claro, é perder o bonde, como aconteceu com muitos investidores ao longo do ano passado.

O Ibovespa chegou a seu índice mais baixo desde a crise de 2008, de 38.000 pontos, no começo de 2016, meses antes do impeachment da presidente Dilma Rousseff, quando as perspectivas para a economia e para a política eram péssimas. O impeachment mudou as expectativas, mas quem comprou ações depois da saída da presidente, em 31 de agosto de 2016, ganhou pouco dinheiro.

A grande valorização ocorreu de janeiro de 2016 para cá, quando o Ibovespa teve uma alta de 90% e ações de empresas como a rede de laboratórios Fleury e a companhia aérea Gol subiram mais de 300% (os papéis da varejista Magazine Luiza valorizaram 3.000%). Disse uma vez o americano Peter Lynch, gestor de um dos fundos de ações mais rentáveis de todos os tempos: “Todo mundo tem capacidade mental para ganhar dinheiro com ações. O que nem todo mundo tem é estômago”. Seu fundo rendeu 29% ao ano, em média, na década de 90 — haja estômago.