A energia eólica dobra de tamanho, mas não sem tropeços

A capacidade de geração de energia eólica no Brasil vai dobrar neste ano e deverá ser a segunda maior fonte da matriz energética até 2022. Alguns obstáculos, porém, podem atrapalhar esse caminho

São Paulo – Com investimentos de mais de 20 bilhões de reais, os parques eólicos brasileiros se espalharam rapidamente pelo país ao longo da última década. Desde 2004, uma média de 20 torres de geração por mês foi instalada do Nordeste ao Sul. Nada se compara, porém, ao que acontecerá neste ano.

A partir do segundo semestre, o Brasil terá um salto recorde em volume de capacidade para a geração de energia eólica — o que, finalmente, começará a tornar o segmento relevante, com participação de 5,5% na matriz energética. Já será um patamar acima da média global — hoje de 4%.

Até 2022, estima-se que a geração eólica representará 9,5% do consumo de energia do país. Se tudo ocorrer como o planejado, a força dos ventos sairá da quinta para a segunda posição entre as fontes mais relevantes no Brasil, superando a biomassa e as termelétricas movidas a gás natural e a óleo.

“O potencial eólico do país é de 300 gigawatts, equivalente a 21 Itaipus”, diz Elbia Mello, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica. Ao final deste ano, a capacidade será de 7 gigawatts, ou meia Itaipu, segundo estimativas.

A ascensão de uma fonte alternativa de energia no país é mais do que desejável — sobretudo num momento em que a falta de chuva colocou o país diante de um desconfortável déficit de geração neste ano. A fonte eólica, além de renovável, é a segunda mais barata no país — atrás só da hidrelétrica.

Em locais como Caetité, na Bahia, os ventos sopram a uma velocidade média de 10 metros por segundo, fato raro no mundo. Mas a falta de planejamento, outra característica típica brasileira, pode tornar a geração eólica no Brasil um exemplo de como azedar o que tem tudo para dar certo.

Até agora a evidência mais eloquente da falta de planejamento estava nos 27 parques aptos a operar que ainda não iniciaram as atividades por ausênsia de linhas de transmissão. Todos ficaram prontos a partir de 2013 — e representam 17% da capacidade instalada no país.

A previsão é que comecem a operar até março de 2015. A razão: o governo concluiu a licitação para comprar energia de geração eólica e só um ano depois licitou sua conexão às distribuidoras. O pior: 1,1 bilhão de reais já saíram dos cofres públicos para pagar pela energia nunca entregue. O estrago só não é maior porque, a partir de 2013, os leilões exigem que a própria geradora providencie a transmissão.

Mais recentemente, uma mudança de regras imposta pelo BNDES semeou a discórdia no setor. No fim de 2012, o banco, principal financiador dos parques eólicos, anunciou que apertaria as exigências de nacionalização dos aerogeradores, estruturas gigantescas que convertem vento em energia.

Antes, o índice era de 60% de seu peso e valor, facilmente atingido com as enormes torres de concreto que sustentam as pás eólicas. Até janeiro de 2016, o índice será de 75% — e aí o percentual diz respeito às peças do gerador. 

De um lado a indústria de aerogeradores se queixa de que os custos e o risco de fornecimento aumentarão, por haver poucos fabricantes de peças locais. “Para alguns itens, há só um ou dois”, diz Edgard Corrochano, diretor da Gamesa, fabricante espanhola instalada no país desde 2011.

A mudança já encareceu os aerogeradores em até 20% em 2013. Na outra ponta, fornecedores de peças reclamam que se prepararam para produzir mais, seguindo a indicação do BNDES, mas não recebem pedidos. Na paulista Romi, cerca de 75% da linha de montagem dedicada ao setor ficará parada neste ano.

“Boa parte da indústria parece querer adiar até o último minuto as encomendas para derrubar os preços”, diz Roberto Veiga, presidente do conselho de energia eólica da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos. 

O prejuízo para a indústria será o habitual em casos de ajustes súbitos nas regras — a conta será paga por quem tem de mudar de rumo para segui-los. Do lado dos fabricantes de aerogeradores que já se adaptaram às novas exigências, como a catarinense Weg, o temor é ser escanteado caso o BNDES volte atrás.

“Investimos, mesmo sujeitos a preços piores”, diz João Paulo Gualberto da Silva, diretor de energia eólica da Weg, que já produz aerogeradores com mais de 80% de conteúdo nacional. “A instabilidade de regras é péssima para os negócios.”

Por enquanto, para o conforto de quem está na situação da Weg, o governo não deu sinais de que pretende ceder à pressão de parte da indústria.

Equipamentos mais caros — e a necessidade de manter os parques em áreas que já possuem conexão com distribuidoras — podem tornar o mercado mais desafiador para as geradoras. “Haverá menos projetos aptos a participar”, diz Lucas Araripe, diretor de novos negócios da Casa dos Ventos, maior vencedora dos leilões do ano passado.

Parece inevitável uma seleção natural das companhias aptas a seguir em frente — o que pode acabar com algumas distorções. Num leilão realizado em junho, a energia eólica foi vendida a um preço 10% maior do que o de 2013, ainda assim um patamar mais competitivo do que o de fontes como as termelétricas.

Mas bem diferente do que se viu em 2012, quando foi negociada abaixo do preço da hidrelétrica. A Bioenergy, pioneira no setor, arrematou quase todos os contratos naquele ano, com desconto de 21%. Difícil foi colocar o projeto de pé. No caminho, fornecedores como a GE pularam fora.

“O projeto ainda é viável”, diz Sergio Marques, presidente da Bioenergy, que tem parques com potência de 28 megawatts­ em operação e outros 500 megawatts em obras. Seus credores, pelo jeito, duvidam.

O banco ABC pediu a falência da empresa em março, por uma dívida de 1,6 milhão de reais. Se não reverter a situação, a Bioenergy pode registrar o primeiro tropeço num setor em que só parecia haver boas notícias.