“A riqueza das nações depende da herança cultura cultural”

O historiador americano David Landes, autor do best-seller A Riqueza e a Pobreza das Nações, morto em agosto, sempre defendeu a herança cultural como algo crucial para o sucesso econômico — para desespero dos politicamente corretos

São Paulo – Meu pai, David Landes, professor na Universidade Harvard e estudioso da história econômica, foi um grande historiador — talvez um dos melhores historiadores produzidos pela escola empírica. Isso porque, além de sua habilidade para pesquisar e analisar as evidências históricas, tinha uma capacidade ímpar de transmitir seus pensamentos numa prosa fluida, acessível e elegante.

Contava histórias sobre pessoas, paixões e relações numa época em que muitos economistas recorriam à matemática e à ciência para explicar padrões econômicos. Seu tópico favorito era a história empresarial, especificamente seu papel na Revolução Industrial.

Seu livro Prometeu Desacorrentado, publicado em 1969 nos Estados Unidos, oferece uma narrativa fascinante sobre a tecnologia desenvolvida na Europa durante os séculos 18 e 19 e como a economia mundial mudou para sempre, superando a fome e a miséria que os malthusianos consideravam inevitáveis. 

Minhas irmãs e eu crescemos numa família na qual a questão-chave era: como a Europa gerou uma cultura tão espantosamente produtiva e inovadora? Durante gerações, poucas sociedades, mesmo com tecnologia disponível, conseguiram imitar essa realização — o que revela quanto a sociedade europeia foi excepcional.

Nos anos 80, porém, muitos acadêmicos classificavam qualquer eurocentrismo desse gênero como politicamente incorreto. Esses críticos argumentavam que outras culturas (em especial, a chinesa) estavam no mesmo estágio de desenvolvimento do europeu até 1800, e somente fatores fortuitos permitiram a superioridade da Europa.

Para outros críticos, a Revolução Industrial nem sequer aconteceu. Um dos primeiros debates de meu pai envolveu a questão dos fatores que impulsionaram a industrialização: se foram recursos primários (como o carvão na Inglaterra) ou traços culturais (como a ética protestante).

Meu pai, ainda um aluno de pós-graduação de Harvard, contrariou a opinião de professores defendendo a segunda opção. Como pôde comprovar anos depois, estava no lado perdedor de um debate maior. No ambiente acadêmico em que viveu, comparações entre culturas eram evitadas. Qualquer sugestão de que a cultura europeia havia tornado o mundo melhor era vista como ofensa.

Ao longo de sua carreira, a visão politicamente correta venceu. Teses evolucionistas, explicadas por fatores externos, como clima, geografia e doenças, foram aceitas para justificar o progresso do Ocidente. Fatores intelectuais, morais ou culturais foram descartados e confundidos com insinuações de superioridade racial.


Meu pai estava ciente da dificuldade de defender seu ponto de vista. Numa passagem de A Riqueza e a Pobreza das Nações, seu livro mais vendido, publicado originalmente em 1998, ele escreveu: ‘Se aprendemos alguma coisa com a história do desenvolvimento econômico, é que a cultura faz toda a diferença. Mas a cultura, no sentido dos valores e atitudes que guiam uma população, assusta os acadêmicos. Ela tem o odor sulfúrico de raça e herança, um ar de imutabilidade’.

O curioso é que a popularidade da abordagem politicamente correta não teve nenhum efeito sobre meu pai. Ele amava uma boa luta intelectual e tinha certeza de que as teses de seus críticos não explicavam nada. Para sua mente positivista, os politicamente corretos eram ‘simplesmente anti-intelectuais’ e negavam os fatos.

Eles consideravam a industrialização como um fato consumado e supunham que qualquer outro povo, com as vantagens encontradas na Europa, teria feito o mesmo. Não para meu pai. A Europa teve as mesmas vantagens naturais por milênios, mas, até o século 11, não fez nada com elas. Por quê?

A construção da riqueza

Para meu pai, uma cultura econômica bem-sucedida era sempre fruto do trabalho produtivo, em que o mérito suplantava o status, e a riqueza se construía ‘fazendo’, e não ‘tomando’. Ele gostava de explicar que se pode compreender melhor a diferença fundamental entre católicos e protestantes ao analisar a forma como eles entendem os jogos de azar.

Os católicos dizem que, se você apostar, pode perder dinheiro. Os protestantes dizem que você pode ganhar e obter riquezas imerecidas. Ganhar, não tirar de alguém. Em certo sentido, essa visão era parte de sua vida pessoal. Meu pai fazia parte daquela ‘elite pequena, afortunada, que vivia para o trabalho’ e que mal terminava de escrever um livro começava outro.

O derrame que sofreu em 2008 determinou o fim de seu último projeto de livro, batizado de Latitudes, sobre o papel que a medição das coordenadas geográficas exerceu no início da globalização.

Lembro-me de um debate sobre a China entre ele e o historiador Ken Pomeranz, hoje professor na Universidade de Chicago. Após o fim do evento, os estudantes ocidentais correram em direção a Pomeranz para saber mais sobre por que o Ocidente não era grande coisa até 1800 e como a China estava se saindo bem até então.


Já os estudantes chineses presentes ao debate se aglomeraram em torno de meu pai para aprender mais sobre onde seu país havia errado. Pelos critérios de meu pai, a China era um país — e uma cultura — que merecia ser observado. Da mesma forma, ele falava elogiosamente de Fernando Henrique Cardoso, que, apesar de sua retórica anticolonialista quando jovem, abraçou políticas mais ortodoxas quando se tornou presidente.

Com isso, salvou o Brasil de uma inflação paralisante, que já era considerada um ‘fato’ da vida brasileira. Para acompanhar a dinâmica moderna, é preciso ser capaz de admitir erros.

O livro A Riqueza e a Pobreza das Nações foi uma crítica poderosa à cultura árabe, em particular à combinação de ‘dominação masculina’ com hostilidade às mulheres. Ele argumentou que esse traço puramente cultural (não há genes envolvidos aqui) tem um efeito duplamente nocivo na sociedade árabe: de um lado, exclui as mulheres, metade da força de trabalho; de outro, corrompe os homens.

Desde a infância, eles são treinados com um imerecido senso de privilégio que legitimava os maus-tratos contra as mulheres e a indolência. Com essa combinação letal, é difícil mesmo para uma cultura econômica fabulosamente rica sair do ‘tomar’ para o ‘fazer’.

Ironicamente, o que me chocou ao ler A Riqueza e a Pobreza das Nações foi a falta de um capítulo que representasse a nação que, na minha opinião, melhor ilustra essa tese sobre a importância da cultura. Em 1900, o território entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo, então parte do Império Otomano, estava entre as regiões mais atrasadas do Terceiro Mundo.

A tecnologia era primitiva, estagnada. A população era esparsa; e a produtividade, mínima. Essa região padecia de todos os problemas que costumam limitar o crescimento: escassez de água, doenças, alta mortalidade, carência de recursos primários e devastação ecológica.

Um século depois, Israel é uma das economias mais poderosas do mundo, não tanto em riqueza absoluta, mas nos elementos-chave que meu pai considerava tão importantes: empreendedorismo, inovação, produtividade e engenhosidade. Não há literalmente nenhuma maneira de explicar o sucesso econômico de Israel — alcançado em condições de ameaças de guerras e boicote de vizinhos — senão por fatores culturais.

Acredito que meu pai deixou Israel de fora de seu livro porque, no clima do pensamento reinante na época, acabaria afastando parte dos leitores. Apesar do ambiente que impede o debate aberto e sem medo na academia em pleno século 21, meu pai conseguiu defender suas ideias — e, na minha opinião, estava coberto de razão.

Para ele, as culturas são determinantes, mas isso, de forma alguma, as torna imunes ao fracasso. Culturas tidas como vencedoras poderão ser suplantadas por rivais hoje consideradas menos desenvolvidas. 

A mensagem de meu pai, morto em agosto último, nada mais era do que escolher o trabalho e o conhecimento. Ou seja, escolher a vida.”