Carta de Exame | A revolução na vida real

O setor financeiro e suas fintechs talvez sejam a bola da vez, com algumas das empresas novatas mais bem-sucedidas do mundo

Talvez a indústria da música tenha sido a primeira a ser revirada pela revolução tecnológica em curso. Depois a onda chegou às comunicações, mudando a forma como consumimos notícias e nos relacionamos. E ao transporte. E então ao turismo. Duas décadas mais tarde, não há virtualmente nenhum setor da economia imune ao fenômeno da revolução digital, como EXAME tem mostrado em diversas reportagens de capa nos últimos meses.

O setor financeiro e suas fintechs talvez sejam a bola da vez, com algumas das empresas novatas mais bem-sucedidas do mundo. Especialmente para nações pobres, como ainda é o caso do Brasil, está surgindo uma oportunidade rara para finalmente oferecer à parcela de baixo da pirâmide social as comodidades mais básicas de uma vida financeira moderna.

O número impressiona: ainda temos 45 milhões de brasileiros adultos sem conta bancária. Essa multidão toca a vida com dinheiro em espécie, seja no bolso, seja escondido em algum canto da casa. Não tem uma vida financeira mínima, sem acesso a crédito e correndo todo o risco no dia do pagamento num país com o nível de insegurança brasileiro.

Para não citar a imensa perda de tempo (e, portanto, de produtividade) ao encarar filas enormes para saques ou pagamentos que usualmente são feitos em segundos pelo celular. Havia, aí, uma oportunidade — e as novas tecnologias permitiram que ela fosse explorada.

É possível que o fenômeno dos sem-banco ainda esteja conosco por mais tempo. Vivemos num dos países mais desiguais do mundo, e isso se reflete das mais diferentes formas. Muitas das pessoas que nunca entraram num banco possivelmente vão continuar fora do sistema, mantendo um modelo antigo de lidar com as finanças. Mas especialmente os mais jovens estão sendo seduzidos por aplicativos que oferecem muito mais segurança e comodidade.

Eis aí algo conhecido por economistas do desenvolvimento há muito tempo: nações pobres podem dar saltos no tempo ao incorporar tecnologias novas, evitando subir um a um os degraus tecnológicos. Países africanos, por exemplo, que nunca tiveram uma rede de telefonia fixa ampla, adotaram de vez a telefonia celular, buscando se aproximar minimamente da fronteira tecnológica. E é exatamente pelo celular que muitos dos serviços financeiros serão oferecidos aos milhões de brasileiros sem conta em banco. É uma parcela de sua cidadania que agora começa a se materializar.

A tecnologia também é o pano de fundo de outra reportagem desta edição sobre as inovações relativas ao reconhecimento facial. Alguns estados brasileiros, notadamente a Bahia, começam a usar o reconhecimento facial para identificar e capturar bandidos e localizar carros roubados. Mesmos esses pioneiros ainda estão engatinhando — mas os resultados até agora são animadores. É outro exemplo de como a revolução digital transforma — para melhor — a vida do cidadão comum.