A retomada dos lucros

Em outro ano de economia fraca, as 500 maiores empresas do Brasil faturaram US$810 bilhões e os lucros subiram 123%

Nem o mais otimista dos analistas esperava que 2018 seria um ano fácil. As expectativas de um crescimento do produto interno bruto de quase 3% no início de março foram rapidamente frustradas com a greve dos caminhoneiros de maio. A esperança de uma reforma da Previdência antes do fim do ano se dissipou com o acirramento das disputas em uma eleição presidencial imprevisível, que culminou na vitória de Jair Bolsonaro (PSL).

Uma vez mais, o Brasil encerrou o ano com um crescimento acanhado do produto interno bruto, de 1,1%, e uma taxa de desemprego de quase 12%. Mas foi em um cenário difícil como esse que a elite empresarial do país conseguiu iniciar um processo de recuperação nas receitas e, principalmente, nos lucros. Juntas, as 500 maiores empresas faturaram 810 bilhões de dólares em 2018, quase 9% mais do que no ano anterior.

Os lucros das maiores empresas surpreenderam. Os 63 bilhões de dólares de ganho dessas companhias representam um crescimento de 123% sobre o número do ano anterior. Apenas em 2010, ano em que o Brasil viveu seu auge econômico das últimas décadas e teve um crescimento do PIB de 7,5%, as 500 maiores empresas do país tiveram um resultado dessa envergadura.

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Loja da rede varejista GPA: o foco nos negócios de maior retorno trouxe resultados | Alexandre Battibugli

O aumento dos lucros não foi fruto de medidas circunstanciais. Na maioria dos casos, foi resultado de um processo iniciado lá atrás. “Fizemos a lição de casa ao longo dos últimos quatro anos. Buscamos adaptar nosso negócio ao tamanho e às transformações do mercado”, diz Peter Estermann, presidente do grupo varejista GPA. Uma das estratégias da rede foi focar negócios de maior retorno, como o formato premium de supermercados, com o Pão de Açúcar, e o atacarejo, com a bandeira Assaí. No ano passado, o GPA fechou com uma receita de 6,9 bilhões de dólares, valor 2,7% menor em relação ao ano anterior. Os lucros, porém, chegaram a 291 milhões de dólares, quase o dobro do registrado em 2017. Os resultados, claro, não vieram apenas dessa flexibilidade de adaptação, como o próprio Estermann explica: “Realizamos um trabalho de olhar para dentro da companhia, com uma atenção especial à disciplina na gestão financeira”.

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Cada empresa tem um ponto diferente para explicar os resultados de 2018, mas tudo indica que as de melhor desempenho foram as que buscaram crescer com uma operação mais enxuta, na análise do professor Ariovaldo dos Santos, coordenador técnico da Fipecafi, fundação ligada à Universidade de São Paulo que coleta e processa os dados publicados em MELHORES E MAIORES. “Isso se vê de forma muito clara na rentabilidade do patrimônio, que no ano passado foi de 10,3%, a maior taxa da década”, diz Santos. Esse é um dos indicadores mais importantes de um negócio, pois mostra o retorno aos acionistas. A taxa CDI — uma referência para medir o retorno das aplicações financeiras — foi de 6,4% em 2018. Significa dizer que, para a média das 500 maiores empresas, investir em atividades produtivas foi um negócio rentável em 2018.

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Uma boa notícia é que essa rentabilidade não ficou circunscrita a um ou outro setor. Basta observar a lista das empresas mais rentáveis do ano passado — ArcelorMittal Contagem (siderurgia), Focus (energia), Livelo (serviços) e AutoBan (infraestrutura) são algumas companhias que tiveram um retorno sobre o patrimônio superior a 50%. Para obter esse desempenho, em alguns casos foi preciso não apenas cortar os custos mas também reduzir os preços ao consumidor. “O valor do aluguel de nossos automóveis é o menor dos últimos dez anos”, afirma Eugênio Mattar, presidente da locadora de veículos Localiza. A estratégia foi reduzir o tíquete médio para ampliar a escala. O número de carros alugados dobrou em cinco anos. Em 2018, a Localiza faturou perto de 1,7 bilhão de dólares, 28% mais do que o obtido no ano anterior. O lucro foi de 204 milhões, representando um retorno de 23% sobre o patrimônio.

Um dado positivo foi a redução do grau de endividamento geral. Em 2018, ele baixou dois pontos percentuais, fechando em 59,4%. Esse índice mostra a participação de recursos de terceiros na operação da empresa e é um bom indicador de risco do negócio. “A redução dos juros impactou o custo das dívidas e os resultados de várias empresas”, diz Antonio Sanvicente, professor na Fundação Getulio Vargas. Na CPFL Energia, essa mudança foi um alívio. “Mais de 60% de nossa dívida é indexada ao CDI, e a redução dos juros contribuiu de forma positiva para os resultados”, diz Gustavo Estrella, presidente da CPFL Energia, que atua nas áreas de geração, distribuição e comercialização de energia.

Frota da rede Localiza: redução dos preços para atrair mais clientes | Leo Drumond/Nitro

Apesar dos altos e baixos, o ano de 2018 terminou como começou: carregado de esperanças de que, enfim, a economia estaria próxima de sair do ciclo de baixo crescimento que marcou o país nos últimos anos. Mas os primeiros meses de 2019 mostraram que as coisas não seriam tão simples. “Acreditávamos em uma mudança concreta no ambiente econômico, mas, por enquanto, há uma frustração coletiva”, diz Luiz Pretti, presidente da Cargill. Em 2018, a Cargill faturou quase 12 bilhões de dólares, um crescimento de 28% em relação ao ano anterior, e gerou lucros de 157 milhões. Pretti acha que será complicado superar esses números neste ano. O presidente da Usiminas, Sérgio Leite de Andrade, também faz críticas aos resultados dos primeiros meses do governo Bolsonaro. “O governo ficou muito concentrado na reforma da Previdência e deixou de fazer ações de impacto mais imediato”, diz Andrade.

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A Usiminas é um exemplo de empresa que, mesmo em um ambiente econômico não muito amigável, está conseguindo dar a volta por cima. Em 2016, a siderúrgica estava em uma situação complicada — foram seis anos seguidos de prejuízo — e iniciou um processo de recuperação. Em 2018, gerou 3,3 bilhões de dólares em vendas, um crescimento de 22% em relação ao ano anterior, e lucrou 171 milhões. Além de uma série de mudanças internas, cortes de custos e aperfeiçoamento dos processos, a Usiminas nunca deixou de investir — neste ano, são cerca de 1 bilhão de reais. “O Brasil tem todas as condições de crescer”, diz Andrade. “O governo só precisa manter a austeridade e criar um clima de confiança.” Não parece muita coisa, mas pode fazer toda a diferença.