Vitória é a melhor cidade para os negócios no Brasil

Sem espaço para novas indústrias, Vitória se firma como um polo de serviços. A combinação de boa infraestrutura com população de alta renda faz dela a melhor cidade do Brasil para abrir um negócio

Vitória – Há quatro anos, quando o número de pedidos de marcação de exames cresceu a ponto de convencê-lo de que era hora de ampliar sua clínica de radiologia, o médico Renato Machado procurou os administradores de um shopping na Enseada do Suá, zona nobre de Vitória. Ele queria alugar 300 metros quadrados para acomodar equipamentos novos, mas não havia mais espaço.

O shop­ping então lhe ofereceu uma área de 1 000 metros quadrados na laje do edifício — sem teto, sem nada. Ele mesmo teria de erguer as paredes e bancar a construção. Machado não teve dúvida. Disse sim e foi buscar sócios para viabilizar um empreendimento bem maior do que tinha em mente.

De pastinha na mão, convidou médicos de outras especialidades, que arrebanharam outros interessados. Ao todo, 14 profissionais se cotizaram para investir 10 milhões de reais na construção do espaço, dividido conforme a participação de cada um.

O empreendimento, batizado de Centro Médico Shopping Vitória, abriu as portas no fim de 2011. Começou realizando 5 000 exames e consultas por mês.

Seis meses depois, o número de atendimentos dobrou e agora se aproxima de 12 000 mensais, número bem acima da expectativa dos empreendedores.

Entre os clientes do centro médico estão 200 executivos da mineradora Vale que antes tinham de se deslocar até São Paulo para fazer exames. “Tínhamos a intuição de que daria certo. Agora temos certeza de que é um bom momento para investir em Vitória”, diz Machado. 

O sucesso do grupo de médicos empreendedores ilustra bem o que está acontecendo na capital do Espírito Santo. Vitória é hoje o melhor lugar do Brasil para abrir um negócio, de acordo com um levantamento exclusivo feito pela consultoria paulista Urban Systems a pedido de EXAME.

O estudo analisou 293 municípios brasileiros com mais de 100 000 habitantes — a tropa de elite responsável por 71% do PIB do país. Para chegar a esse resultado, foram analisados 27 indicadores, que permitiram identificar os mercados mais promissores.

“Vitória ficou em primeiro lugar por ser a cidade mais equilibrada de todas”, diz Thomaz Assumpção, presidente da Urban Systems. “É a que apresenta os melhores indicadores, com destaque para sua infraestrutura portuária, uma das melhores do país, e para seu desempenho em educação, acima da média brasileira. Tudo isso se traduz em um ambiente de negócios que favorece a produtividade.”

Chama a atenção o predomínio de cidades médias nas melhores posições do ranking — entre as dez primeiras colocadas, sete têm menos de meio milhão de habitantes. “São cidades ainda com grande potencial de crescimento, ao contrário das economias já maduras”, diz Assumpção.

Além do ranking das melhores cidades para investir em negócios, o estudo apontou as melhores em quatro categorias: desenvolvimento econômico, desenvolvimento social, infraestrutura e capital humano. As cidades que se destacaram nesses quatro aspectos são apresentadas nas reportagens das próximas páginas.

A grande campeã

Vitória, a primeira colocada no ranking principal, é uma ilha com um pequeno território no continente, somando menos de 100 quilômetros quadrados (a cidade de São Paulo tem uma área 15 vezes maior), e com 330 000 habitantes.

Mas a população dobra durante o dia, quando moradores das cidades vizinhas vão trabalhar ou fazer compras na capital, deixando ali quase metade da riqueza gerada na Grande Vitória. 

Isso ajuda Vitória a ser a capital com o maior PIB per capita do país: quase 86 000 reais por ano, quatro vezes a média nacional. Vitória também é privilegiada em termos fiscais: fica com 40% dos impostos arrecadados na região metropolitana, embora abrigue apenas 20% da população. Isso facilita os investimentos em infraestrutura e serviços como saúde e educação.   

Nas ruas dos bairros nobres da cidade, cheias de arranha-céus e carros do último tipo, não é difícil perceber que ali se ganha e se gasta muito dinheiro. No entanto, a origem dessa riqueza não é tão evidente. Ela está a quilômetros da costa, na exploração de petróleo em alto-mar ou nas indústrias das cidades vizinhas.

Um estudo da consultoria capixaba DVF estima que o estado receberá 60 bilhões de reais em investimentos da cadeia do petróleo até 2018, gerando 15 000 empregos. Outras 25 000 vagas deverão ser abertas no mesmo período por investimentos de 25 bilhões de reais de empresas como a mineradora Samarco, o estaleiro Jurong e a fabricante de motores Weg.


O grosso desse dinheiro será aplicado fora dos limites de Vitória, mas boa parte da riqueza gerada deverá fluir para a capital. Afinal, um terço das atividades administrativas das 200 maiores empresas do Espírito Santo está em Vitória.

Uma delas é a Petrobras, cujo centro administrativo envidraçado de 90 000 metros quadrados, inaugurado em 2010 e que abriga 1 500 empregados, virou um dos cartões-postais da cidade. Outra é a Vale, que movimenta 120 milhões de toneladas de minério por ano no complexo industrial de Tubarão e emprega 20 000 pessoas.

A concentração de profissionais de alta renda faz dos serviços a verdadeira vocação econômica de Vitória. O setor é responsável por 75% dos empregos na cidade. De olho nesses consumidores, o produtor rural Paulo Gonçalves e as filhas Priscila e Paola decidiram, no fim de 2013, apostar no varejo.

Há três gerações colhendo cacau em Linhares, no norte capixaba, a família resolveu fabricar o próprio chocolate, uma linha de produtos finos chamada Espírito Cacau. O plano inicial era abrir uma loja em São Paulo, mas uma pesquisa de mercado apontou Vitória como o melhor lugar para lançar o negócio.

“Em São Paulo, sería­mos apenas mais uma chocolateria. Aqui, em três meses, dobramos as vendas”, diz Priscila. “Já temos mais de dez interessados em franquias.”

Além de atender os consumidores  que demandam serviços cada vez mais sofisticados, Vitória tem tudo para tirar proveito da concentração de empresas em seu entorno. Nos últimos anos, o Espírito Santo se firmou como o segundo maior produtor de petróleo do país, atrás apenas do Rio de Janeiro, e a produção tende a crescer com o pré-sal.

“Trata-se de uma grande oportunidade, para a qual Vitória ainda não está preparada”, diz Marcos Guerra, presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo. “Vitória deveria atuar como centro articulador entre o setor de petróleo e outras indústrias espalhadas pelo estado.”

A prefeitura afirma estar atenta às oportunidades do pré-sal. Cita os 100 milhões de reais que está investindo na criação de um centro de inovação e um parque tecnológico num terreno de 300 000 metros quadrados perto do campus da Universidade Federal do Espírito Santo.

“A ideia é fomentar negócios para prestar serviços de ciência e tecnologia para as indústrias das cidades vizinhas e da cadeia do petróleo”, diz Luciano Rezende, prefeito de Vitória. 

Não são poucos os que veem os negócios de tecnologia como a melhor opção para driblar a limitação territorial. É essa a aposta do empresário Marcílio Riegert, que criou há quatro anos, com sete sócios, a Start You Up, aceleradora de startups que busca transformar ideias em negócios virtuais.

Até agora  ajudou a formatar 27 negócios, para os quais pretende captar 40 milhões de reais dos investidores. Sete projetos já viraram empresas. “Vitória tem muitas universidades e pessoas com ótima formação”, diz Riegert. “Se conseguimos ter empresas globais de commodities, por que não na área de tecnologia?” 

O economista Arilton Teixeira, diretor da escola de negócios Fucape, observa que a alta renda per capita de Vitória escamoteia o fato de que o mercado consumidor é muito desigual, o que limita seu crescimento. De 1991 a 2010, o índice Gini, que mede a desigualdade social, aumentou de 0,58 para 0,61 em Vitória.

“Isso vai na contramão do Brasil, em que a desigualdade vem caindo”, afirma Teixeira. Em sua visão, falta também melhorar a qualidade­ da educação básica, reduzir a burocracia na gestão pública e ampliar os investimentos em infraestrutura.

“Vitória é uma cidade que tem condições relativamente boas, mas para hoje”, diz Teixeira. “É preciso aumentar os investimentos para que ela realize seu pleno potencial.”