Os americanos tentam reviver o Made in USA, longe da China

Os salários dos chineses estão mais altos e o preço da energia nos Estados Unidos mais baixo. Será a volta do Made in USA?

Nova York – Como ocorre todo mês de junho, a Apple realizou neste ano mais uma edição de sua conferência para desenvolvedores de software. O presidente da empresa, Tim Cook, abriu os trabalhos com uma apresentação na qual mostrou a nova versão do sistema iOS. O sistema nervoso de iPhones e iPads já proporcionou mais de 10 bilhões de dólares em receitas aos criado­res de aplicativos.

A explicação para es­se número é o sucesso desenfrea­do da Apple — desde o lançamento do primeiro iPhone, há seis anos, já foram vendidos mais de 600 milhões de aparelhos com o sistema iOS. Em meio às evoluções técnicas dos programas mos­trados pelos executivos da empresa, porém, ouviram-se quatro palavrinhas surpreendentes: “Montado nos Estados Unidos”.

O novo modelo do Mac Pro, computador dedicado aos profissionais que precisam de máquinas de altíssima performance, será pro­du­zido em solo americano. A notícia recebeu uma das maiores ovações do dia.

O público que presenciou o anúncio da Apple, formado em sua maioria por empreendedores digitais, não perdeu nem corre o risco de perder o emprego para competidores chineses. Pelo contrário: iPhones e iPads conti­nuarão a ser fabricados em sua grande maioria na China, pela Foxconn, e, quanto mais unidades puderem ser produzidas a um baixo custo, melhor para quem vive de criar aplicativos.

Mas o anúncio do mês passado, especialmente por ter vindo da Apple, é um indício significativo de uma tendência que parece estar ganhando força pelo mundo: depois de uma migração em massa para a China, muitas indústrias estão considerando fazer o caminho de volta.

De acordo com um levantamento da consultoria Boston Consulting Group divulgado no ano passado, um terço das empresas americanas com faturamento superior a 1 bilhão de dólares tinha planos para trazer a produção de volta para casa. Isso representaria entre 2 milhões e 3 milhões de novos (ou velhos) empregos para os americanos. 

Os exemplos ainda são pontuais. A empresa ET Water Systems, que produz sistemas de irrigação de grande porte, decidiu trazer de volta da China sua operação de manufatura. “Colocando no papel os custos de logística, tanto dos produtos como do pessoal, que tinha de ir e vir, concluímos que valeria mais a pena estar na Califórnia”, diz Pat McIntyre, presidente da empresa.

Ter as fábricas mais perto da sede também ajudou no controle de qualidade, um dos problemas enfrentados quando a produção acontecia do outro lado do planeta. Além de startups como a ET Water Systems, empresa que tem apenas 11 anos de vida, outros nomes mais conhecidos tomaram decisões semelhantes.

Talvez nenhum carregue mais peso do que a GE. “A manufatura está mais competitiva nos Estados Unidos hoje? A resposta é sim”, disse recentemente o CEO da GE, Jeff Immelt.


Immelt estava falando em um evento realizado em Washington, cercado por políticos, sobre um tema delicado para o eleitor de qualquer país: emprego. Na visão do líder da GE, a empresa que talvez mais perfeitamente simbolize o poder da manufatura americana, uma nova série de circunstâncias joga a favor dos Estados Unidos.

A primeira delas é o que ele chamou de manufatura avançada. Os custos de materiais estão maiores em relação aos da mão de obra. “Se conseguirmos um aproveitamento 1% melhor nos materiais, isso mais do que compensa qualquer economia que tenhamos com pessoal”, disse Immelt. Outro fator é o custo da energia.

Os custos de transporte de bens ao redor do mundo flutuam com o preço do petróleo, e o aumento da produção de gás natural em território americano é uma variável que passou a constar das planilhas da GE, de acordo com Immelt.

Números ainda tímidos

Apesar do cenário otimista desenhado pelo presidente da GE, os números contam uma história ainda um pouco diferente. Desde janeiro de 2010, o número de empregos de manufatura criados nos Estados Unidos foi de 520 000. Desse total, somente 50 000 correspondem a empresas que vieram de fora do país (ou trouxeram suas fábricas de volta), de acordo com um levantamento realizado pelo grupo de lobby Reshore Now.

Os dados utilizados pelo Reshore Now são colhidos dos anúncios das próprias companhias, pois não existe um indicador oficial para o número de empregos “repatriados”. Mas os sinais estão por toda parte. A GE abriu uma fábrica de aquecedores no estado de Kentucky, no sul do país. O investimento foi pequeno, de 38 milhões de dólares, mas a empresa tem planos de investir 1 bilhão de dólares em fábricas nos Estados Unidos até o fim do próximo ano, abrindo 1 400 novas vagas.

Outro caso emblemático, embora de pequenas proporções, é o da chinesa Lenovo. A fabricante de computadores anunciou no ano passado a abertura de uma unidade de produção no estado da Carolina do Norte. São apenas 115 funcionários — mas eles trabalham nos Estados Unidos, para um patrão chinês. 


Ninguém espera que o país volte a ter quase 20 milhões de operários, como foi o caso na década de 80, mas a distância entre o salário dos chineses e o dos americanos continua diminuindo. “Acredito que os resultados vão aparecer nos próximos dez anos”, diz Scott Paul, presidente da organização Aliança para a Manufatura Americana.

Se a diferença entre os custos de pessoal deixa de ser significativa, as empresas operam com estoques menores, gastam menos com logística, estão mais próximas de seus consumidores — e a tecnologia fica dentro de casa. A movimentação não acontece somente da China para os Estados Unidos.

De acordo com o Boston Consulting Group, em dois anos a indústria americana será mais competitiva do que a japonesa e a europeia. Em abril deste ano, o consórcio europeu Airbus lançou a pedra fundamental de uma unidade que receberá 600 milhões de dólares em investimentos e terá 1 000 empregos no Alabama, um dos estados americanos mais pobres. A fabricante de móveis Ikea, da Suécia, tem uma unidade de produção em território americano desde 2011.

Os sinais podem indicar um novo movimento migratório de empregos, mas há quem aconselhe cautela. Jan Hatzius, analista do banco Goldman Sachs, é um dos céticos quanto a uma eventual volta em massa da indústria para os Estados Unidos. Um dos motivos é que o preço da energia, um dos grandes moto­res da mudança, ainda não se fez sentir nas estatísticas.

“Ainda não vimos aumento substantivo na produção em setores que deveriam se beneficiar do boom de gás natural, como aço, alumínio e plásticos”, escreveu Hatziu num re­cente relatório. Além disso, os chineses não estão parados. Ao contrário.

O governo chinês tem plano de levar 250 milhões de pessoas do campo para as cidades nos próximos 15 anos. Esse número estarrecedor criará empregos (pro­vavelmente na indústria) e consumi­rá produtos e serviços. Para quem quer se aproveitar dessa outra onda migratória, não há escolha senão estar na China.