Investidor coreano entra em choque na Saraiva

A família saraiva, controladora da rede de livrarias, declara guerra ao investidor coreano Mu hak you — não é a primeira que ele se mete, mas tem tudo para ser a mais feia

São Paulo — O investidor coreano Mu Hak You, dono da gestora de recursos GWI, é um personagem conhecido na bolsa brasileira por ter um estilo peculiar de atuação. Ele forma grandes posições acionárias em companhias, usando instrumentos financeiros arriscados. Por causa disso, ficou rico — em compensação, seu jeitão já o fez quebrar duas vezes. Mas ele sempre dá um jeito de voltar.

Não dá entrevistas, não se deixa fotografar, fala português com forte sotaque e, devido à fidelidade de parte da comunidade coreana de São Paulo, sempre tem dinheiro para ressurgir. Mu Hak, diga-se a bem da verdade, não tem medo de brigar com gente grande.

Em 2006, tornou-se inimigo declarado de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira ao conseguir um assento no conselho de administração da varejista Lojas Americanas, controlada por eles. Dois anos depois, perdeu tudo e teve de vender as ações. Sua maior derrota aconteceu em 2011, quando levou um tombo ao apostar na valorização das ações do frigorífico Marfrig.

Como as ações despencaram e ele estava alavancado — ou seja, usava o dinheiro que tinha e, principalmente, o que não tinha —, acabou indo à lona. Depois de alguns anos sumido, ele escolheu seu novo alvo: a varejista Saraiva.

Sua briga com os controladores da rede de livrarias está começando a esquentar: eles se preparam para acusá-lo formalmente de manipular as ações e de invadir a sede da empresa em busca de informações confidenciais. Mu Hak começou a acumular ações da Saraiva no fim do ano passado.

Em maio, atingiu uma participação de 45% das ações preferenciais (sem direito a voto), ganhou uma vaga no conselho de administração e indicou a advogada Ana Recart, que trabalha na GWI, para o conselho fiscal. De lá para cá, declarou guerra a Jorge Eduar­do e Olga Saraiva, que, juntos, têm 58,7% das ações ordinárias (com direito a voto) e, portanto, o controle do negócio.

A Saraiva virou alvo de Mu Hak porque vale hoje na bolsa pouco mais de 100 milhões de reais, apesar de ter receita de 1,8 bilhão de reais e 112 lojas em 17 estados do Brasil. Em três anos, as ações caíram 85%. Desde sua criação, há 102 anos, a Saraiva atuava em dois ramos: editava livros, especialmente didáticos e jurídicos, e mantinha uma rede de livrarias.

Em 2013, a Saraiva passou a enfrentar sérias dificuldades, causadas pela combinação de resultados em queda com dívida em alta. Em 2015, foi forçada a vender seu braço editorial para a Somos Educação, usando os 725 milhões de reais que recebeu para melhorar sua situação financeira. O pagamento vai terminar neste ano.

No entanto, a Saraiva vendeu seu negócio mais estável para ficar com o mais complicado. De lá para cá, os investidores perguntam: qual vai ser a cara da nova Saraiva? É aqui que entra Mu Hak You. Cheio de ações da Saraiva, o corea­no passou a atuar como investidor “ativista”, aquele que interfere no negócio e, eventualmente, entra em conflito aberto com os controladores.

Primeiro sugeriu a criação de um comitê de crise, que seria encabeçado por ele. Desde que foi para o conselho, solicita todo tipo de informação da companhia e reclama que elas não são entregues. Ao mesmo tempo que é conselheiro, é também acionista e gestor de um fundo que opera tanto na compra quanto eventualmente na venda das ações da empresa na bolsa.

Os controladores reclamam que ele acessa informações confidenciais e opera livremente com os papéis com base nelas. No feriado de Corpus Christi, na sexta-feira 27 de maio, Mu Hak resolveu passar na sede da companhia, em São Paulo.

Apresentando-se como conselheiro da empresa e na companhia da advogada Ana, conselheira fiscal, entraram nas dependências da diretoria da Saraiva, vazias por causa do feriado. Gravações de câmeras internas mostram que eles andaram pelas salas de trabalho e de reuniões, mexeram em papéis e objetos, verificaram se havia computa­dores ligados e deixaram recados avisando que passaram por lá.

As imagens não mostram que tenham feito nada de errado nem fica claro qual o objetivo da visita. De qualquer forma, a família Saraiva considerou a atitude uma invasão da empresa e, no fim de junho, preparava-se para apresentar à Comissão de Valores Mobiliários uma queixa sobre o comportamento desses conselheiros.

Duas semanas depois da visita considerada invasiva pela Saraiva, a GWI pediu ao conselho a convocação de uma assembleia de acionistas para tratar da atual situação econômico-financeira da companhia e discutir medidas para “mitigar a possibilidade iminente de insolvência”. Os Saraiva ficaram apopléticos: por que o maior acionista minoritário da empresa estava lançando, publicamente, a dúvida sobre sua viabilidade?

O conselho se reuniu seis dias depois, em 16 de junho. O encontro, que durou mais de 8 horas, foi tenso, de acordo com relatos de presentes. Isolado, Mu Hak começou cobrando a entrega de documentos e informações sobre a empresa. Iniciou-se, então, um bate-boca acalorado com um dos diretores, e logo a controladora Olga Saraiva interveio pedindo a ele que respeitasse o funcionário da empresa.

O tom da discussão subiu e Olga, com o dedo em riste e a voz alterada, exigiu duas vezes que Mu Hak ficasse “quieto”. O filho de Olga, Jorge Saraiva Neto, conselheiro e atual presidente da companhia, levantou-se para acalmar a mãe. Passado o bate-boca, os diretores tentaram convencer, com números, o investidor coreano de que a Saraiva não está à beira da insolvência.

Em seguida, alertaram Mu Hak para a gravidade da mensagem que uma convocação como a que ele sugeria traria, uma vez que geraria uma preocupação “infundada” em clientes e fornecedores e poderia criar dificuldade de acesso a crédito.

Mas os três conselheiros controladores e outros três independentes não conseguiram convencer Mu Hak, que repetiu que, em sua avaliação, a companhia não tinha mais tempo e ele deveria convocar a assembleia para dar uma satisfação aos acionistas que o elegeram para o conselho. Procurados, GWI e Saraiva não quiseram dar entrevista.

A Saraiva foi à Justiça e obteve uma liminar para impedir que a GWI convocasse a assembleia. Mas, antes que a liminar saísse, a GWI fez uma convocação publicada em jornais, para o dia 6 de julho, na qual não falou abertamente em insolvência, e sim em “discussão sobre os desafios da Saraiva diante do atual cenário econômico”.

A assembleia está em suspenso, mas a família agora acusa Mu Hak de querer espalhar notícias negativas sobre a empresa, manipulando o mercado para beneficiar-se da queda nas cotações e comprar ainda mais ações da Saraiva. Como ele é o maior minoritário, também perderia com a desvalorização — mas a acusação mostra a que nível chegou a desconfiança de lado a lado.

Outros minoritários da Saraiva ouvidos por EXAME apoiam o que consideram o objetivo final da GWI: aprimorar a governança da empresa e trocar seu comando.

Na própria assembleia que colocou Mu Hak no conselho, ele e outros minoritários da companhia, entre eles dissidentes da família Saraiva, conseguiram vetar a distribuição de dividendos e o pagamento de bônus para executivos que comandaram a venda da editora. A chegada de Jorginho, como é conhecido o filho dos controladores, à presidência coincide com a queda livre das ações.

Ele tem 32 anos e se formou em administração em 2010. A presidência da Saraiva é seu primeiro emprego e, para os investidores, ele não tem o perfil nem a experiência necessários para comandar a empresa num momento de reestruturação e num cenário difícil como o atual.

Pessoas próximas à Saraiva afirmam que os controladores planejam se afastar da direção, contratar um executivo e deixar Jorginho apenas no conselho de administração. Mas somente depois de concluída a guerra com seu mais incômodo acionista minoritário.