A missão de vida de Roberto Civita

Roberto Civita escolheu para si um trabalho grande e assustador, que só homens de muita coragem são capazes de assumir: mudar o Brasil

São Paulo – O trabalho não faz sentido se não for movido por um propósito grandioso, firme e genuíno. Esse é um discurso bonito, adotado por muitos, levado a sério por alguns e praticado por uma minoria.

Ao longo de minha carreira como jornalista, encontrei pouquíssimos empresários brasileiros que encaravam seus negócios não como algo que poderia lhes garantir fortuna e poder, mas como a manifestação concreta de um sonho grande, a construção diária de um legado, um instrumento de mudança, uma missão de vida.

No decorrer de minha jornada, não conheci outro empresário que se dedicasse tão ardorosa e teimosamente a mudar o Brasil, assumindo os riscos e pagando o preço que fosse cobrado, quanto Roberto Civita. RC não trabalhava para si próprio ou para a Abril, embora tenha feito dela a potência editorial que é hoje.

Ele trabalhava pela construção de um país mais moderno, mais justo e mais próspero — para todo e qualquer brasileiro. Uma nação onde a honestidade valesse mais que a malandragem. Onde o mérito vencesse preferências pessoais ou políticas. Onde as oportunidades suplantassem os privilégios. Onde fazer o que é certo fosse a regra, e a verdade, um valor.

Roberto Civita escolheu para si um trabalho grande e assustador, de um tipo que só os homens e as mulheres de muita coragem, aqueles de espírito absolutamente liberto, são capazes de assumir.

Defender o que ele defendia — na política, na economia, nos negócios — muitas vezes significou dizer verdades inconvenientes, desagradar gente poderosa, chatear amigos, abrir mão de ganhos financeiros que poderiam fortalecer — pelo menos no curto prazo — algo que ele amava com um fervor quase religioso: a Abril, cujas revistas, EXAME inclusive, ele jamais admitiu que fossem chamadas de “produtos”.

Nossas revistas eram conselheiras, amigas, companheiras. Eram vozes que ecoavam as aspirações da sociedade. Eram faróis e eram sentinelas. Como chamar algo assim de produto?

Roberto Civita amava tanto seu trabalho como editor quanto odiava o cinismo embutido no pensamento de curto prazo. Dezenas de vezes o escutei repetir que a perenidade da Abril e o sucesso e a relevância de seus títulos seriam consequência da excelência do trabalho de cada funcionário da empresa e de nossa defesa intransigente dos interesses de uma única pessoa: o leitor.

Seu compromisso — e o nosso — era com a verdade. Ao fazer isso, poderíamos enfrentar obstáculos no presente. A recompensa estaria adiante. Foi agindo dessa forma, não transigindo, não negociando seus valores e suas convicções, que RC entrou para a história. Não apenas como um editor intuitivo e brilhante.

Não apenas como o criador das mais relevantes e influentes publicações brasileiras. Não apenas como o empreendedor que acreditava no novo. Não só como o inspirador de gerações de profissionais. Mas também, e sobretudo, como o homem que, enquanto viveu e trabalhou, transformou o Brasil num país melhor por meio das mais poderosas das armas: ideias e palavras.

Roberto Civita escolheu transformar sua vida numa missão. Ele jamais desistiu dela. Como empresário e como homem, poucos brasileiros podem ser considerados tão vitoriosos quanto ele.